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Formação Cultural

Música independente e literatura pernambucana pautam edição do Outras Palavras

Projeto da Secult-PE e Fundarpe esteve nesta terça-feira (12) em Caruaru com a participação do escritor premiado Walter Moreira e da banda recifense Dirimbó

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Escritor convidado, Whalter Moreira Santos, conquistou por duas vezes o Prêmio Pernambuco de Literatura

Marcus Iglesias

Uma conversa sobre a produção literária e a música independente pernambucana deu o tom da edição do Outras Palavras realizada na última terça-feira (12), na Escola Técnica Ministro Fernando Lyra, em Caruaru. Na ocasião, o escritor Whalter Moreira Santos falou um pouco sobre sua produção literária, que dentre as mais de 60 premiações na bagagem conquistou por duas vezes o Prêmio Pernambuco de Literatura. Na sequência, foi a vez dos estudantes conversarem com a banda recifense Dirimbó, grupo que conta com dois EPs lançados e se prepara para gravar seu primeiro disco autoral, além de entrar em turnê pelo Brasil ano que vem.

Voltado para os alunos da rede pública do estado, o projeto da Secult-PE e Fundarpe alcança seu potencial máximo quando há o que aconteceu em Caruaru, a identificação dos alunos com o que é discutido durante os encontros. Identificação essa que se entende também durante a exibição do curta A Hora da Saída, produzido durante o projeto Cine Cabeça, levado às escolas como uma mostra do que os estudantes podem fazer juntos e através da arte.

“Essa é uma aula diferente que a gente oferece a vocês, com apoio da escola, porque queremos construir um ambiente escolar agradável e que nos enriqueça ainda mais no ponto de vista do conhecimento. Deixo aqui para a biblioteca da instituição um kit do Outras Palavras com vários livros de escritores premiados no Prêmio Pernambuco de Literatura, e ressalto que muita gente já produziu peça de teatro com base nessas publicações. Então vamos usar nossa criatividade pra construir um ambiente escolar mais dinâmico e lúdico, e um mundo melhor pra nós todos”, explicou Antonieta Trindade, gestora do projeto e vice-presidente da Fundarpe.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Queremos construir um ambiente escolar agradável e que nos enriqueça ainda mais no ponto de vista do conhecimento”, disse Antonieta Trindade sobre o Outras Palavras, projeto do qual é gestora

O jornalista e cineasta Marcos Henrique Lopes, mediador do Outras Palavras, abriu o debate com o escritor Whalter Moreira, que venceu a primeira e quarta edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, respectivamente, com os livros de contos O metal que somos feitos e Todas as coisas sem nome. Sobre esta última obra, o mediador perguntou como surgiu a ideia dessa publicação.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Debate com o Whalter Moreira Santos foi mediado pelo jornalista e cineasta Marcos Henrique Lopes

“Não sei se vocês se lembram, mas houve um acidente da TAM de um avião que ia pra Paris e que caiu próximo ao arquipélago de Fernando de Noronha. Eu soube de um casal que estava indo passar lá a sua lua de mel, e pensei em como isso era uma tragédia. Isso ficou na minha cabeça, porque me coloquei na pele dessas duas pessoas. Tem muita coisa envolvida nesse evento, porque além da tragédia, eles morreram juntos, quase como um Romeu e Julieta. Um dos contos do livro foi inspirado nisso”, revelou.

“Outro conto foi inspirado em Judas, que é um personagem bíblico, na minha opinião, mal compreendido. Apesar dele ter vendido Jesus, eu tenho a impressão que ele não queria que ele fosse preso, porque Jesus sempre escapava. Há várias passagens na Bíblia que os centuriões chegavam para prendê-lo e ele não estava mais. Tanta prova que ele não queria vendê-lo de fato que devolve as moedas depois. Se coloquem na pele desse personagem. Ele queria o dinheiro, mas era pra causa do evangelho, porque ele era contador, e toda a parte financeira era Judas quem cuidava. Essa possível falsa interpretação desse homem foi outra coisa que me incomodou”, disse Whalter Moreira.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Durante a conversa, Whalter Moreira deu detalhes da produção do seu livro ‘Todas as coisas sem nome’, que venceu a IV edição do Prêmio Pernambuco de Literatura

O escritor aproveitou para opinar sobre como a literatura deve ser tratada no ambiente escolar, com estratégias para atrair o jovem a ler mais livros. “Já pensou se chegam pra você e te obrigam a ficar ao lado de uma pessoa trinta dias e ainda fazer um relatório sobre a convivência? Isso não dá certo. Tá tudo errado nesse mecanismo. A gente precisa de uma escola que tenha uma variedade de livros e que promova uma série de encontros como esse para que a partir daí o adolescente escolha o que quer ler”.

