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Festival de Inverno

Público do FIG é apresentado à versão cineasta de Alceu Valença

O cantor e diretor exibiu 'A Luneta do Tempo' no Cine Eldorado, conversou com a plateia e ainda animou uma multidão no maior palco de shows do festival

por Marina Suassuna

A sala do Cine Eldorado, na última quarta-feira (27), ficou pequena para a exibição de A Luneta do Tempo, filme de Alceu Valença na 12° Mostra de Cinema do FIG. Mesmo quem não conseguiu pegar ingresso uma hora antes da sessão, pôde acompanhar a exibição sentado nas escadas, já que os assentos estavam completamente lotados. A presença de Alceu no final da exibição, para debater com o público, causou um verdadeiro frisson. O público não se conteve em tietar o cantor. Ainda assim, foram muitas as pessoas que acolheram o filme e se interessaram em discutir a obra, questionando acerca das referências e inspirações do diretor, a trilha sonora, o elenco, entre outros aspectos.

Laís Domingues

Exibido em diversos festivais pelo Brasil, A Luneta do Tempo recebeu dois Kikitos nas categorias melhor trilha musical e melhor direção de arte no 42º Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul. O filme marca a estreia de Alceu como cineasta, mas sem deixar a música de lado. Centrado nas figuras de Lampião e Maria Bonita e tendo o sertão pernambucano como pano de fundo, o longa-metragem se configura como um faroeste com traços tipicamente brasileiros, utilizando mitos populares para narrar uma história de amor e ao mesmo tempo de ódio entre famílias, além de traições, amores, crimes e castigos. “Esse filme foi feito da maneira que eu queria. Era um bullying danado comigo porque falavam que as pessoas não iam entender o filme, já que ele se passa em três narrativas. É um filme que fala sobre o cangaço, mas num outro viés. Também estou falando da entender a vida, há uma coisa política por trás disso, a questão da ditadura” declarou o diretor durante o debate.

Com diálogos rimados, Alceu evoca a literatura de cordel e outros símbolos da cultura popular que marcaram sua trajetória e suas raízes em São Bento do Una, interior de Pernambuco, a exemplo da cantoria, dos emboladores e violeiros, do circo, da poesia e do cinema. “A cultura verdadeira é a cultura feita com o coração, que vem de uma região. Apesar de eu morar no Rio de Janeiro desde 1970, ter morado em Paris e vivido pelo mundo, a minha cultura primária é aqui, minha região é agrestina e depois o Recife. Então, tudo que vem de mim, vem dessa raiz”, disse o músico e diretor, que assinou a própria trilha sonora.

Laís Domingues

Grande parte do público não conhecia a verve cinematográfica de Alceu. Acostumado a vir ao Festival de Inverno de Garanhuns como atração musical (na mesma noite da exibição ele ainda encerrou a programação do Palco Mestre Dominguinhos), o cantor proporcionou, dessa vez, uma experiência diferente ao público e demonstrou muita satisfação em trazer o filme para Garanhuns, cidade onde morou durante a adolescência. Na década de 70, Alceu já tinha se relacionado com o universo cinematográfico como ator em A Noite do Espantalho, de Sérgio Ricardo. No seu filme, ele volta a atuar rapidamente no papel de um palhaço de circo. Sobre sua aproximação com a sétima arte, ele comentou: “Eu assistia muito filme em São Bento do Una. Antigamente, tinham dois cinemas lá, o Cine Jardim e o Glória, mas eram cinemas pequenos. Depois eu comecei a assistir muito filme francês da Nouvelle Vague e também do realismo italiano. Depois que virei cantor e eu ia fazer shows e só assistia filmes sábado e domingo.”

O diretor ainda criticou a atual política de exibição no Brasil. “O problema do cinema brasileiro é que estão acabando as salas de exibição nos interiores e os filmes da capital são muito problemáticos porque são filmes que recebem prêmios e uma boa crítica internacional, mas não tem espaço de exibição. A Luneta do Tempo, por exemplo, teve um reconhecimento internacional muito bom, vai passar agora num festival da França, também recebe uma boa crítica no Brasil, mas no Rio de Janeiro só tinha quatro cinemas pra exibir. Agora, Batman e Superman que são uma m****, passaram em 80 cinemas. Como você pode levantar o cinema brasileiro desse jeito? Não consegue!”.

Laís Domingues

“Assim como sua música é essencial para a nossa vida, o seu trabalho cinematográfico agora também se mostrou essencial. Quero saber quando virá o próximo?”, questionou um espectador a Alceu Valença, que disse não fazer nada premeditado. “O próximo filme será quando eu me motivar. Levei mais de dez anos para fazer A Luneta do Tempo. Estudei cinema com uma moça de Olinda, que meu deu entre 10 a 15 aulas e depois estudei por conta própria, fui lendo literatura na parte de cinema e fiz o filme.”

Assista ao trailer de ’A Luneta do Tempo’:

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