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Formação Cultural

Outras Palavras promove recital, debate literário e roda de coco em Igarassu

Edição contou com a apresentação de alunos poetas, debate literário com Camillo José, natural de Igarassu, e a presença da coquista Aurinha do Coco, de Olinda

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Atualmente é uma das coquistas mais prestigiadas de Pernambuco, Aurinha do Coco levou sua voz forte e afinada para o Outras Palavras

Marcus Iglesias

O Outras Palavras foi até o município de Igarassu, na última quarta-feira (6), para realizar o que sabe fazer de melhor: a integração entre a cultura e a educação de uma forma simples e genuína, trazendo para perto dos alunos da rede pública uma série de mestras e mestres da cultura popular, além de jovens escritores premiados. Nesta edição, que aconteceu numa parceria com o IPHAN de Igarassu, no Sítio Histórico, o projeto contou com a presença do escritor vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, Camillo José, natural de Igarassu, e da coquista Dona Aurinha do Coco, de Olinda.

Estudantes de duas escolas da região, a Escola Desembargador Carlos Xavier e a Escola Santos Cosme Damião, estavam presentes no encontro, que começou com um recital de poesias feito por alunos da Escola Des. Carlos Xavier e coordenados pela pedagoga e coordenadora da biblioteca da instituição, Ilka Nóbrega.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Recital foi feito por jovens alunos da sexta série de Escola Desembargador Carlos Xavier, de Igarassu

No recital, quatro jovens alunos da sexta série recitaram poesias de autores como Clarice Lispector (Não te amo mais), Manuel Bandeira (Cantiga de amor), de Bráulio Bessa (Amor ideal) e João Cabral de Melo Neto (Os três mal amados). Em seguida, como o sarau envolve poesia e música, a aluna Sandy cantou a canção Eu sei que vou te amar, de Tom Jobim. “Eu faço parte da Academia Igarassuense de Cultura e Letras, e participei uma vez de um sarau feito por estudantes que me encantou bastante. Na hora pensei: ‘São alunos, da mesma forma que temos na Carlos Xavier’, e em junho convidei os alunos e começamos a ensaiar. Desde agosto estamos nesse estudo, se encontrando uma vez por semana”, detalhou Ilka Nóbrega.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Como sarau também envolve música, a estudante do Ensino Médio, Sandy, foi chamada para cantar uma canção de Tom Jobim

O diretor da Escola Carlos Xavier, Rubem Mesquita, fez uma fala sobre a vontade de se construir uma escola pública de qualidade. “Quando nós chegamos nesta instituição há pouco mais de um ano, viemos com o compromisso de trabalhar em parceria com a comunidade, acreditando que educação e a escola não é somente o currículo escolar, e sim trabalhar com temas transversais. Transformar o novo olhar da educação. A Carlos Xavier estava entre os últimos colocados no ranking e recebemos este ano a informação que fomos a escola que mais evoluiu na GRE Metro Norte, porque temos uma equipe compromissada com esse ideal. Subimos 79 posições de um ano pra cá”, comemorou o diretor.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Nosso compromisso é trabalhar em parceria com a comunidade, acreditando que educação e a escola não é somente o currículo escolar, e sim trabalhar com temas transversais. Transformar o novo olhar da educação’, disse Rubem Mesquita, diretor da Escola Des. Carlos Xavier

Mediado por Márcia Branco, a conversa com o escritor Camillo José foi uma das emocionantes participações dele no Outras Palavras. Talvez por falar tanto em games, desenhos animados ou filmes infantis, talvez pela própria juventude latente, Camillo consegue se aproximar bastante dos estudantes, uma questão de identificação. “Ele é uma pessoa gigante, que lê muita coisa de vários assuntos diferentes e tem uma dinâmica impressionante. Eu queria que você falasse um pouco como leva isso nos seus textos”, perguntou Márcia.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Camillo José, natural de Igarassu, é um dos escritores vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, com o livro ‘A Dakimatura Flutuante’

“Infelizmente a literatura ainda é uma modalidade artística muito conservadora. Na música, por exemplo, existe o sampler e o remix, que é tocar a canção de outra forma, ou transformar em outra. E isso é um experimento imenso. Eu já ouvi música que era uma batida de funk feita com Beethoven. Na literatura ainda fica muito aquela coisa batida, quadrada. A tentativa de escrever para além do agora está muito na possibilidade de você assumir que vive uma geração que inevitavelmente está em conflito com outras gerações antigas, mas que por meio desse atrito criam coisas completamente inimagináveis. Eu, por exemplo, passei pela virada do milênio, e me lembro que se dizia que o mundo ia acabar. A gente até largou mais cedo da escola para ver o fim do mundo com a família”, disse Camillo, sob gargalhadas dos alunos.

