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Formação Cultural

Outras Palavras comemora dois anos de revolução no ambiente escolar

Edição comemorativa, realizada no município de Tacaimbó, contou com a participação da escritora Cida Pedrosa e do cantador Adiel Luna

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Vários estudantes, que nunca haviam tido um contado direto com escritores pernambucanos na vida, saíram de lá empolgados com as histórias que ouviram durante a edição em Tacaimbó

Marcus Iglesias

Há dois anos uma equipe de educadores e profissionais da Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe, dispostos a mudar a realidade do ambiente escolar para melhor, deu iniciou a um projeto que revolucionou a vida de muita gente – principalmente a de jovens estudantes da rede pública de ensino. Nesta última quinta-feira (31), o Outras Palavras celebrou duas voltas em torno do sol e de resistência dentro das escolas, construindo na prática o ideal de fazer andarem lado a lado os conceitos de cultura e educação. A data comemorativa teve direito a uma edição inédita na EREM José Leite Barros, localizada no município de Tacaimbó, agreste do estado, com a presença de dois mestres da palavra encantada: a poetisa e escritora Cida Pedrosa e o cantador e repentista Adiel Luna.

Os números por si só mostram o quanto a revolução citada é real. Nos últimos dois anos, das 44 edições realizadas até aqui (incluindo a de Tacaimbó), a iniciativa atingiu 350 escolas, mais de oito mil alunos e distribuiu cerca de 4.500 livros nas bibliotecas por onde passou. Dentre os kits entregues nas instituições de ensino, há livros, CDs e DVDs produzidos com incentivo do Funcultura, além das publicações vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, premiação concedida pela Secult-PE que já teve quatro edições.

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“Chegou a hora da gente falar e ir à luta, defendendo uma escola que seja de fato um ambiente de conhecimento e de resistência”, disse Márcia Branco, integrante da equipe do Outras Palavras

Márcia Branco, integrante da equipe do Outras Palavras, ao iniciar as atividades no EREM José Leite Barros, lembrou do papel importante que o projeto puxa para si, principalmente diante de tempos onde a desinformação parece prevalecer nos meios de difusão do conhecimento – como a internet, a rádio e a TV. “Sobre esse momento e aproveitando que temos dois poetas conosco, quero dizer aqui um trecho de uma poesia de Eduardo Alves da Costa, chamada No caminho com Maiakóvski, que diz assim: ‘[...] Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor do nosso jardim / E não dizemos nada / Na segunda noite, já não se escondem / pisam as flores / matam nosso cão / e não dizemos nada/ Até que um dia/ o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa / rouba-nos luz / e conhecendo nosso medo/ arranca-nos a voz da garganta / E já não podemos dizer nada. [...]’. O recado que quero deixar com essa poesia é que chegou a hora da gente falar e ir à luta, defendendo uma escola que seja de fato um ambiente de conhecimento e de resistência”, ressaltou.

Com mediação do cineasta e jornalista Marcos Lopes, o debate com Cida Pedrosa teve como enfoque a produção literária da autora, que entre outras ocupações é também gestora da Secretaria da Mulher do Recife. A poeta subiu ao palco carregando uma malinha que continha dentro suas principais publicações, numa provocação para mostrar que ali carregava seu ofício. Ao todo, a escritora pernambucana nascida em Bodocó tem sete obras lançadas, dentre elas os livros Claranã e As Filhas de Lilith – relançado recentemente.

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Cida Pedrosa subiu ao palco com uma maleta com várias publicações suas. Antes de ir embora, deixou de presente na biblioteca da escola exemplares de livro que escreveu ou fez parte

