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Funcultura

Coletivo Lugar Comum estreia espetáculo “Motim” no Pátio do Carmo

A montagem, que conta com incentivo do Funcultura, será apresentada pela primeira vez ao público nesta terça-feira (3), às 17h, no centro do Recife

“Fazer do riso uma ação política, um ato de protesto, de rebeldia”. Esse é o principal viés de Motim, espetáculo/performance do Coletivo Lugar Comum que estréia nesta terça-feira (3), às 17h, em sessão gratuita e ao ar livre no Pátio do Carmo, centro do Recife, e segue com apresentações nos dias 4, 5 e 6 de março, na rua do Hospício, na Boa Vista; na Praça da Várzea; e na estação do Metrô, em Afogados, respectivamente.

O projeto, incentivado pelo Funcultura, é uma pesquisa criativa que traz à tona uma política de valorização da importância do riso, sobretudo, pela sua capacidade de estabelecer laços sociais baseados no compartilhamento afetivo, na predisposição aos atos criativos, na dimensão lúdica das relações e nas experiências de prazer e de alegria que põem em evidência, acima de tudo, a legitimidade do próprio corpo. A escolha do título, Motim, conserva a polissemia dessa palavra, porém ele, não é exatamente índice do que ocorrerá na dramaturgia da performance, mas sim uma metáfora do poder que os bailarinos almejam conferir ao ato de rir, bem como da legitimidade de ação que a ele desejam restituir.

Paloma Granjeiro/Divulgação

Paloma Granjeiro/Divulgação

Espetáculo trabalha o riso como forma de protesto

O riso que motiva essa pesquisa é o riso bom, contagiante, uma disposição do espírito de perceber e criar o cômico, que nasce de uma inclinação a um movimento criador e benevolente. “Não é uma atitude resignada, mas sim rebelde, frente à vida. É um rumor alto provocado não só por vozes, mas por grandes gargalhadas, o prazer do corpo em estado de riso. No entanto, a arma dessa rebeldia é a capacidade de reconhecer ou instaurar situações de humor em circunstâncias em que o que se espera é uma atitude, ritualizadamente, séria e cerimoniosa, de pesar, de extremas deferências ou reverências”, aponta a dramaturga e artista performer, Roberta Ramos, responsável pela concepção do espetáculo e que é também professora do curso de dança da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Para Roberta, a relevância do ato de rir para várias dimensões dos indivíduos e das coletividades – estética, cognitiva, política, corporal, etc. – origina essa pesquisa criativa. Porém, diz ela, que “isso não implica necessariamente um foco em produzir o riso ou abordar o cômico na arte; mas, sobretudo, produzir uma discursividade artística acerca do ato de rir que compreende e reforça sua relevância e o redime dos rótulos de imoralidade e banalidade aos quais é associado como estratégia ideológica ao longo da história da humanidade. Motim é contra séculos de valorização do riso. Mas, não é o riso pelo riso, o besteirol, mas sim o riso como uma forma de compartilhamento do pensar do outro de forma inteligente”, revelou.

De acordo com a dramaturga, um aspecto importante a destacar neste projeto é o profundo envolvimento e interesse dos participantes para com o tema motivador. “Essa afinidade e interesse se dão não só porque temos um ponto em comum que é o gostar de rir. Essa relação de compartilhamento do riso já existia entre todos antes do espetáculo”. Paralelamente a isso, acrescenta Ramos, os bailarinos reconhecem a potência criativa e política de um projeto artístico em que o riso e o humor não são abordados apenas para dar ênfase a uma “descontração generalizada”. Isso seria reforçar um humor acrítico e gratuito, e “proporcional à falência de projetos comuns e ao desinvestimento das possibilidades de transformação social”.

Paloma Granjeiro/Divulgação

Paloma Granjeiro/Divulgação

O Coletivo Lugar Comum é formado por 10 performers

No espetáculo, os 10 performers criadores do Coletivo, Roberta Ramos, Silvia Góes, Liana Gesteira, Maria Agrelli, Conrado Falbo e Cyro Morais, além das convidadas Drica Ayub, Gabriela Santana, Iara Sales e Letícia Damasceno, riem sem parar diante dos transeuntes que caminham pelas vias onde estarão encenando. Segundo a dramaturga, a variedade de espaços públicos escolhidos para a encenação da performance tem, igualmente, um duplo viés político. Por um lado, estabelece coerência com o caráter potencial de Motim, com sua valorização pública do riso, como uma Zona Autônoma Temporária, a partir de “fissuras do poder, momentos de suspensão que, ao serem deflagrados, devem desaparecer para reaparecer sob nova forma, em outra área”. E, por outro, aponta o desejo de maior alcance do projeto, tornando-se acessível a variados públicos, pertencentes a diferentes contextos geográficos e sociais, além de intervir diretamente sobre a rotina dos transeuntes, com a compreensão de que um trabalho artístico apresentado na rua pode fazer “vibrar a paisagem circundante” ou criar “um parêntese de tempo suspenso no tumulto urbano”.

