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Funcultura

Ave Sangria voa alto novamente!

Integrantes da lendária banda recifense se reúnem, quatro décadas depois, no Teatro de Santa Isabel, mesmo palco onde realizaram seu último show

por Leonardo Vila Nova

Há quatro décadas, os corações do Recife sangravam ao som de uma música que soava meio que entre o rock’n'roll e o baião nordestino. Seis jovens – Marco Polo, Paulo Rafael, Ivson Wanderley, Almir de Oliveira, Agrício Noya e Israel Semente Proibida – subiam ao palco do pomposo Teatro de Santa Isabel, nos dias 28 e 29 de dezembro de 1974, para o que seria o derradeiro voo da Ave Sangria. Sob o nome de Perfumes Y Baratchos, aqueles foram os dois últimos shows da banda, uma das pontas de lança do udigrudi pernambucano. Quase quarenta anos depois, a Ave Sangria se reencontra, nesta terça (02), no mesmo Teatro de Santa Isabel, para realizar um show que, por toda a carga histórica que possui, já promete ser antológico. O show faz parte de um projeto incentivado pelo Governo do Estado, através do Funcultura, que prevê também o relançamento do primeiro álbum da banda, homônimo, de 1974, e lançamento oficial, em disco, do show Perfumes Y Baratchos. Ambos, em CD e vinil. A apresentação, que começa às 20h, vai reunir um numeroso público, ávido por rememorar – ou ver, pela primeira vez – essas lendas da música pernambucana juntas novamente.

Da formação original, sobem ao palco Marco Polo (voz), Almir (violão), Paulo Rafael (guitarra) e Ivinho (guitarra) – Israel Semente faleceu em 1995 e Agrício não participará devido a problemas de saúde. A expectativa é grande, não apenas por parte do público – que esgotou todos os ingressos – mas também da banda. Marco Polo, vocalista e responsável pela maioria das letras do Ave Sangria, conta que o clima de reencontro nos ensaios tem sido prazeroso. “É muito gratificante pra gente fazer esse show. Pelo fato de estarmos juntos novamente e, mesmo depois de tanto tempo, percebermos que ainda existe uma química musical entre nós“, conta.

Reprodução

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Capa do primeiro e único disco do Ave Sangria, de 1974

O repertório desta apresentação terá como base a set list do Perfumes Y Baratchos, além de algumas músicas do disco “Ave Sangria”, de 1974, que não estiveram nesse show, a exemplo de Seu Waldir. E, ao observar o álbum quarentão, percebe-se que é um disco recheado de canções que se tornaram hits entre o público alternativo, e que transcendem décadas a fio. Por isso, não faltarão grandes clássicos, que, com certeza, serão cantados a plenos pulmões, como Geórgia, a carniceira, Por quê?, O pirata, Hei, man!, entre outras. “Quando a gente voltou a se encontrar para os ensaios (um total de oito), fluiu tudo muito bem. Tinham algumas poucas coisas de arranjos das músicas que um não lembrava, mas o outro lembrava. Parecia que a gente tinha acabado de fazer o último show! Tudo ainda bem vivo na mente! No final das contas, a gente vai fazer tudo muito próximo do original, com um detalhezinho ou outro diferente“, adianta Marco Polo. Completando o time que se apresenta com o Ave Sangria, nesta terça, estão os músicos Júnior do Jarro (bateria), Juliano Holanda (contrabaixo) e Gilú Amaral (percussão). “Com os meninos foi bacana. Eu já tinha tocado com o Juliano e com o do Jarro. Por isso, foi bem espontâneo. Todos já chegaram sabendo o que tinha que fazer“.

A Ave Sangria é, atualmente, uma das bandas mais cultuadas na memória de fãs pernambucanos e de todo o Brasil. Com uma trajetória relâmpago – tendo lançado apenas um disco -, eles irromperam no cenário musical em meio ao turbulento período da ditadura militar no Brasil. Começaram com o nome “Tamarineira Village” – numa referência à Vila dos Comerciários (próxima ao bairro da Tamarineira), onde morava parte dos integrantes. Acabaram se tornando uma das mais emblemáticas bandas do udigrudi – uma corruptela “aportuguesada” de “underground” – que reunia diversos músicos “cabeludos e malucos do Recife”, como Alceu Valença, Marconi Notaro, Flaviola, Lailson e Lula Côrtes. O som era o bom e velho rock’n'roll e a psicodelia, com elementos regionais. As letras eram poesia com generosas doses de sarcasmo e sujeira. As performances em palco eram algo provocador e subversivo, com seus integrantes usando batons e se beijando na boca. Algo acintoso naquela época onde a repressão ideológica, social e comportamental era impiedosa.