“Eu vou começar perguntando aqui: Quem gosta de poesia?”, questionou Cida, presenciando algumas dezenas de mãos levantadas. “E quem aqui já teve a oportunidade de conversar ao vivo com um escritor ou uma escritora?”. Nesta hora, apenas quatro jovens levantaram a mão. “A gente está o tempo inteiro habituado a dizer que seu fulano é pedreiro, dona Maria é professora, Geruza é enfermeira, João é vaqueiro. Falamos as profissões das pessoas, mas nunca imaginamos que João, que é vaqueiro, pode ser também um poeta aboiador. Nem pensamos que de repente a professora pode escrever contos nas horas vagas ou o pedreiro fazer literatura de cordel. Realmente, do ponto de vista legal, escrever ainda não é uma profissão. Existe uma batalha muito grande dos cordelistas e dos violeiros, do povo que faz a música e a poesia, para transformar isso em algo regulamentado por lei Mas esses livros que trago aqui comigo são minha produção, e ela é a produção de um escritor. Não deixa de ser um trabalho justo, e eu espero muito que a meninada que está aqui e queira ter este ofício um dia possa se sustentar assim”, disse Cida Pedrosa.

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Dezenas de estudantes, a maioria pela primeira vez, puderam ter através deste Outras Palavras um contato direto com uma escritora pernambucana

A poeta aproveitou para falar um pouco sobre sua obra literária e destacar algumas de suas poesias preferidas. “O livro Cântaro foi todo escrito em verso livre e verso branco, que não tem rima nem métrica. E vou ler aqui uma das poesias que estão nele, chamada Chama, que diz assim: ‘Não te direi o simples convite / Pois o meu corpo é dúvida / Cavalga em mim as incertezas / É dessa matéria a minh’alma / Há muitos anos curvas e círculos me habitam / Não te direi poesias de amor / Nem cantarei canções desesperadas / Mas se quiseres trago no peito o cheiro das estações / Na língua a infâmia dos oprimidos / Enfim, eu tenho o colo em chamas / Para fazer morada”, concluiu.

Presente no local, o diretor de Cultura da Prefeitura de Tacaimbó, Ivanar Nunes, quis saber da autora se ela enxergava no ambiente literário uma desigualdade em relação a ela por conta do machismo ainda presente na sociedade. “Essa é uma boa pergunta e eu digo que há diferença sim entre mulher e homem. Vocês estudam no vestibular sobre uma escritora chamada Rachel de Queiroz, que escreveu O Quinze. Essa mulher em 1952 ganhou o maior prêmio de literatura do Brasil, dado pela Academia Brasileira de Letras. Mas ela nunca fui eleita para integrar a ABL, apenas em 1972, já com quase 80 anos, e foi a primeira mulher a chegar lá. Só depois de ser conhecida no mundo todo. Hoje nós só temos seis mulheres na Academia Brasileira de Letras, das 40 vagas. A Academia Pernambucana de Letras tem 11 de 40 vagas. Na Câmara dos Deputados temos 10% de presença feminina. São números alarmantes. Precisamos fazer nossa voz ser ouvida. Recentemente eu produzi um trabalho chamado Poesia Bicho Fêmea que levou ao palco sete poetisas pernambucanas com mais de 70 anos que foram esquecidas pela crítica literária. Nomes como Adélia Prado e Lenilde Feiras, que apesar de ser paraibana mora aqui há muito tempo. São minhas referências, e assim como elas há muitas outras autoras mulheres que precisam ter sua voz ouvida”, opinou.

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Sobre os próximos passos, Cida Pedrosa revelou: “Estou escrevendo um livro que é um único poema longo, que já tem umas 40 páginas no Word, sobre a minha ligação com o blues e o baião”.

