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“A Matinada” lança luz sobre a diversidade do Coco pernambucano

Documentário resultante de projeto incentivado pelo Governo de Pernambuco vai ao ar no sábado (16/12), na Rede Globo Nordeste

Leo Caldas

Leo Caldas

A Matinada em apresentação no Festival de Inverno de Garanhuns 2015

Por Camila Estephania

Apesar de ser mais conhecido pelas suas manifestações à beira-mar, o Coco de Roda, na verdade, vai muito além do litoral e é o único brinquedo da cultura popular que tem expressões em todo o Estado de Pernambuco. Não é à toa que um dos grupos mais famosos do gênero, o Coco Raízes de Arcoverde, é do Sertão, de onde tira elementos do Xaxado para criar as batidas aceleradas já conhecidas como trupé. Foram essas diferenças estéticas entre os expoentes de cada região que motivaram o documentário e show ao vivo “A Matinada”, produzido com incentivo do Governo de Pernambuco, por meio do Funcultura e com apoio da Prefeitura do Recife, que vai ao ar no sábado, dia 16 de dezembro, dentro da programação da Rede Globo Nordeste, logo após o Jornal Hoje.

A exibição marca o lançamento do DVD, que foi gravado no Teatro de Santa Isabel em 2015 e reúne coquistas de improviso para representar as principais variantes do Coco espalhadas entre as diferentes regiões do Estado. São eles: Galo Preto, de Bom Conselho; Zé de Teté, de Limoeiro; Bio Caboclo, de Lagoa de Itaenga; Cícero Gomes, de Arcoverde; e Adiel Luna, de São Lourenço da Mata. Esse último é o caçula do grupo e idealizador do projeto, que vem sendo amadurecido desde 2012.

Tiago Calazans

Tiago Calazans

Galo Preto, Cícero Gomes, Zé de Teté e Bio Caboclo se apresentam com A Matinada no Festival de Inverno de Garanhuns, em 2012.

“Eu canto Coco de Roda desde pequeno, mas nunca tinha levado isso de uma maneira profissional até 2009, quando pensei em formar o projeto ‘Adiel Luna e Coco Camará’. Aí eu percebi que existia mais que um público, mas uma lacuna porque não estava se fazendo mais o Coco improvisado. Nesse segmento, só havia os cantadores mais velhos, então houve uma aproximação natural com eles.”, explica o músico, que tem 33 anos e é filho de cantadores.

Buscando provar a diversidade e originalidade que o brinquedo possui, o músico pensou um repertório bastante amplo ao lado dos mestres. “Queríamos apresentar o maior número de caminhos melódicos possíveis e também ter o cuidado de não repetir os temas, que falam de amor, de São João, da vida no campo”, exemplifica ele, ao citar que foram atravessadas nuances do ritmo como o trupé, cantiga de trabalho, samba de coco, coco de umbigada, mazurca, coco de engenho, coco de sala e coco de obrigação, por exemplo.

A preocupação em apresentar para o público tantas variantes se estendeu à necessidade de mergulhar na realidade de cada um dos convidados para contextualizar o seu universo criativo. “Eu queria que fosse um espetáculo, mas sempre comento que o público precisa se aproximar do mundo deles para compreender essa oralidade. O documentário é uma tentativa de proporcionar essa experiência”, comenta o compositor, que acredita que o material deve servir para ajudar novos coquistas e pesquisadores.

Tiago Calazans

Tiago Calazans

Adiel Luna, ao centro, é o idealizador do projeto, que terá continuidade nos palcos

Apesar do show ter circulado por palcos de cidades como Salvador, Garanhuns, Arcoverde e Chapada dos Veadeiros, a decisão de gravar no Teatro de Santa Isabel, no Recife, foi uma medida estratégica. “Foi uma decisão política colocar lá para mostrar que o Coco de Roda é uma arte tão refinada, que pode estar no terreiro e também pode ocupar o teatro mais importante que temos aqui”, justifica a produtora Alexandra de Lima, que buscava superar o preconceito remanescente sobre o ritmo quando estabeleceu o endereço de gravação do DVD.

A origem marginal do brinquedo, que carrega forte acento das comunidades indígenas e de afrodescendentes, por muito tempo foi motivo para que o brinquedo fosse subestimado enquanto cultura. “Eu diria que o Funcultura é vital pra conquistar essa legitimação, porque a cultura popular precisa dessa atenção, principalmente do Estado, pra dar esse salto. É claro que ela não quer ficar dependendo disso, o que a gente quer são medidas estruturadoras para sedimentar isso. E esse tipo de iniciativa é fundamental para isso”, opina a produtora.

“Embora muitos outros estados tenham o Coco, Pernambuco ainda é referência no Coco de Roda e acho que isso passa muito pelo fomento da política de cultura, já que mais mestres conseguem gravar dessa forma e temos mais programações que respeitam o ritmo”, observa Adiel, ao concordar com a produtora. O músico ainda adianta que, com o lançamento do DVD, a expectativa é dar continuidade ao projeto nos palcos. “A ideia é circular mais, inclusive com outros cantadores, como coquistas mulheres, para dar uma pluralidade sempre. Quanto mais gente participar, melhor”, planeja ele, animado.

Em maio deste ano, o projeto mereceu ainda uma Menção Honrosa do 2º Prêmio Ayrton de Almeida Carvalho de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco, mais uma iniciativa da Secult-PE e da Fundarpe.

SERVIÇO
Exibição do documentário A Matinada na Rede Globo Nordeste
Sábado, 16/12 – Logo após o Jornal Hoje
Confira o teaser do documentário:

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