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Formação Cultural

Sidney Rocha conversa com estudantes da rede pública sobre a importância da leitura

Bate-papo fez parte da programação do Outras Palavras, em Jaboatão dos Guararapes, que também teve a participação da cirandeira Lia de Itamaracá

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Escritor escolheu alguns livros da biblioteca da própria escola para discutir literatura com os alunos

Marcus Iglesias

Mesmo no final do ano letivo, a Escola de Referência em Ensino Médio Senador Aderbal Jurema, em Jaboatão dos Guararapes, arrumou um tempinho entre uma prova e outra para receber o Outras Palavras, que finaliza o ano de 2017 alcançando a marca de 400 escolas e mais de nove mil estudantes impactados pelo projeto. Nesta edição, realizada na última quarta-feira (13), os alunos da escola e de outras instituições convidadas da região tiveram a oportunidade de conversar de perto com dois importantes artistas pernambucanos, o premiado escritor Sidney Rocha e a cirandeira Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Como costuma dizer Antonieta Trindade, gestora do Outras Palavras e vice-presidente da Fundarpe, a iniciativa tem a marca da resistência. “Principalmente diante dos tempos atuais, nos quais há uma ofensiva enorme para mudar tudo que foi construído na educação pública. Trazemos aqui pra vocês um escritor como Sidney Rocha, que é autor de obras premiadas, como a que recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, e Lia de Itamaracá, um Patrimônio Vivo da cultura pernambucana. A ideia é que seja um expediente de aula diferente, que a gente possa, como o próprio projeto diz, ouvir outras palavras”, ressaltou a gestora.

Natural da escola pública e de Juazeiro, Sidney Rocha começou sua fala contando que ele e os seus amigos da escola se sentiam melhor lá do que na própria casa por duas razões muito simples. “Havia duas portas muito importantes, uma que era a do refeitório e a outra a da biblioteca. Eu tive uma merendeira incrível, chamada Marlene, que era tão importante quanto qualquer professora, porque nos ensinou a respeitar a fila, a vez do outro”, refletiu o escritor.

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Assim como em todas as outras edições, o Outras Palavras deixou na biblioteca da escola e para os estudantes kits com livros dos últimos vencedores no Prêmio Pernambuco de Literatura

“Mas era a partir da biblioteca que o mundo se transformava. E eu tive a alegria de conhecer e entrar na de vocês e trouxe aqui alguns exemplares que encontrei lá dentro pra que a gente possa conversar a respeito e mostrar que aqui vocês têm vários tesouros. Não quero falar hoje de mim e das minhas obras, mas de como estamos nos relacionando com a literatura. Eu contei 142 passos daqui deste auditório até a biblioteca de vocês, é essa a distância que os separa do conhecimento”, instigou, direcionado aos alunos, levantando com as mãos livros como Brasil Nunca Mais, de Paulo Evaristo Arms, e de outros autores como Ariano Suassuna, Fernando Pessoa, Raimundo Carrero e Leon Tolstoi.

Marcus Iglesias/Secult-PE

Marcus Iglesias/Secult-PE

Alguns dos exemplares disponíveis na biblioteca da escola em Jaboatão dos Guararapes

O estudante Ronaldo Lucas, da Escola Frei Romão Pereira, foi um dos que fez perguntas ao escritor. Disse que ouve de todo mundo que ele deve ler bastante e mais um pouco. “Mas eu me pergunto: com tanto conteúdo audiovisual sendo produzido, será que não seria natural que a literatura perdesse um pouco espaço pra essa produção?”, questionou o aluno.

“Para que vocês possam compreender a questão da escrita, é necessário entender antes a da leitura. O grande problema do Brasil não está na literatura nem nenhuma manifestação cultural. A grande questão é a falta de leitura. Não há como formar escritores se as pessoas não lerem, assim como não há como formar bons políticos, professores, advogados e por ai em diante. E a literatura está em tudo. Se você por ler as legendas do filme Senhor dos Anéis, por exemplo, que tem mais de duas horas de duração, seria o equivalente a ler um livro de 600 páginas”, disse Sidney Rocha.

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Patrícia Ferreira/Fundarpe

“Eu contei 142 passos daqui deste auditório até a biblioteca de vocês, é essa a distância que os separa do conhecimento”, disse Sidney Rocha, instigando os alunos

Quem também fez uma perguntas ao escritor foi o professor Geraldo Souza, que reforçou haver na EREM Senador Aderbal Lucena “uma das melhores bibliotecas aqui do bairro, com mais de quatro mil exemplares”. Em seguida, comentou que no livro Matiuska, lançado em 2009, há um conto chamado Barbie, que trata da questão da violência. “Nesse conto você fala de uma garota que sofre um assédio dentro do próprio seio do lar. Eu gostaria de saber do senhor se a gente perdeu, como ser humano, a sensibilidade de se comover com essas coisas ruins”, perguntou o professor.