Reprodução

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Capa do cartaz do show “Perfumes Y Baratchos”, em 28 e 29 de dezembro de 1974

Apesar de tamanha bagunça no coreto que eles causaram – inclusive, com a música Seu Waldir proibida pelo Departamento de Censura da Polícia Federal -, o Ave Sangria saiu de cena muito rapidamente. O que significa também uma escassez de registros da banda, seja em áudio, vídeo e fotos. No entanto, essa curta carreira acabou alimentando mais ainda o mito que ela veio a se tornar anos depois. O interesse do público pelo som da banda, passados 40 anos, ainda é vivo e pulsante, principalmente entre os mais jovens, fãs ardorosos que ainda não haviam nem nascido quando a banda fez sua última apresentação. “Acho que esse interesse pelo Ave Sangria foi facilitado pela internet, que fez com que os jovens redescobrissem o nosso som. Isso aliado a um certo interesse que há pela música psicodélica feita naquela época. E acredito também que isso é a comprovação de que fizemos um bom trabalho, por isso, não ficou algo datado, no passado. E, a cada época, vai ser cada vez mais lembrado. Pra gente, isso é maravilhoso!“, declara Marco Polo.

Relançamentos

O show do Ave Sangria, que acontece nesta terça (02), na verdade, é a culminância de um projeto bem maior, capitaneado pela produtora/selo Ripohlandya, que contou com o incentivo do Governo do Estado, através do Funcultura. Além da apresentação, como parte dos festejos pela passagem dessas quatro décadas de história da banda, acontece a reedição do disco “Ave Sangria”, de 1974, e o lançamento oficial, em disco, do show Perfumes Y Baratchos, que é o único registro ao vivo da banda. Ambos, tiveram os áudios totalmente remasterizados e estão sendo lançados em CD e em vinil.

A Ripohlandya é composta pelos músicos da banda pernambucana Anjo Gabriel, conhecida pelo seu som fincado nas raízes da psicodelia. “A proposta do selo sempre foi de lançar os discos da gente, além da iniciativa de relançar discos de artistas que nós curtimos. E aí tem o Ave Sangria, que foi uma banda antológica da música pernambucana, nos anos 1970, e pensamos em fazer algo além de relançar os discos, mas também de fazer esse show, como uma grande celebração desse momento“, conta o músico André Sette, da Ripohlandya, e integrante da Anjo Gabriel.

Abaixo, a canção Por quê?, versão original do show Perfumes Y Baratchos.

Serão mil cópias em CD e 500 cópias em vinil de cada um dos trabalhos. Segundo André, o processo de remasterização dos discos – que foi realizado no estúdio Fábrica, na Várzea -, apesar de trabalhoso, acabou sendo divertido. “Foi interessante trabalhar redescobrindo detalhes do som de uma banda que a gente curte muito. Teve um processo de resgate muito grande de algumas frequências que acabavam sendo perdidas com o tempo. Procuramos discos que tivessem o mínimo de ruído, de chiado. Principalmente no caso do Perfumes Y Baratchos, que acabou tendo um resultado muito bom, uma sonoridade mais equilibrada, mais nítida“, explica André.

Quanto a um possível “retorno” da banda após esse show, o cenário fica, ainda, em aberto. “Isso vai depender muito mais deles, do Ave Sangria. Nós fizemos apenas jogar a sementinha“, diz André. Já Marco Polo, perguntado sobre lembranças dos tempos idos da banda, respondeu: “A gente quer mais é viver o presente“. Então, que venha o amanhã, para que o coração do Recife possa sangrar novamente, em forma de música e poesia.

SERVIÇO

Show do Ave Sangria
Terça (02), a partir das 20h
Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio – Recife/PE
Ingressos esgotados

Informações: (81) 3355-3323

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