“A gente está vivendo o futuro, mas tem várias coisas antigas voltando, que é o conceito de vapor wave, hoje você escuta uma música, amanhã outra, é tudo muito rápido. Eu vim de uma geração que olhava para o futuro e ao mesmo tempo em contato com a família e os mais velhos. A literatura que eu tento escrever está sempre situada nessa mistura entre o moderno e as influências de tudo que vivi na infância”, revelou o escritor.

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““A gente tem esse preconceito com o que o jovem gosta de fazer e não percebe que quem ele é hoje fruto de tudo aquilo que consumiu na vida inteira”, refletiu Camillo sobre suas inspirações

Sobre as suas inspirações, Camillo adentrou no mundo das memórias afetivas, um universo que parece ser sua fonte inesgotável de criatividade. “É muito marcante você ter toda essa memória afetiva das coisas. Eu lembro que passava na TV o filme Lambada, o ritmo proibido, e eu achava que realmente era um ritmo proibido. E quando meus pais ouviam lambada no carro de som eu ficava escondido na janela com medo da polícia chegar”, contou aos risos. “Eu cresci com essa ingenuidade, mas é muito importante esse tipo de experiência porque faz você criar uma relação sincera com o mundo”, opinou.

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Na conversa, Camillo também falou sobre como foi participar do Prêmio Pernambuco de Literatura, suas memórias afetivas e o universo lúdico que construiu a partir disso

“A gente tem esse preconceito com o que o jovem gosta de fazer e não percebe que quem ele é hoje fruto de tudo aquilo que consumiu na vida inteira. Eu vim de uma geração que a gente brincava na rua, mas a gente só ia depois de assistir a todos os desenhos da TV. E todo esse universo me inspirou muito. Você aprende a valorizar uma amizade e lidar com as diferenças assistindo ao Harry Potter, por exemplo. Eu não tenho vergonha de dizer que muito da minha educação eu aprendi com esse universo, e não com a família. Era uma série de coisas que me influenciavam a ponto de dizer que nós jovens temos isso e ninguém vai conseguir tirar. É muito importante ter esse tipo de consciência”, concluiu o escritor.

Márcia comentou que Camillo José, nas suas próprias palavras, foi muito influenciado pela literatura surrealista do escritor paulistas Roberto Piva, e quis saber um pouco mais sobre este assunto. “Eu lembro que na faculdade eu peguei um livro dele e quando li pela primeira vez foi uma coisa muito forte, porque trata justamente da imagética, quando o poema não necessariamente tem um significado, mas tem uma imagem tão forte que você se sente completo, mesmo que aquilo não faça sentido. E os poemas do Roberto Piva tem muito disso. Ele incentiva que você não tenha piedade diante do leitor, nem se preocupe com o que os outros vão achar,  e sim provocar uem for lê-lo e que o leitor tenha seu texto como um mosaico”.

Sobre o Prêmio Pernambuco de Literatura, que Camillo José venceu na quarta edição com o livro A Dakimatura Flutuante, seu segundo livro de poesias, o escritor deu dicas aos alunos que tenham em mente um dia escrever uma obra literária. “Eu me estimulei a enviar o meu porque eu via pessoas que eu conhecia fazendo o mesmo. Se eles podem, eu posso também. A inscrição é gratuita, e por e-mail, então se tiver alguém aqui que escreve, tenta. Não vai perder nada. Se você for uma pessoa ansiosa como eu, talvez fique um pouco angustiado, mas vai ter a consciência tranquila de que tentou. É uma iniciativa muito importante, não só pra descobrir outras pessoas, mas pra você se descobrir ali dentro. As inscrições do próximo, que agora se chama Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, estão abertas. Leiam o edital que as informações estão todas lá”, sugeriu Camillo.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Um dos participantes do recital, Alan Mateus, de 11 anos, disse que um dia quer escrever um livro sobre sua história e quis saber de Camillo qual a sensação de publicar uma obra literária

Alan Mateus, de 11 anos, e um dos participantes do recital feito pelos alunos da sexta série da Escola Des. Carlos Xavier, conta que tem um canal no Youtube, no qual vai falar sobre suas aventuras, e disse que tem o sonho de um dia escrever um livro contando sua história. Em seguida, quis saber de Camillo como é publicar um livro, qual a sensação que ele teve ao ter o trabalho pronto. “Eu fico muito feliz com a tua iniciativa, eu espero que você faça o seu livro. A sensação que eu tive eu geralmente uso um exemplo que é um detalhe do Harry Potter, que é a Horcrux. Existe um vilão chamado Voldemort que fez uma magia que era necessário destruir antes sete coisas, que eram as Horcrux, para poder então destruir ele. Eu tento levar esse exemplo pro bem no sentido de que pra mim cada livro que eu faço é como um objeto desses e você se torna imortal de alguma forma”.