Perguntada pela estudante Kelly Raiana, do 2º ano, sobre qual tipo de poesia ela gostava mais, Cida Pedrosa revelou estar empenhada numa nova publicação que bebe exatamente de sua trajetória.Claranã foi meu último livro publicado e ele foi todo metrificado. Eu tenho uma mania de inventar coisas, gosto de fazer cada livro de um jeito, e no momento estou escrevendo um livro que é um único poema longo, que já tem umas 40 páginas no Word, sobre a minha ligação com o blues e o baião. E nele eu bebo das várias formas de fazer poesia, seja a livre e urbana, imaginal, como a poesia popular, que também é maravilhosa. Mas neste último caso, por exemplo, existem poetas preconceituosos que colocam os gays e as mulheres em condições inferiores à deles. Não são todos, mas alguns fazem isso. E no Claranã eu busquei imprimir essa luta contra essa prática. Pensando nisso, fiz um galope (poemas com dez versos de onze sílabas) gay , um grito de luta dentro de uma métrica fechada que muitas vezes foi utilizada de forma preconceituosa. ‘Dois homens se encontram / No espaço do leito / No rumo da flecha / Que aponta pra Eros / Seus lanços são fortes / São quentes sinceros / Tal qual o desejo / Que trazem no peito / Se despem na noite / Num duo perfeito / Que costas se postam / Se entregam pra amar / E são duas fontes / De água a jorrar / Paixão de iguais / Feito em outra medida / Libertar a nau que ancora na vida / De amores benzidos na beira do mar’”, recitou, sob aplausos da plateia.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“Quem agora gosta de poesia?”, questionou Cida, para depois se emocionar com a quantidade de jovens impactados com sua obra

Ao fim da conversa, Cida Pedrosa ficou emocionada ao querer saber novamente quem gostava de poesia e perceber que o número de mãos levantadas praticamente duplicou em comparação à primeira vez que ela perguntou. Antes de se despedir, deixou com a escola cópias de As Filhas de Lilith, da antologia Francisco Espinhara, poesia possível e Um Rio de Poesia, organizado por Alexandre Ramos e que fala sobre os poetas do Pajeú. As duas últimas publicações contaram com incentivo do Funcultura.

Terceira vez participando do Outras Palavras, o cantador e repentista Adiel Luna já rodou bastante por todo Pernambuco levando sua cantoria de viola. Mas revela que é no ambiente de formação que se encontra como artista-cidadão. “Costumo dizer que o meu papel como artista eu resolvo no palco, mas eu tenho um papel que venho desempenhando de maneira muito intuitiva e instintiva que é na escola. Já faz alguns anos que eu trabalho nessa linha, principalmente no que diz respeito à poética oral e tudo que a envolve. Pra mim é um prazer enorme porque o Outras Palavras é mais um palco que cumprir esse papel ativista. É ai que eu coloco toda minha força de transformação de um mundo que eu sonho. Este é um dos melhores palcos pisados que eu tenho pra poder tratar desse assunto, da riqueza que é a nossa poética popular”, destacou.

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“Faço votos para que esta iniciativa só cresça e que outros a imitem porque este é o caminho mais real para a educação que a gente tanto sonha”, celebra Adiel Luna sobre os dois anos do Outras Palavras

Mestre da improvisação com a palavra, Adiel falou na conversa com os jovens sobre sua experiência individual, não muito diferente de quem tem uma vida interiorana. “Minha família toda faz cantoria, repente e poesia popular há anos, e eu tento acrescentar. Mas sou uma continuidade. Tento somar a isso os elementos que fui em busca. Muito embora tenha nascido num ambiente de muita tradição, eu naturalmente me interessei sobre outras modalidades musicais e trago também um pouco isso, como tento unir os dois universos (rural e urbano) em relação a minha carreira como poeta e cantador”, comentou, para em seguida puxar uma toada de improviso e deixar o auditório da escola em silêncio para apenas ouvi-lo.

Na opinião do cantador, o Outras Palavras deveria ser ampliado e copiado por outras instituições governamentais. “Eu só acredito em política pública de cultura quando ela está inserida no ambiente de formação, porque é nele que aprendemos as coisas importantes. Levar a possibilidade a esses cidadãos poderem ter um olhar diferente do que eles não estão acostumados a ter. Se apresentar é bom, mas essa troca é o verdadeiro protagonista desta ação. De alguma maneira eles conseguem se aproximar e tocar no que a gente faz, e isso cria um novo status entre a relação entre o público e o artista. Faço votos para que esta iniciativa só cresça e que outros a imitem porque este é o caminho mais real para a educação que a gente tanto sonha”, celebra ele. Endossando o comentário, Cida Pedrosa acredita que “a cultura tem que andar bem ligada com a educação, são duas coisas que jamais podem andar separadas. E levar isso pra dentro das sala de aula e diante de tempos tão bicudos e difíceis, é realmente revolucionário”.

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