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Festival de Inverno

Dos sentimentos que desabrocham do além-mar

por Leonardo Vila Nova

“… Carminho é a mais nova e a mais bela floração desse renascimento do fado entre jovens portugueses que já faz agora mais de década. Ouvi-la cantar essa canção de exílio brasileira com voz de quem mal atravessou o oceano para vir aqui nos ensinar tanto, foi de fazer chorar “.

Essa frase, escrita por Caetano Veloso, em sua coluna semanal no jornal O Globo, quando da apresentação da cantora portuguesa no Prêmio da Música Brasileira, resume com primor o que simboliza Carminho para a música do seu país, assim como fora dele. E, principalmente, em terras brasileiras. Não só Caetano, mas Chico Buarque, Milton Nascimento, Nana Caymmi, Ney Matogrosso e Alceu Valença também se renderam ao canto dolente, forte e comovente dessa jovem de 29 anos, que demarca, com sua voz, um novo lugar do fado na música contemporânea mundial.

Costa Neto

Costa Neto

A cantora portuguesa Carminho encantou o público da Praça Dominguinhos ao som de fados portugueses

Carminho foi uma das atrações da noite de abertura do 24º FIG, na noite desta quinta (18). A presença cativante da cantora, o caráter envolvente da música que ela gorjeia, altiva e, ao mesmo tempo, delicada, hipnotizaram o público que esteve presente, no Palco Mestre Dominguinhos. Além disso, seus predicados como intérprete, em muito apontam para um (re)encontro de duas culturas que se entrelaçam há mais de 500 anos, falando a mesma língua, não apenas no campo das palavras, mas, principalmente, dos sentimentos. A cantora apresentou um repertório que passeia pelos seus dois primeiros discos, “Fado” (2009) e “Alma” (2012) – o terceiro CD está para ser lançado em outubro.

Fonte principal do seu trabalho, o fado é popularíssimo em seu país, mas ainda com pouco alcance no Brasil, mas, nem por isso, estranho aos ouvidos. Muito da natureza emotiva que se encontra no fado lusitano se assemelha à passionalidade típica do brasileiro. Um canto que requer entranhas, alma e, absolutamente, nenhuma economia de sentimentos. A sua origem é um tanto quanto incerta. Diz-se que incorporou elementos dos cantos dos mouros. Uns (a maioria) sugerem que ela nasceu em Portugal. Outros acreditam que ela foi gestada a partir da simbiose de elementos da modinha e do lundu, no Brasil, tendo sido levada para além-mar pelo imperador português D. João VI. Independente de quaisquer teorias, o fado representa uma tradição do cantar o introspecto humano, a saudade, os amores que doem. Talvez seja essa linguagem tão passional que faz com que o fado consiga domar uma gigantesca plateia que se aglomerava em frente ao palco, contemplando nos momentos corretos e aplaudindo quando assim se mostrava necessário. Todo um respeito àquele canto e à sua intérprete.

Costa Neto

Mesmo diante da chuva, público manteve-se firme para contemplar o canto de Carminho

Nisso, reside uma identificação direta quando se percebe quem canta os sentimentos. O show comovente (e envolvente) de Carminho teve uma resposta à altura. Constantemente ovacionada pelo público, era possível notar que ela sentia-se em meio aos seus. Ali, não havia mais Brasil ou Portugal. Ali, havia emoção. “A profundidade dos sentidos e das emoções e a necessidade que temos de expandir esses sentimentos. Isso, seja da forma mais extrovertida e alegre, como é o brasileiro, ou da forma mais nostálgica, como é o português, mas ambos muito profundos, procuram sempre exteriorizar isso“, declarou Carminho, após o show, ao falar sobre esse ambiente de similaridades que há na interpretação da música portuguesa e brasileira. E, em seu show, houve uma mescla perfeita disso tudo.

Além dos típicos fados e modinhas portuguesas, estiveram presentes no repertório alguns brasileiros: “Carolina”, de Chico Buarque, “Contrato de separação”, de Dominguinhos, além “Frevo n° 1”, de Antônio Maria, ganharam, na voz de Carminho, contornos de verdadeiros fados lusitanos. “Fado é aquilo que eu sinto como meu, que eu posso dar os meus sentimentos e a minha emoção“, pontua. E o que ela canta – num domínio impressionante de sua voz, que atinge mínimas delicadeza e explode em magnitude nos momentos de maior força – requer um envolvimento seu e também da plateia. O que há de sedutor no canto de Carminho e na desenvoltura dos instrumentistas que a acompanham é realçado pela mínima utilização de recursos outros. Luz mínima, intimista, ausência de cenário (apenas um fundo preto), trazem à linha de frente o que realmente importa ali: a canção.

Devolvendo o fado ao ambiente que lhe é íntimo, muito menos geograficamente, e muito mais sensivelmente, Carminho pretende um reencontro consigo mesma e com sua arraigada identidade portuguesa, mas também um reencontro de identidades que se caracterizam por colocar profundidade, delicadeza e emoção no que entoam. Como o bem disse Caetano Veloso, uma floração, um desabrochar de tudo o que nos bole por dentro. Seja aqui… ou lá.

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