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Urariano Mota leva ‘A mais longa duração da juventude’ ao Outras Palavras

Lançado este ano, obra faz uma reflexão necessária sobre episódios comuns ocorridos no Brasil durante o período da ditadura militar, em 1970, e nos dias atuais

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Esse meu romance, A mais longa duração da juventude, remete à juventude que esteve no combate à ditadura, que tinha a idade, acreditem vocês, de 15 a 22 anos, no máximo. Que fez um combate clandestino”, explica o autor

Marcus Iglesias

O escritor Urariano Mota, um defensor da democracia e de uma sociedade mais igualitária, conversou na última quarta-feira (6) com estudantes da Escola Técnica Maria José de Vasconcelos, em Bezerros, sobre o seu mais recente livro: A mais longa duração da juventude (2017), que faz uma reflexão importante e necessária sobre episódios comuns ocorridos na sociedade brasileira durante o período da ditadura militar, em 1970, e nos dias atuais. O encontro integrou a programação de mais uma edição do Outras Palavras, ainda inédita em Bezerros, e que também teve a presença do poeta, cantador e repentista Adiel Luna.

A conversa com Urariano Mota foi mediada por Humberto de Jesus, integrante da equipe do Outras Palavras, que disse acreditar não haver “ambiente mais apropriado do que esse, cheio de jovens, para falar sobre seu novo livro, que trata de questões que estão intrinsecamente ligadas à essa fase da vida e ao momento político atual. Eu queria que você falasse um pouco sobre essa obra”, provocou o mediador.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Eu tenho depoimento de jovens na idade de 23 anos que dizem que se veem neste romance, que percebem as coisas que passam hoje no Brasil e pelas quais eles sofrem”, citou Urariano Mota

“Me sinto à vontade em falar para vocês porque fui aluno de escola pública. Aliás, toda minha trajetória se fez na Escola Estadual Alfredo Freyre, em Água Fria, no Recife, e naquela época eu não tinha o conforto que vocês tem nessa escola. Lá não existia refeitório, quadra ou área de lazer. Mas o que é que tinha? Um quadro de professores muito acima da média, porque eram acima de tudo educadores, e também uma juventude, uns adolescentes, tão ou mais angustiados como vocês são hoje. E a gente tinha fome e sede de conhecimento”, disse Urariano Mota, que participou de uma edição do Outras Palavras na escola onde estudou no semestre passado.

“Hoje por exemplo, nesta quarta-feira (6), fomos atacados por uma notícia terrível. A Polícia Federal invadiu a Universidade Federal de Minas Gerais e levou presos o reitor e o vice-reitor. Vocês não têm talvez a dimensão dessa coisa bárbara. Primeiro porque o território do campus universitário é um terreno sagrado. Não é chegar assim e invadir. Levaram eles presos alegando que eles estariam com trabalho irregular num monumento para a memória da anistia que estão construindo. Quando eu vi essa notícia, e isso é uma pancada na gente, me ocorreu como cresce a responsabilidade, o combate e a resistência dos artistas e intelectuais brasileiros hoje. Nós estamos vivendo tempos sombrios, terríveis, que remetem à ditadura militar. Que, inclusive, esse memorial da anistia procurava reconhecer”, refletiu o escritor pernambucano.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Conversa com estudantes foi mediada por Humberto de Jesus, integrante da equipe do Outras Palavras

“Esse meu romance, A mais longa duração da juventude, remete à juventude que esteve no combate à ditadura, que tinha a idade, acreditem vocês, de 15 a 22 anos, no máximo. Que fez um combate clandestino. Mas o que eu acho interessante é que muitos leitores pegam este livro e se identificam com ele, mesmo estando na idade de vocês. Eu tenho depoimento de jovens na idade de 23 anos que dizem que se veem neste romance, que percebem as coisas que passam hoje no Brasil e pelas quais eles sofrem”, citou Urariano Mota.

“O título se deu porque em um determinado ponto do romance o narrador procura os seus companheiros que estiveram com ele na ditadura, e reconhece que muitos deles já faleceram, e que alguns estão, digamos, inabilitados fisicamente, em cadeira de rodas. E quando ele acha os antigos companheiros vai passando uma passeata pela Rua Princesa Isabel, em direção ao Palácio do Governo, de jovens reclamando por mais verbas para a educação e com um abaixo-assinado pedindo por mais professores. Diante daquilo, quando ele vê a cena, ele diz: ‘essa é a juventude que eu buscava. Os novos companheiros são eles’, que terminam por fazer a mais longa duração da juventude. Assim como ali reclamavam por mais verbas para a educação, a de 1970 pedia contra decretos que queriam privatizar as universidades, ou situações como o famoso Decreto 477, que expulsava e tornava clandestinos estudantes em situação política”, explicou o escritor.

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“Quem não perdeu a vontade de dizer que essa sociedade que vivemos é profundamente injusta, termina fazendo a mais longa duração da juventude, porque a coisa mais velha que pode existir é o conformismo, é você se conformar com o mundo do jeito que ele está”, opinou Urariano Mota

“Esses jovens, que se rebelam, que pedem mudanças no pais, que querem um novo tempo para eles e seus pais, eles terminam fazendo a mais longa duração da juventude. Aqueles jovens que fomos, continuam neles. E em outro determinado do romance, o narrador, quando dois personagens discutem um com o outro, ele diz: ‘Nós não somos velhos’. E o segundo responde: ‘Eu sei, nós não perdemos o tesão de mudar este mundo’. Quem não perdeu a vontade de dizer que essa sociedade que vivemos é profundamente injusta, termina fazendo a mais longa duração da juventude, porque a coisa mais velha que pode existir é o conformismo, é você se conformar com o mundo do jeito que ele está”, opinou.

