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Funcultura

Encontro de cineclubistas, durante o FPNC, discute questões relevantes sobre o audiovisual no estado

Mais um cineclube foi fundado, após a realização da oficina de cineclubismo, elevando para 137 o número em Pernambuco.

Por: Michelle Assumpção

A prática do cineclubismo é uma das discussões mais instigantes do audiovisual atualmente. Nem tão nova, daí sua existência no país estar permitindo a construção e fortalecimento de uma rede cada vez mais organizada e contemplada por políticas de governo; nem tão antiga. O que se conclui pela necessidade de mais apoios institucionais, editais que as sustente, oficinas de formação e capacitação e muitas discussões para que seu sentido seja aprendido e repassado, sem que o conceito inicial se perca. O cineclube foi feito para discutir e refletir o cinema e está além do entretenimento, mas a favor de causas mais coletivas que visam o bem estar geral da comunidade ou grupo onde é realizado. Esse engajamento social do cineclubismo o firma cada vez mais como uma ferramenta para se trabalhar educação, cidadania e participação política. Todas essas questões surgiram na discussão que aconteceu neste sábado (14), último dia do FPNC, na fria e charmosa Taquaritinga do Norte.

Foi o I Encontro de Cineclubes do Agreste Setentrional , promovido pela Coordenadoria de Audiovisual da Secretaria de Cultura de Pernambuco e Federação Pernambucana de Cineclubes (Fepec). O realizador Marcelo Pedroso participou da primeira mesa que discutiu a importância do cineclubismo na infoera, junto com Fernando Augusto, diretor da Fundarpe e Yanara Galvão do cineclube Alto do Moura e vice presidente da Federação Pernambucana de Cineclubes – Fepec.

Durante a semana, havia sido ministrada ainda uma oficina de cineclubismo, por Gabriela Saldanha e Yanara Galvão, da Fepec. Como resultado da oficina, mais um cineclube foi formado em Taquaritinga, no distrito de Pão de Açucar. Recebeu o nome de “Guerreiros do Capibaribe”. O festival também abrigou a oficina Cinema e Educação, que foi direcionada a professores da Região com o objetivo de capacitá-los para trabalharem o cinema dentro das escolas, estimulando nessas, a criação de mais cineclubes.

Carla Francine, coordenadora de audiovisual da Secult, diz que o movimento cineclubista também chega como forma de suprir a carência de salas de cinema nas cidades e é importante para a formação tanto de realizadores, quanto de plateia e para um cinema menos comercial e mais comprometido com seu contexto social e político. “A prática do cineclubismo é independente. Surge da carência de salas e do ‘se ver’ nas telas. Em Pernambuco, o estado apoia o movimento, por reconhecer a importância dos cineclubes para o pensamento crítico, a educação e informação das populações, além do empoderamento que a prática de um cineclube pode provocar dentro de sua comunidade”, diz Carla.

Fortalecido em todas as regiões do país, o cineclubismo deu um salto em Pernambuco, de 2007 para 2013, quando passou 12 para 137 grupos em atividade; dados atualizados durante o encontro, após a criação do cineclube “Guerreiros do Capibaribe”. Pernambuco também foi, segundo Carla Francine, o primeiro estado a incluir o cineclubismo dentro de um edital público, ao contemplá-lo como uma das linhas do Funcultura Audiovisual. A atual gestão cultural também articulou a formação da Federação Pernambucana de Cineclubismo.  As entidades e sua capacidade de articulação são a espinha dorsal do movimento, visto que, cada vez mais, os cineclubistas associam sua atividade à discussão e formação de uma política de governo que os contemple. Fazer cineclubismo é discutir temas, provocar debates, reflexões e resoluções.

Mais um cineclube foi fundado durante o I Encontro de Cineclubes do Agreste Setentrional.

Mais um cineclube foi fundado durante o I Encontro de Cineclubes do Agreste Setentrional.

O assessor da Regional Nordeste do Ministério da Cultura Beto Azoubel, que compôs uma das mesas do encontro, trouxe “boas notícias”. Colocou que o MinC está disposto a saldar a dívida com os estados que não receberam ainda o kit multimídia do edital do Cine Mais Cultura, de 2009. Pelo edital, os beneficiados receberiam, do  Minc: computador, projetores, telão e acervo, para criação de novos cineclubes. Da Fundarpe, em parceria com a FEPEC, os contemplados receberiam oficinas de formação. Em Pernambuco, 43 cineclubes (selecionados de todas as 12 Regiões de Desenvolvimento do Estado) foram contemplados pelo edital. Seus representantes realizaram as oficinas, mas houve atrasado na entrega dos kits. Azoubel informou ainda aos cineclubistas presentes sobre os editais do Minc que estão atualmente à disposição dos produtores de curtas e medias metragens  brasileiros. Ele incentivou os pequenos realizadores a se articularem ainda mais, através da participação em projetos e editais.

O produtor de curtas metragens Emanuel Dias mudou-se para Taquaritinga após ser convidado para trabalhar na realização do Cine Taquary, cuja sexta edição acontecerá de 4 a 8 de novembro. Ele contou sua experiência no encontro com cineclubistas.  O cineclube Taquary, do qual é produtor, em Taquaritinga, é dirigido para o trabalho educacional com crianças e adolescentes. Emanuel dirigiu seu primeiro curta, o documentário Quando eu crescer, em 2011. Nele, narra a história de um garoto de 10 anos que acompanho  a labuta dos pais, catadores de lixo, mas sonha em ser vendedor de sapatos. Emanuel acredita que esse público mais infantil, ao ter contato com a arte do cineclube, cria novas perspectivas e vai se tornar um adulto menos alienado e mais crítico. O menino, personagem central da história, morreu na véspera do lançamento do filme. O lugar onde morava com seus pais e irmão foi destruído pelas chuvas e o menino foi levado pela enxurrada.

Ainda sem palavras, até hoje, para descrever o que sentiu naquele momento, Emanuel acredita ainda mais que, através do cineclube, é possível ir além da arte, se tornando uma pessoa envolvida com questões mais urgentes dos lugares, das pessoas e situações que são narradas nos filmes. “O cineclube vem trazendo essa proposta de evolução social. A prática do cineclube com a educação é fantástica”, diz ele.

Emanuel Dias produz o Cine Taquary, que acontece em Taquaritinga do Norte.

Emanuel Dias produz o Cine Taquary, que acontece em Taquaritinga do Norte.

 

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