O autor respondeu lendo um trecho do conto, que diz: “zulmira sabia que era uma boneca porque o pai com os olhos de lobo sempre dizia Zuzinha, você é minha bonequinha. e porque, longe dos outros olhares que não entendem nada de brincar, ele brincava com ela, geralmente quando caía a escuridão e o vento deixava de visitar o lugar onde ele guardava zulmira, zuzinha, para o dia seguinte. boneca como zulmira não fala, Faz pssiuu, boneca!, pior isso, de lá pra cá, ela não sabia mais a hora de sorrir ou chorar, principalmente quando ele lhe punha em posição de boneca que cai. zulmira era daquele modelo que ardia em febre às vezes e, se sangrava um pouco, acreditava ser assim mesmo isso, pruma boneca de dez anos. foi só depois que a boneca notou o seu corpinho de rã, oferecendo outras formas, e se esticando por não se conter em si mesmo, elástico feito de carne que compõe o plástico da carne das bonecas como zulmira. foi o tempo em que não acreditou mais em histórias de lobos, porque agora a floresta cercou a bonequinha, os milhões de rostos de susies ainda nas embalagens, a tevê a chamá-la de criança, logo a palavra que lhe dá mais medo, medo e terror… e quando se referem à boneca zulmira como um pinóquio sem as mentiras, então? então já tinha o corpo de sapa quando descobriu não haver loja nenhuma no mundo que vendesse bonecas com aquele nome de zulmira-zuzinha, e ela estranhou também o dia em que a dor rompeu o casulo, para brincarem de médico de verdade com ela. (…)”.

“Esse conto fala da violência e de alguma forma da naturalização desse fenômeno. O que acontece é que quando nós falamos em números, a gente fala como se não fosse conosco. 86% da violência contra mulheres e crianças acontece dentro de casa. 76% das mortes das mulheres acontecem dentro de casa e são altos violentos cometidos pelos seus companheiros”, pontuou Sidney Rocha.

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Alunos e professores conversaram com Sidney Rocha, que respondeu a todas as perguntas

“Parece que nós não estamos mais nos tocando do que está acontecendo, porque não estamos nos colocando mais no lugar do próximo. Estamos perdendo essa capacidade. Parece que o outro é uma espécie de imagem que não nos tocam mais. As pessoas conseguem assistir na televisão aos programas policiais enquanto almoçavam, e elas não sentem nada. Isso é um absurdo. Contudo, à noite, na novela, o casal se digladia um com o outro e as pessoas choram. O que é que estamos promovendo? A gente não está nos tocando no grau que deveria quando ofendemos o próximo”, opinou o autor.

Como sugestão de mudança, Sidney Rocha acredita que simplesmente as pessoas precisam dialogar mais. “Uma vez me perguntaram qual era o meu grande projeto intelectual. Eu respondi que era conhecer meu vizinho, o padeiro do meu bairro, o porteiro do meu prédio, porque o que está acontecendo nesse modelo totalitário que a gente começa a viver é que as pessoas querem que nós desconfiemos uns dos outros. Nós estamos vivendo dentro do Admirável Mundo Novo, onde todo mundo é vilão, onde todo mundo se vigia e se persegue. Por isso precisamos conversar, não de modo radical, mas trazendo a humanidade como princípio, meio e fim”.

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Na sua apresentação, Lia de Itamaracá cantou clássicos da ciranda pernambucana como ‘Essa Ciranda é Minha’, ‘Mamãe Oxum’, ‘Ciranda de Lia’ e ‘Quem me deu foi Lia’

O auditório lotado também aguardava com ansiedade a apresentação de Lia de Itamaracá, mestra cirandeira de 73 anos e uma das realezas da cultura popular pernambucana. “Na minha casa ninguém canta e ninguém dança, só eu nasci com esse dom. Em 77 eu gravei um LP, Eu sou Lia, a Rainha de Itamaracá e da Ciranda. Depois, de 2000 pra cá, gravei dois discos (Eu Sou Lia e Ciranda de Ritmos)”, contou aos estudantes.

“Uma coisa que me orgulha é que eu trabalhei durante muito tempo numa escola pública como merendeira. Eram mais de 270 crianças pra cuidar, numa instituição que ficava em Jaguaribe, e eu era responsável por tudo, do preparo da comida até a limpeza. O carinho dos meninos era tanto que eles fizeram uma homenagem pra mim com uma música minha. Toda vez que era a hora de comer, eles cantavam ‘essa merenda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá’. Bonito, né?”, relembrou emocionada a cirandeira.

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Patrícia Ferreira/Fundarpe

Como de praxe, Lia de Itamaracá colocou todo mundo pra dançar sua ciranda

Perguntada sobre como foi receber o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, Lia abriu o sorriso de sempre, mas sem perder a sagacidade daqueles que fazem a cultura popular se manter viva com muito suor e luta. “O título caiu na horinha certinha, só que eu me pergunto: Tombaram Lia, mas e a ciranda? Cadê o povo, que não se arreta com isso? Vamos se arretar, gente, pra podermos conseguir levar cada vez mais nossa música para os outros lugares do mundo”, pediu a mestra, incentivando que a Ciranda seja reconhecida como Patrimônio Imaterial, para em seguida puxar várias de suas canções, como Essa Ciranda é Minha, Mamãe Oxum, Ciranda de Lia e Quem me deu foi Lia.

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