Urariano Mota aproveitou para fazer os alunos refletirem sobre a lutas de classes no país. “Talvez vocês não saibam, mas não se herda somente riqueza, pobreza também. Se vocês não apostarem em novos caminhos, vão herdar a pobreza dos seus pais. Só tem um modo de romper com isso, e é através da educação. E eu tenho na minha casa este exemplo. Meu pai trabalhava no cais, meus irmãos também, os filhos deles por sua vez, mas eu fui pelo caminho da leitura e educação. Porém, não fiquei rico não, porque a educação não faz ninguém assim, rico materialmente, de grana. Por outro lado, uma coisa é certa: por ela, vocês afastam a miséria pra bem longe, e não só a material, a miséria humana, os preconceitos. E seguramente os seus filhos serão menos pobres do que vocês foram”, instigou o autor.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Alguns alunos fizeram perguntas ao escritor, como Miguel Soares, do 1º ano

O estudante Miguel Soares, do 1º ano, pediu a fala e disse que participa no Facebook de algumas páginas políticas. “Um dia li de uma pessoa que tinha um pensamento claramente reacionário algo assim: ‘Minha avó não acredita em pedra viva, mas ela não levou nenhum paulada porque ela não saia pra ‘badernar’. Não sei se é verdade, mas até roupa vermelha dizem que não podia usar, numa menção ao comunismo. Eu queria dizer que você dissesse o que despertou em você ser um militante político”, questionou o jovem.

“Todo futuro da humanidade está com aqueles que saem pra fazer “baderna”. Quem fica em casa, vendo sua telenovela no sofá, e não protesta, não se reúne, não contribui em nada com as mudanças na sociedade. Parece mentira, mas até pouco tempo atrás mulher não tinha direito a votar. Quem conseguiu isso foram os baderneiros, que foram às ruas protestar, as feministas e sindicalistas, os comunistas. Levar cacete da polícia. E a mulher vota e acaba virando depois presidenta da república. Isso é um trabalho que vieram dos baderneiros”, exemplificou Urariano Mota.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Ao término da conversa, Urariano Mota sorteou dois exemplares de seu recente livro entre os estudantes, e deixou outros dois na biblioteca da escola

“Essa opção que você chama, de militância, não é uma opção que a gente faz num estalo. Não é assim, até porque é uma opção tão complicada e difícil, de rompimento. O que é que aconteceu na minha formação? Os meus melhores amigos estavam na subversão e eram os caras que eu queria estar junto. Eram as pessoas que falavam sobre teatro, literatura, filosofia, que gostavam de música popular. Que valiam a pena a gente conversar e estar juntos. Essa é uma opção que a gente vai fazendo aos poucos, meio que continuado, e hoje você escreve sobre esse momento, que não é praticamente uma escolha, o tema foi quem te escolheu e te perseguiu o tempo todo”, revelou, para depois sortear dois exemplares de seu recente livro entre os estudantes, e deixar outros dois na biblioteca da escola.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Eu só acredito numa transformação real da sociedade através da educação enquanto houver essa intercepção com a cultura. Enquanto a nossa cultura raiz não for levada pra escola, eu não acredito em alguma seriedade, porque cultura e educação devem andar juntas”, disse o cantador

A conversa foi seguida de uma apresentação do poeta Adiel Luna, nascido em São Lourenço da Mata mas, nas palavras dele próprio, um pernambucano que já morou em todas as principais regiões do estado. “Eu acredito muito no projeto Outras Palavras e nessa abertura que as escolas dão a ele como um exercício para a escola que todo mundo sonha, não só o aluno e o professor, mas a comunidade e os artistas também. E eu só acredito numa transformação real da sociedade através da educação enquanto houver essa intercepção com a cultura. Enquanto a nossa cultura raiz não for levada pra escola, eu não acredito em alguma seriedade, porque cultura e educação devem andar juntas”, disse o cantador, para depois cantar algumas de suas canções.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Adiel Luna explicou aos estudantes seu processo de composição, bem como o que é métrica, rima e oração dentro do contexto da poesia

A estudante Fabiana Sales, do 2º anos, perguntou ao poeta como é feita sua poesia e de onde vem suas inspirações na hora de compor. “A poesia existem alguns elementos que a gente consegue trabalhar de uma maneira muito prática. A rima, aquela repetição de palavras com a mesma terminação que dá um efeito estético. A métrica, o tamanho do verso, o metro. E a oração, toda história tem que ter começo meio e fim. A inspiração ela vem de todo lugar. Como eu trabalho de improviso, tem muita relação com a atmosfera, mas quando eu vou escrever, em geral, eu trato muito do ambiente rural e da minha visão do ambiente urbano. Alguém que veio do interior e hoje vive na cidade. A visão do mundo que eu acredito”, detalhou Adiel Luna, para em seguida cantar uma canção que fez em homenagem à Zabé da Loca, pifanista que faleceu este ano.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Equipe do outras palavras, Urariano Mota, Adiel Luna e professores da escola

“A gente fala de identidade tem que ter cuidado pra não se prender no caminho, porque o convite pra que isso aconteça é muito grande. Eu, por exemplo, quando cheguei do interior na cidade para estudar, não gostava de usar sapatos. Gostava e me sinto mais à vontade com alpercatas. E por isso recebi logo o apelido de cangaceiro. Mas como eu queria me enturmar com o pessoal da escola, acabei comprando um tênis, horrível, muito desconfortável. Temos que ter cuidado com essas armadilhas, nossa identidade é ancestral e plural e isso deve ser motivo de alegria. Esse é meu ofício há quinze anos, comecei cedo aos 18, e tenho a maior honra de ser filho, neto e bisneto de poeta”, declarou Adiel Luna.

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