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Festival de Inverno

Versos temperados com pimenta e eletricidade

Siba e Azougue Vapor trouxeram uma vestimenta plural à musicalidade da Zona da Mata, no Palco Dominguinhos

Pra quem acha interessante saber o significado desse nome colocado nesse projeto importante: azougue é ritmo vibrante que o corpo inteiro irradia e o vapor é poesia, com tempero e com sabor, que o poeta sambador sabe fazer todo dia

Costa Neto/Secult-PE

Costa Neto/Secult-PE

Siba e Azougue Vapor mostraram a universal música da Zona da Mata Norte

por Leonardo Vila Nova

Em versos bem ritmados, o poeta transpira (e inspira) um mundo inteiro ao seu redor. Azougue Vapor não é apenas um nome. É um gesto importante de transcendência musical, que amplia ainda mais o que podemos entender por música brasileira contemporânea. Com uma programação que transbordou pluralidade, ao longo de 10 dias, em seu último dia (sábado, 26), o 24º Festival de Inverno de Garanhuns não poderia encerrar melhor: Siba e Azougue Vapor mostraram, no Palco Dominguinhos, o quanto a universalidade da linguagem musical permite (re)combinações, diálogos e enfrentamentos estéticos fecundos.

Azougue Vapor é o novo projeto do músico e compositor Siba, que estreou no carnaval deste ano. O grupo é uma junção de dois momentos distintos do artista: ele une a musicalidade da Zona da Mata Norte – representada na figura dos mestres João Limoeiro e João Paulo – ao formato de banda, com guitarras, bateria, percussão e tuba (no lugar do contrabaixo). Ciranda e maracatu de baque solto com uma vestimenta eletrificada. Um feito que já é costumeiro quando se trata de Siba. No entanto, o resultado é sempre surpreendente e só vem a endossar que a nossa música é afeita a estabelecer conexões e simbioses. “A cultura popular é sempre colocada como folclore, uma coisa antiga, matéria-prima para outras coisas. A minha ideia é colocar esses elementos e essas forças de expressão em movimento, em diálogo, em choque, de criar um desconforto no público, no que ele percebe que as coisas não tem um lugar tão fixo assim, que a cultura popular não está parada no tempo e no espaço, ou que é sempre igual“, disse Siba sobre o projeto, antes do show.

Costa Neto/Secult-PE

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Mestre João Paulo, do Azougue Vapor

A forte presença dos mestres João Limoeiro e João Paulo, encarnando a ciranda e o maracatu rural em essência, só vem a reforçar o quanto a musicalidade de Zona da Mata Norte é, em si, muito mais independente de um território geográfico e encontra ressonância em outras atmosferas sonoras. O diálogo entre as guitarras de Siba e Caçapa, assim como a vibração da percussão de Mestre Nico, a sagaz e experimental bateria de Antônio Loureiro, e a tuba precisa de Leandro Gervásio parecem criar um universo muito próprio de musicalidade que pode soar íntimo a qualquer ouvinte de qualquer lugar do mundo.

No show que eles apresentaram no Palco Dominguinhos, muita improvisação na voz de Siba, João Limoeiro e João Paulo. Ao sabor de sambadas eletrificadas, eles versaram sobre futebol (a mal fadada campanha da seleção brasileira nesta Copa do Mundo), sobre Garanhuns e Ariano Suassuna. Na guitarra, Caçapa brincava durante os toques (sequências rítmicas/musicais às toadas dos mestres), mandado temas como “Iron Man” (Black Sabath), “You know I’m no good” (Amy Whinehouse), “Ela é top” (MC Bola) e até mesmo a música de chamada a cobrar. E o público esquentava cada vez mais ao som envenenado dessa mistura.

Costa Neto/Secult-PE

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Mestre João Limoeiro, do Azougue Vapor

A ideia de Siba é de um projeto a longo prazo, aberto a experimentações e novas participações. “O Azougue Vapor ainda vai durar um bom tempo e iremos chamar novos mestres. Nomes não faltam. A ideia é que, um dia, consigamos fazer um grande espetáculo, reunindo vários mestres, em 3, 4 horas de apresentações, como numa sambada de maracatu“, diz Siba, ao completar que, por enquanto, não há previsão de disco a ser gravado.

Por enquanto, a de se seguir a máxima do próprio Siba: “Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar”, música também apresentada no show e que traduz bem o sentimento do Azougue Vapor. O mundo é dinâmico, a cultura também. É desse diálogo entre o mundo e a sua cultura que se dá cria a possibilidades diversas de fruição artística. Azougue Vapor é do nosso tempo e é muito além dele.

Três décadas de rocks e metamorfoses

São 32 anos de carreira e uma trajetória marcada por inúmeras metamorfoses. Os Titãs é uma das bandas mais respeitadas do rock brasileiro e fizeram a trilha sonora de algumas gerações brasileiras. Foi deles o show que encerrou a programação do 24º Festival de Inverno de Garanhuns, no último sábado (26). Os cinquentões do rock brasileiro empunharam suas guitarras após uma rajada de fogos de artifício que celebrava o encerramento do festival. Depois, foi só rock na veia.

Costa Neto/Secult-PE

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Titãs mandaram ver com muito rock’n'roll

Com o título de “Nheengatu”, o novo disco dos Titãs os traz de volta a uma fase mais pesada (que se aproxima do disco “Titanomaquia”, de 1993). Ao longo dessas três décadas, eles já passaram pela new wave, grunge, punk, acústico, romântico, entre outras fases, que mostram a disposição constante em se reinventar. “Todos nós temos um gosto musical bem diversificado. Dentro da banda, isso entra em ebulição, e acaba sendo muito natural. Vez ou outra, fazemos uns pactos em torno de algumas balizas estéticas, como foi o caso desse último disco, pra gente investir toda nossa energia num caminho”.

Costa Neto/Secult-PE

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Público vibrou ao som dos Titãs

Durante o show deste sábado, o disco esteve presente com três músicas: “Fardado”, “Terra à vista” e “Mensageiro da desgraça”. O restante do repertório contou com os grandes sucessos da banda. Entre as 23 músicas, estavam “Marvin”, “Bichos escrotos”, “Homem primata”, “AA UU”, “Cabeça Dinossauro”, “Lugar nenhum” e outros grandes clássicos da banda. Com uma energia de impressionar, Paulo Miklos, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto parecem ainda ser os roqueiros rebeldes que despontaram no Brasil, nos anos de 1980. A execução de “Polícia” reforça isso, com o público instigadíssimo, em rodas de pogo.

E foi com muito rock’n'roll que o 24º Festival de Inverno de Garanhuns se despediu do seu público. Ano que vem tem mais.

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