Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Funcultura

Documentário “Aurora 1964″ faz pré-estreia no Cinema São Luiz

O filme, que conta com incentivo do Funcultura, será exibido segunda-feira (11), às 19h

Bruno Souza

Divulgação

Divulgação

O longa marca estreia do diretor Diego Di Niglio nas telonas

Cineasta de primeira viagem, o italiano Diego Di Niglio lança na próxima segunda-feira (11), às 19h, seu primeiro documentário no Cinema São Luiz. Batizado de “Aurora 1964″, o longa, que conta com incentivo do Funcultura, retrata a história de pernambucanos que tiveram a vida atingida pelo regime militar instalado com o Golpe de 1964. ”O longa é um exercício de memória, que constrói pontes entre épocas da história brasileira dos séculos 20 e 21. É um registro sobre vidas recompostas, constituídas por desvios e atravessadas pela imprevisibilidade das dinâmicas políticas do presente e do passado”, conta Di Niglio.

Segundo o diretor, o documentário é resultado de quatro anos de pesquisa nos arquivos do DOPS-PE e de uma série de investigações e acompanhamento das sessões da Comissão de Memória e Verdade de Pernambuco, bem como das memórias orais e dos acervos particulares de pessoas que vivenciaram esse período e que protagonizam o filme. “Aurora 1964 foi rodado entre abril de 2015 e dezembro de 2016, entre Recife, Olinda e o antigo Engenho Galileia (Vitória de Santo Antão), sede da primeira Liga Camponesa do Nordeste, local onde foi gravado o célebre documentário Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho”, lembra o cineasta na entrevista exclusiva que concedeu com exclusividade ao Portal Cultura.PE. Logo após a exibição do filme, haverá um debate entre o diretor, o público e os protagonistas do documentário no Cinema São Luiz. O acesso é gratuito.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

1- Qual o ponto de partida do filme? A partir de que elementos históricos/afetivos você construiu o enredo do documentário?
Sou formado em Ciências Políticas pela Universidade Católica de Milão e tenho uma trajetória na cooperação internacional, de mais de 15 anos, em projetos de ONG em área cultural, social, preservação ambiental e de desenvolvimento econômico em Africa, Asia e America Latina. Sempre fui muito sensibilizado pelas dinâmicas dos golpes dos anos 60/70 em America Latina, e me aproximei aos movimentos sociais de luta contra as ditaduras, como Las Madres de Plaza de Mayo e Las Abuelas de Plaza de Mayo na Argentina e, sucessivamente no Brasil, às entidades empenhadas no processo de memória e reparação, contra os crimes atuados pelos repressão dos órgãos estaduais, com leituras, pesquisas e encontros.

Meu caminho no Brasil, nessa temática, iniciou-se em 2013, através do livro Marcas da Memória: História Oral da Anistia no Brasil, realizado pelas UFPE, UFRS e UFRJ, com apoio da Comissão de Anistia. A partir da leitura dessa obra, entrei em contato com o professor Antônio Montenegro, do departamento de história da UFPE, que me acolheu com muito interesse e disponibilidade, e me apresentou ao historiador Pablo Porfírio, que se tornou um grande parceiro neste caminho. Eles me apresentaram à Comissão de Memória e Verdade de Pernambuco, que também abriu as portas as minhas pesquisas com grande disponibilidade.

Foto: Costa Neto

Foto: Costa Neto

Diego Di Niglio tomou o Golpe de 1964 como pano de fundo para o seu primeiro documentário

A minha ideia inicial foi de um projeto fotográfico, retratando as memórias orais de pessoas envolvidas na luta atingidas pela ditadura, através de encontros com as pessoas (inicialmente, da lista dos entrevistados pelo Marcas da Memória, ampliando para outras que conheci durante esse trajeto), bem uma busca nos arquivos do DOPS de Pernambuco. Entre 2014 e 2016, realizei o trabalho fotográfico, com incentivo do Funcultura, em um projeto de pesquisa na área de fotografia, que gerou o blog www.p14311.org e que ainda em 2017 será lançado em um fotolivro, sob o titulo P14311, também com a chancela do Funcultura.

Foi durante essa pesquisa fotográfica que surgiu a ideia do documentário audiovisual “Aurora 1964″, pois, à medida que ia fotografando, fui gravando depoimentos dos personagens retratados, a fim de onhecer mais sobre a história deles e estabelecer um diálogo mais profundo, que considero fundamental para gerar uma relação humana entre nós e também para favorecer o processo de criação fotográfica.