Whalter Moreira contou que, por exemplo, começou a adquirir o hábito da leitura de uma maneira nada convencional. “Meu pai era motorista de ônibus e de vez em quando alguém esquecia um livro no ônibus. Então eu lia os livros esquecidos, era toda a minha informação. Um dia esqueceram o Chamado Selvagem, do Jack London, que é um livro incrível, acho que todo adolescente deveria lê-lo. Acho que esse foi o primeiro que eu li e reli várias vezes”, relembrou.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Outras Palavras em Caruaru contou com forte participação dos estudantes, que fizeram diversas perguntas ao escritor

Vários blocos de perguntas foram feitas ao autor, e uma delas questionava a Whalter como foi que ele resolveu escrever. “Sempre fui aluno de fundo de sala, ficava desenhando e escrevendo. Sempre tive diários, e tenho trabalhado com ilustração e design gráfico. Mas sou advogado de formação, e eu estava nesse mundo. Em 1999 eu vi uma entrevista de um editor no programa da Marília Gabriela falando que o autor brasileiro não era profissional, e aquilo me incomodou. Eu tinha um diário sobre bipolaridade que deu origem ao Chuva Amarela, e assinei com o pseudônimo William L. Esse livro vendeu mais de 50 mil exemplares”.

Sobre este livro, lançado em 2000, uma estudante da plateia quis saber se nesse livro o autor ajuda outras pessoas a lidar com esse transtorno mental. “Já são dezessete anos de lançado, mas eu gosto muito de falar sobre o assunto. Eu usei o pseudônimo nesse livro porque no começo eu não queria falar, já me sentia contemplado em ter escrito. Mas ai eu passei uns dois anos fazendo palestras, participando de bienais, conversando com as pessoas, porque a gente precisa falar a respeito. Ainda há um preconceito muito grande. Um exemplo era no meu trabalho, quando eu dizia que ia ao oculista, e ninguém reagia, continuava trabalhando, e quando eu dizia que iria ao psiquiatra as pessoas levantavam a cabeça”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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A conversa com Whalter Moreira foi seguida de uma apresentação da banda Dirimbó, do Recife

O bate-papo foi seguido de uma apresentação da banda Dirimbó, do Recife, que teve seus trabalhos iniciados em 2013. Após dois anos de estudos e de diálogos entre as músicas amazônica e nordestina, a banda faz sua estreia no Recife e ainda no primeiro ano de circulação integrou o line-up de importantes festivais como o Coquetel Molotov, Festival de Inverno de Garanhuns, Circuito off da MIMO Olinda e Som na Rural, entre outros. Atualmente o grupo é formado por Bruno Negromonte  (bateria), Mário Zappa (baixo), Rafa Lira (vocal e guitarra) e Vítor Pequeno (guitarra), e conta com dois EPs lançados: Dirimbó (2015) e Deixar Tu Loks (2017) - este último conta um videorelease explicando a produção do trabalho.

Foi com essa bagagem de produção independente que alguns integrantes da banda conversaram com os estudantes. Bruno Negromonte, por exemplo, adiantou que em maio de 2018 a Dirimbó completa três anos de estrada. “E já temos dois EPs lançados e bem reconhecidos pela crítica e público. Pra quem não sabe o que é um EP, é como se fosse um disco só que com menos músicas. Ano que vem a gente lança nosso primeiro CD, com 12 faixas autorais, e vamos fazer uma turnê por alguns estados do Norte e Nordeste, depois São Paulo e Rio de Janeiro”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Eu já estive no lugar de vocês uma vez. Na minha escola se apresentou uma banda e isso influenciou demais a minha carreira”, disse Bruno Negromonte, baterista da banda

Questionado por um dos alunos sobre quais os maiores desafios que eles enfrentaram com a banda, Rafa Lira, vocalista e guitarrista do grupo, contou que é unanimidade entre o grupo que o maior deles é fazer as pessoas acreditarem que isso pode ser seu trabalho. “Porque a música, assim como a arte em geral, é sempre vista ainda como um ‘hoobie’. Isso vem mudando porque o mundo está mudando, mas no tempo que a gente começou a tocar, com uns 15 anos de idade, eu tive que convencer muita gente de que era isso que eu queria ser profissionalmente”, disse o vocalista, para em seguida puxar uma das canções autorais do grupo, intitulada Deixar Tu Loks. Outras músicas, como Carimbó do Selfie e Medo Real fizeram parte do repertório.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Para Rafa Lira, vocalista da banda, o maior desafio do grupo é convencer as pessoas de que a música, assim como outras formas de arte, são profissões que exigem compromisso e dedicação, e não apenas um ‘hoobie’

Além de falar sobre seu trabalho autoral, divisão das funções dentro da banda e outros detalhes, o grupo foi questionado sobre qual sonho almejava com a Dirimbó. “Eu já estive no lugar de vocês uma vez. Na minha escola se apresentou uma banda e isso influenciou demais a minha carreira. E hoje a gente está falando pra vocês. Isso aqui hoje é a realização de um sonho também. Depois do Carnaval, a gente vai pra São Paulo tocar em dois SESCs de lá, e isso é outro sonho que a gente como banda vai realizar. A gente trabalha todo dia pra que essas coisas sejam possíveis, pequenos e grandes realizações”, contou o baterista da banda, que em janeiro próximo fará uma turnê por alguns estados do Nordeste e em Belém do Pará. Depois da conversa, a Dirimbó deu de presente alguns EPs para os alunos que participaram da atividade.

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