“Era um desejo coletivo essa possibilidade de dar acesso às pessoas, que por inúmeros motivos, não conseguem ir até um determinado espaço para assistir a um espetáculo. Com essa intervenção nas vias públicas conseguimos dar alternativas para essas pessoas de experimentar novas sensações e extrair do riso a potência para lidar subversivamente com as pressões do dia a dia”, considera Ramos. Atrelado às variações de formas com que o Motim se configura como uma ação de suspensão, desaparecendo para reaparecer sob nova forma, estão as escolhas pela linguagem da performance e seu caráter provisório e por uma estrutura dramatúrgica relativamente móvel, que contará com cenas que se alternarão de um lugar a outro, o que terá relação com a alternância das nuances dos estados corporais a serem desenvolvidos ao longo dos laboratórios.

A temporada segue nas duas semanas seguintes, de 10 a 13 e de 17 a 20 de março, com apresentações sempre nas terças, quartas, quintas e sextas-feiras, seguindo a mesma ordem dos locais. Todas as exibições acontecem a partir das 17h e a idéia é desenvolver as ações localizadas a partir dos pontos definidos e percorrer algumas vias públicas fazendo a transição para outros lugares a fim de fazer a performance ser explorada por diversos públicos.

Estudo
O trabalho de pesquisa de Motim teve início há cerca de um ano, período em que foram realizadas oficinas, laboratórios e treinamentos com a finalidade de instrumentalizar os performers-criadores com diferentes ferramentas e linguagens artísticas pertinentes ao resultado poético almejado. Entre as oficinas um destaque para o trabalho desenvolvido pelo ator e palhaço pernambucano, Arilson Lopes, na oficina Corpo Cômico e a oficina “Riso/Cômico/Humor”, com Joice Aglae, fundadora da Cia. Buffa de Teatro (Bahia) e cofundadora da companhia de teatro Bottega Buffa CircoVacanti, em Trento (Itália). Joice Aglae traz em sua formação relações múltiplas com o teatro, mímica, balé, dança folclórica, artes brasileiras de circo, figurino, maquiagem, arte da palhaçada, a arte do palhaço e commedia dell’arte.

Um conjunto de leituras sobre o ato de rir também norteou a pesquisa, através da distribuição de textos que foram discutidos e compartilhados através de formas diversas de organizar criativamente as informações acessadas através da leitura. Os resultados dessas formas de organização, bem como uma série de outros elementos, associados à predisposição a criar situações de riso, de humor, objetivaram a condução, ao longo dos processos criativos, os performers a um estado de corpo a partir do qual se deram as investigações criativas a produzirem os resultados que compõem a cena. Esse estado de corpo, de euforia, alegria, predisposição a mais riso, conferiu o foco corporal dessa pesquisa, deixando claro que o ato de rir põe, antes de tudo, o corpo e seus prazeres em primeiro plano. Nisso consiste boa parcela do que motivou a associação do riso à banalidade e à imoralidade. As estratégias ideológicas de condenação ou diminuição da importância do riso não estão desatreladas da história de desprivilégio do próprio corpo. Assim, é, sobretudo, através da afirmação incessante do estado de corpo provocado pelo riso que ganha consistência a dimensão política e performativa do ato de rir. Os laboratórios corporais, portanto, foram importantes para produzir esse estado de corpo nos performers através das mais diversas estratégias ligadas à busca de referências, novas ou pertencentes à memória. Ou seja, o estado de corpo foi o ponto de partida para a construção dramatúrgica do corpo e da cena.

A pesquisa também conta com um caderno de criação coletivo servindo com uma espécie de memória de todo o processo de estudo que deverá ser transformado em uma publicação a ser viabilizada posteriormente, visando convergir com os interesses do grupo de compartilhar com a comunidade artística em nível nacional, especialmente com atuantes no campo da dança, entendimentos, possibilidades de criação e caminhos de transformação através do ato criativo.

Coletivo Lugar Comum
O grupo recifense atua desde agosto de 2007, reunindo artistas de diferentes linguagens (dança, teatro, música, artes visuais, literatura). É um espaço para troca de saberes diversos na busca de propostas que tenham a potência de transformar (nos), esteticamente, politicamente, culturalmente e artisticamente. Hoje agrega 14 artistas, que se revezam, dando aulas uns para os outros, colaborando nas criações, na produção de projetos, na discussão de textos e idéias, entre outras atividades artístico-culturais. Lugar Comum, segundo o escritor Edouard Glissant, é quando um “pensamento do mundo” encontra outro “pensamento do mundo”, criando um espaço de reforço a uma compreensão que é assim ratificada. Para ele, é através da identificação dos novos “lugares comuns”, daqueles que emergem conectados a uma realidade multiétnica, plurivocal, não etnocêntrica, que é possível construir novos parâmetros para a arte e para a vida na contemporaneidade.

Serviço
Espetáculo Motim (terças às sextas-feiras)
Dia 3/3: Pátio do Carmo, bairro de Santo Antônio.
Dia 4/3: na rua do Hospício, bairro da Boa Vista.
Dia 5/3: Praça da Várzea, bairro da Várzea.
Dia 6/3: estação do metrô de Afogados, em Afogados.

Dia 10/3: Pátio do Carmo, bairro de Santo Antônio.
Dia 11/3: rua do Hospício, bairro da Boa Vista.
Dia 12/3: Praça da Várzea, bairro da Várzea.
Dia 13/3: estação do metrô de Afogados, em Afogados.

Dia 17/3: Pátio do Carmo, bairro de Santo Antônio.
Dia 18/3: rua do Hospício, bairro da Boa Vista.
Dia 19/3: Praça da Várzea, bairro da Várzea.
Dia 20/3: estação do metrô de Afogados, em Afogados.

Horário: sempre às 17h

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