Ao longo desse caminho, foram se envolvendo parceiros da área audiovisual, como o fotógrafo Mateus Sá, o roteirista e diretor Felipe Peres Calheiros, além do historiador Pablo Porfírio e o meu colega de pesquisa Marcelo dos Santos. Desses encontros, nasceu a ideia do documentário “Aurora 1964″, como série para TV. Apresentamos o projeto no Funcultura Audiovisual e aprovamos, em 2015, na linha de Desenvolvimento de Produto para TV e, em 2016, como série para televisão. Rodamos entre 2015 e 2016, e, no processo de montagem, conseguimos desdobrá-lo em um longa e uma série televisiva.

2- Trata-se de um documentário de memórias, não é isso? Como foi para você, que é estrangeiro, revisitar/reconstruir essas memórias/histórias de um período tão dolorido para o povo brasileiro? Há um silenciamento/apagamento dessa época na nossa história oficial?
Sim, é um documentário de memórias, mas no filme tentamos investigar o passado, contextualizando com a realidade presente, a contemporaneidade dos protagonistas e a atualidade social e política do Brasil de hoje. A intenção do longa é mostrar a história desses personagens integrando suas memórias na dimensão do cotidiano de cada um deles. Fizemos isso para valorizar a realidade de cada um, sem limitar a narração a memória do passado. Vale dizer aqui que a história oral, contada por pessoas que vivenciaram essa época, com suas emoções, seus apagamentos e imprecisões que o tempo naturalmente produz, serve como contraponto da história oficial que sempre objetiva os fatos, mas, na realidade, é também fruto de uma interpretação.

Nunca idealizamos um documentário historiográfico, pois os fatos já foram amplamente objetos de livros e outros filmes. Porém, pensamos em uma abordagem mais pessoal, baseada nas pessoas, em suas lembranças em um contexto mais contemporâneo. A atualidade da temática e a necessidade de se fazer este trabalho vem de elementos distintos. De um lado, o processo de reparação propriamente dito, operado pelas Comissões de Memória e Verdade a nível nacional e em vários estados do Brasil. De outro, a constatação que a consciência do que se passou entre 1964 e 1985 ainda não está suficientemente presente na consciência da sociedade brasileira (a não ser em algumas camadas dela), pois observamos uma evidente desconhecimento sobre os fatos e a gravidade da violência que foi empregada pelos órgãos repressores do Estado naquela época.

3- Como as pessoas entrevistadas reagiram ao reavivamento dessas memórias? Quem são os personagens que participam do documentário?
Em muitos momentos das gravações, as emoções das pessoas em reviver o passado foram bem intensas. E intensas tanto para os entrevistados quanto para nós, da equipe. Para mim, particularmente, foi uma experiência profunda de humanidade, onde pude conhecer de perto as pessoas que se dispuseram em abrir suas histórias para nosso documentário: Jomard Muniz de Britto; Jacyra Bezerra, Jarbas Araújo, Anacleto Julião, Cícero Anastásio da Silva, o Maestro Geraldo Menucci, Maria de Lourdes da Silva, Marcelo Santa Cruz, Zito da Galileia, Nadja Brayner e a Banda Ave Sangria, que assina também a trilha sonora.

4- Esse é seu primeiro trabalho na área de cinema? Conta um pouco dessa experiência em rodar um filme pela primeira vez.
O “Aurora 1964″ é minha primeira experiência na direção de um trabalho audiovisual. Tudo foi um aprendizado. Agradeço infinitamente a todos os parceiros que trabalharam nesta empreitada da elaboração do projeto, a produção, montagem e finalização. Foi um processo de construção coletiva que, mesmo com uma equipe reduzida, garantiu a flexibilidade necessária para as gravações. O desafio maior foi enfrentar cada etapa da construção do filme, se debruçando sobre a linguagem e a estética que tentamos construir, como contar a história e como roteirizar o documentário, em função da abordagem escolhemos ter. Destaco que o Funcultura foi fundamental para a ideia do documentário se tornar realidade, pois ele garantiu o incentivo não só a realização completa do longa, como do projeto de pesquisa fotográfica que foi o passo anterior a ele.

5- Após essa pré-estreia no Cinema São Luiz, o filme terá desdobramento? Participará de festivais?
Como comentei anteriormente, o “Aurora 1964″ tem vários desdobramentos: fotolivro, longa-metragem e série para TV de 4 capítulos (que será também produzida em DVD com legendas em LIBRAS e um kit de propostas de atividades didáticas em 1000 cópias de distribuição gratuita para escolas, universidades, cineclubes, associações). O documentário também está inscrito em vários festivais nacionais e internacionais, mas por enquanto estamos aguardando respostas. A série será lançada na TVPE e, sucessivamente, vamos começar a distribuí-la com outras emissoras nacionais e internacionais.

Veja o teaser de “Aurora 1964″:

Serviço
Pré-estreia do documentário “Aurora 1964″
Quando: segunda-feira (11), às 19h
Onde: Cinema São Luiz (Rua da Aurora 175, Boa Vista, Recife – PE)
Quanto: acesso gratuito

< voltar para home