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Depois da conversa com Camillo José, os estudantes dançaram coco de roda sob a voz de Aurinha do Coco, uma das coquistas mais importantes de Olinda

Depois do debate literário, foi a vez dos jovens estudantes conhecerem de perto uma das coquistas mais importantes de Amaro Branco, em Olinda. Áurea da Conceição de Assis Souza, mais conhecida como Aurinha do Coco, começou a carreira cantando no Coral São Pedro Mártir e o Madrigal do Recife, para depois integrar por dez anos o grupo de Selma do Coco, como vocalista.

Atualmente é uma das coquistas mais prestigiadas de Pernambuco, dona de uma voz forte e afinada. Já tocou em diversas partes do Brasil, participando de eventos importantes como o PercPan (BA) e o Abril Pro Rock (PE). Cantora, compositora, já gravou e cantou com Alceu Valença, Naná Vasconcelos, Lia de Itamaracá, Ferrugem, entre outros.

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Aurinha do Coco conversou sobre sua trajetória artística, a influência de Dona Selma do Coco na sua vida e outros detalhes da carreira

“Minha trajetória começou na música erudita, e quando meu maestro me viu cantar ele endoidou. Foi quando conheci Dona Selma do Coco (Patrimônio Vivo de Pernambuco, in memoriam), e me casei com seu filho. No primeiro CD de Selma, eu gravei com ela, sapateando e quebrando todos os chinelos. Ela ficava pau da vida comigo”, relembrou. “Cantei por esse meio de mundo. Aquela Festa da Lavadeira quem primeiro cantou foi Selma com a gente, não tinha aquela danação de grupos. Era a gente e um caboclo de lança, que vinha lá das brenha para festa”, disse a coquista.

“Essa parceria que eu tinha com Selma foi uma coisa muito importante na minha carreira. E ela cresceu, e eu me senti na necessidade de mostrar o meu trabalho e cantar sozinha, na década de 90”, disse Aurinha, para em seguida fazer uma homenagem à mestra, cantando uma das mais conhecidas músicas de Selma do Coco, A rolinha.

Aurinha do Coco falou também sobre suas composições próprias e citou uma que está no seu segundo CD, Seu Grito (2011), que dá nome ao disco. “Uma amiga minha tinha acabado o noivado e estava com a gente num clube, quando de repente cismou que tinha que ir embora. E no caminho de volta pra casa ela encontrou com o ex-noivo, que perguntou a ela se ela voltaria com o noivado. Ela disse que não, e ele puxou o revólver e a assassinou. Na época do ocorrido nós fomos participar de um evento na Prefeitura de Olinda sobre violência contra a mulher, e eu ainda em choque com aquilo tudo sentei na última cadeira do teatro e pedi a Deus uma iluminação, pra que eu pudesse compor a música em homenagem a minha amiga. Foi quando ouvi atrás de mim ‘Seu grito silenciou’. Ouvi alto, peguei o papel e a caneta e saiu esse coco aqui: Seu grito silenciou / Lá no alto de Olinda / Era uma mulher tão linda / que a natureza criou / ela foi morta no meio da madrugada / com um tiro de espingarda / pela mão do seu amor’”, cantou, emocionando toda a plateia.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Eu digo que o Outras Palavras é uma forma de resistência. Possibilitar aos filhos das trabalhadoras e trabalhadores o acesso ao conhecimento, que a gente também pode sonhar e desejar muito mais da vida”, disse Antonieta Trindade, gestora do projeto e vice-presidente da Fundarpe

A gestora do Outras Palavras e vice-presidente da Fundarpe, Antonieta Trindade, falou do prazer de estar com o projeto em Igarassu porque foi ali que seu pai nasceu e onde viveu toda a sua infância. “É sempre encantador a gente ter a oportunidade de conversar com Camillo, que é um jovem escritor premiado, daqui de Igarassu, o que é um estímulo pra nossa juventude. Por isso que eu digo que esse projeto é uma forma de resistência. Possibilitar aos filhos das trabalhadoras e trabalhadores o acesso ao conhecimento, que a gente também pode sonhar e desejar muito mais da vida. Quem sabe em breve, eu bem velhinha, não leve o Alan Mateus com seu livro pra conversar com os estudantes”, brincou Antonieta, se colocando à disposição a voltar à Igarassu em 2018. Em seguida, a gestora entregou ao diretor Rubem Mesquita um kit com livros de escritores premiados no Prêmio Pernambuco de Literatura para a biblioteca da escola.

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