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Formação Cultural

Aula-teatro conta para estudantes a história do revolucionário Frei Caneca

Apresentação de 'O Suplício de Frei Caneca' aconteceu nesta segunda-feira (11), numa sessão voltada para alunos da rede pública de ensino

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Montagem pincela de forma sucinta um recorte na biografia do frade, mais precisamente os sete últimos anos de sua vida

Marcus Iglesias

Mais do que um espetáculo, uma aula-teatro sobre um dos episódios mais importantes da história do país, a Revolução Pernambucana de 1817, liderada pelo revolucionário Joaquim do Amor Divino Rabelo, o famoso e desconhecido Frei Caneca. Em tempos nos quais a intolerância e a subtração de vários direitos conquistados pela sociedade se fazem constantes, o viés libertário da montagem O Suplício de Frei Caneca é um estimulante necessário para a mente dos seus espectadores, ainda mais quando são jovens estudantes de duas escolas da rede pública de ensino como os que estavam presentes na apresentação realizada na última segunda-feira (11), em mais uma parceria com o projeto Outras Palavras – da Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe.

Simbolicamente, talvez não exista lugar tão representativo e cênico para a peça como a Capela Ordem Terceira do Carmo do Recife, localizada ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no bairro de São José, onde aconteceu a apresentação. Foi ali, na Igreja do Carmo, que Frei Caneca viveu durante o período da ordenação até sua morte. “Seu corpo, depois de fuzilado, foi jogado na porta da igreja. Os frades recolheram e o enterraram aqui mesmo, neste território. Ninguém sabe até hoje onde exatamente ele foi enterrado, tamanha era a vergonha que se tinha desse herói nacional”, revelou o diretor do espetáculo, José Francisco Filho, em conversa com os estudantes no local.

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Sessão foi voltada para alunos de duas escolas da rede pública de ensino, uma de Olinda e outra de São Lourenço da Mata

Escrita por Cláudio Aguiar, O Suplício de Frei Caneca pincela de forma sucinta um recorte na biografia do carmelita, mais precisamente os sete últimos anos de sua vida. Alguns episódios citadas na montagem são, por exemplo, quando Frei Caneca ficou preso na Bahia por sua participação na Revolução Pernambucana de 1817, ou como ele recebeu o processo de outorga da Constituição de 1824, iniciado pelo Imperador Dom Pedro I, que resultou na Confederação do Equador (1824). O espetáculo é repleto de discursos do frade inspirados pelos ideais iluministas da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

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Quem passa a vida que eu passo / Não deve a morte temer / Com a morte não se assusta / Quem está sempre a morrer”, diz o personagem em diversos momentos da peça

Sensorial, a montagem tem cheiro, textura, som e luz que criam um cenário à parte, uma volta no tempo. Desde o incenso utilizado pelos frades em várias cenas, até a música e sonoridade específicas no momento do fuzilamento do mártir pernambucano, o espectador se envolve na história, como se assistisse ali ao vivo o que aconteceu naquela época fugida da memória de Pernambuco.

Depois da encenação, os cerca de cem alunos das escolas Áurea de Moura Cavalcanti, de Olinda, e D. Leonor Porto, de São Lourenço, puderam conversar com o elenco e o diretor do espetáculo, num bate-papo informal mediado pelo historiador Zélito Passavante. “Na época do Império aqui no Brasil, o imperador era a figura do rei e de Deus na terra. A ideia do Frei Caneca, que curiosamente era da igreja, foi peitar isto que estava posto e dizer que era necessária uma constituição pactuada para que todos fossem felizes. E é esse pacto que é negado, mas o processo é tão forte que fica e que gera um século de revolta no Brasil”, explicou o historiador.

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No final do espetáculo, os estudantes tiveram uma conversa com diretor e elenco para falar melhor sobre quem foi Frei Caneca

“Em 1814 e 1815 houve uma grande seca no Nordeste, e quando a corte portuguesa veio ao Brasil eles trouxeram mais de três mil pessoas na comitiva e colocaram a sede da colônia no Rio de Janeiro. Para manter esta corte, começaram a aumentar os impostos, e a província de Pernambuco era uma das que mais rendia. Os impostos aqui começaram a ser maiores, inclusive a iluminação do Rio de Janeiro era paga pelos nossos impostos”, detalhou por sua vez o produtor da montagem, Manoel Constantino, que também integra o elenco.

“Os comerciantes e a Igreja, influenciados pelas ideias iluministas da Revolução Francesa, e juntamente com a maçonaria, começaram a se articular para combater este império que só fazia cobrar, e assim começou a Revolução Pernambucana em 1817. Durante setenta dias fomos independentes do império português”, pontuou Manoel.

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“O melhor presente que vocês podem dar a todos nós que fazemos este trabalho é passar esse conhecimento ao próximo, que outras pessoas possam se aproximar da história desse grande herói pernambucano”, disse o diretor José Francisco Filho

Um dos alunos presentes, Leandro Duarte, disse que não conhecia a história de Frei Caneca, e que ficou muito interessado no assunto. “Como arte-educador há bastante tempo, eu sou adepto de uma escola que tenha a prática mais substanciada. Pegando o exemplo do nosso amigo Leandro, é uma coisa maravilhosa podermos fazer aqui o que chamamos de aula-teatro. Porque o que vocês tiveram foi muito mais do que um espetáculo, foi um recorte da história de Pernambuco. Nós conseguimos em 50 minutos colocar aqui sete importantes anos da nossa história”, disse José Francisco Filho.

“Ao mesmo tempo em que fico muito contente, me surpreende que um vulto da nossa história seja tão pouco divulgado, e isso não é só um problema da escola. Muita gente da universidade não consegue entender a importância desde frade que está aqui, e quando eu digo aqui é porque foi nesta igreja que ele viveu e propagou suas ideias”, comentou o diretor da peça, para depois fazer um pedido aos estudantes. “O melhor presente que vocês podem dar a todos nós que fazemos este trabalho é passar esse conhecimento ao próximo, que outras pessoas possam se aproximar da história desse grande herói pernambucano”.

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‘O Suplício de Frei Caneca’ conta com a atuação do renomado ator Buarque de Aquino, que interpreta Frei Caneca

De acordo com a professora Vera Lúcia Ferreira, da Escola D. Leonor Porto, haviam na plateia muitos alunos do Ensino Fundamental, que ficaram encantados com o tema abordado. “Tiveram vários que chegaram pra mim e disseram: ‘Professora, a gente não sabia nada dele’. Eu acredito que pra eles foi um momento incrível. Quando entrarem agora no Ensino Médio vão chegar com mais conhecimento, saber quem foi Frei Caneca, e talvez até cobrem do professor de História uma abordagem mais aprofundada sobre o tema. Acho que isso deveria se repetir outras vezes, não só para a escola, mas também para a população em geral”, opinou.

O Suplício de Frei Caneca conta com a atuação do renomado ator Buarque de Aquino, que interpreta Frei Caneca e também participou do debate, além de uma equipe formada por mais de 20 pessoas, entre artistas e técnicos. A trilha é executada ao vivo por Júlio César Brito e Matheus Marques, e alguns poemas de Frei Caneca foram musicados, como “Quem passa a vida que eu passo / Não deve a morte temer / Com a morte não se assusta / Quem está sempre a morrer”, presente no livro: Obras políticas e literárias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

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