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Funcultura

Instrumento TumTá revela potencialidades da música aliada à dança

Projeto para desenvolvimento de uma nova ferramenta de arte e tecnologia contou com incentivo do Governo de Pernambuco

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Com incentivo do Funcultura, Projeto TumTá – Instrumento Digital de Música e Dança, contou com a participação de outros sete artistas pernambucanos que também aprenderam a manusear o instrumento

Marcus Iglesias

Há mais de dez anos  o artista pernambucano Helder Vasconcelos busca um instrumento digital que alie diretamente a música com a dança a fim de utilizá-lo no seu processo criativo. Estudante de Engenharia quando mais jovem, Helder, conhecido principalmente por liderar o Boi Marinho (que sai pelas ruas do bairro do Poço da Panela, no Recife), se formou no curso, mas acabou enveredando pelo mundo artístico, apesar de seguir fissurado nas possibilidades que a tecnologia poderia trazer para a arte. Na terça-feira (24/10) uma parte deste sonho se realizou depois que ele apresentou no Paço do Frevo, ao lado de João Tragtenberg e Filipe Calegario, sócios da Batebit Artesania Digital, o instrumento musical idealizado anos atrás: o TumTá, que tem como base princípios geradores de música, dança e teatro – como o pulso – identificados pelo artista nas tradições populares que participa. A mostra, resultado de uma série de investigações, pesquisas e oficinas do Projeto TumTá – Instrumento Digital de Música e Dança, contou com a participação de outros sete artistas pernambucanos, que também aprenderam a manusear o instrumento.

“Eu tenho uma relação com a tecnologia até antes da dança. Me formei em Engenharia, e dentro desse curso já curtia essa coisa de projetar, havia uma afinidade. Mas foi quando participei de uma residência e de um seminário realizado pelo Armando Meniccacci, sobre dança e novas tecnologias, que a minha cabeça explodiu de criatividade. Não é a tecnologia pela tecnologia, mas o que ela possibilita. A primeira coisa que vislumbrei foi que poderia usar este recurso pra revelar e potencializar a relação direta e precisa que existe entre dança e música. Esse foi o ponto de partida, transformar movimento em som”, explica Helder sobre como surgiu a ideia de criar este artefato.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“Não é a tecnologia pela tecnologia, mas o que ela possibilita. A primeira coisa que vislumbrei foi que poderia usar este recurso pra revelar e potencializar a relação direta e precisa que existe entre dança e música”

Tudo começou em 2006, quando ele teve a experiência com o Meniccacci e ganhou um Rumos Dança do Itaú Cultural no mesmo ano. “A partir daí convidei o Armando pra trabalhar comigo. Ele dirigiu meu segundo solo, Por Si Só, que foi o primeiro em que fiz uso desse recurso de tecnologia, mas a gente não teve as ferramentas necessárias para desenvolver o que eu vislumbrava. Foi quando conheci o Mustic, um projeto ligado ao Centro de Informática da UFPE que já lidava com esse conceito, e a partir deles me aproximei em 2012 do João e do Felipe, que posteriormente criaram a BateBit. Tudo então se materializou. Em 2016, exatamente dez anos depois, ganhei outro Rumos Dança, foi quando estreei em São Paulo o Eu Sou, meu mais novo espetáculo, já com o TumTá em palco”, revela.

De acordo com Felipe Calegario, o Batebit Artesania Digital é um espaço de experimentação para criação de novos instrumentos e interações musicais com a cultura pernambucana. “Com essa iniciativa convidamos os músicos da cena local para propor tecnologias que fossem mais utilizadas na academia. A ideia era juntar as duas experiências, de pesquisa e artística. Hoje contamos com outros três instrumentos: Um pandeiro de vara, na pose de tocar guitarra; o Giromin, que é baseado no giro e dispara algumas notas; e o terceiro foi o Disque-Som, uma brincadeira com telefone antigo com a proposta de transformá-lo num controlador de DJ”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Helder Vasconcelos apresenta o TumTá ao público

Para João Tragtenberg, “nossa viagem é criar a tecnologia e estar no contexto da nossa cultura, com pessoas que representam as diversas linguagens. Volta pra gente com um monte de ideia pra mexer e criar novas. A ideia é mostrar ao público o que o artista está tocando e fortalecer o caráter gestual de quem está no palco”.

O TumTá é o primeiro instrumento nascido da parceria entre Helder Vasconcelos e o BateBit e voltará a ser utilizado pelo artista em cena durante seu a estreia no Recife do Eu Sou, no próximo festival Janeiro de Grandes Espetáculos. “A pesquisa com Helder Vasconcelos antecede. Ele já estava num processo de pesquisa de criação do seu novo solo e queria para ele um novo instrumento que disparasse sons com o calcanhar”, pontua Filipe.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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A apresentação realizada no Paço do Frevo e aberta ao público foi a penúltima fase de avaliação da pesquisa

Os resultados positivos da utilização do instrumento geraram um grande interesse através de testes realizados por outros usuários. Assim nasceu o projeto de pesquisa TumTá – Instrumento Digital de Música e Dançam que conta com incentivo do Governo de Pernambuco, através do Funcultura, e envolve os criadores do instrumento com outros participantes. “A gente convidou alguns artistas que aceitaram com muita generosidade, pessoas que estão na estrada há mais tempo, e abrimos também um edital para pessoas na estrada há menos tempo, mas não menos generosas”, detalhe Helder. Os artistas convidados foram Claudio Rabeca, Johann Brehmer, Francini Barros, Aguinaldo Silva e Frank Sóstenes, enquanto os selecionados através de convocatória foram Áquila Lima (Mané do Pife), Jonas Alves Jr e Maria Flor.

Filipe Calegario conta que a proposta desse projeto foi testar o TumTá com outras pessoas. “Maria Flor, dançarina de frevo, por exemplo, percebeu que o ponto que pega a batida é o calcanhar, e no frevo quase não se usa o calcanhar no chão. Começamos então a dar novos usos ao mesmo artefato”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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s artistas convidados para participar desse processo foram Claudio Rabeca, Johann Brehmer, Francini Barros, Aguinaldo Silva e Frank Sóstenes, enquanto os selecionados através de convocatória foram Áquila Lima (Mané do Pife), Jonas Alves Jr e Maria Flor

Desde agosto que acontecem no Paço do Frevo encontros para a troca de conhecimentos e impressões. “Dividimos o projeto em várias fases de teste. Primeiro uma apresentação mostrando o que ele é, sem falar muito no instrumento. A segunda fase foi colocar o TumTá no pé dos participantes sem explicar como ele funcionava, para ver como as pessoas se comportavam sem direcionamento. Duas semanas depois realizamos uma oficina sem o instrumento, para estimular o grupo sobre os princípios de pulsação e a relação direta entre dança e música. Na segunda avaliação percebemos uma diferença deles na relação com o instrumento. O pessoal chegou com uma segurança muito maior no manuseio”, pontua Filipe Calegario.

“Nossa pesquisa não era para saber como esse instrumento reverbera em outros corpos, e o que é que vai e o que é que volta. Relacionar a pulsação da música com a dança, se isso transforma o uso do instrumento. Essa demonstração do processo foi mais uma etapa da pesquisa. A gente agora vai fazer mais uma avaliação com todo mundo, sentir a participação do público”, avalia João Tragtenberg.

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Uma das observações feitas durante essa última avaliação no Paço do Frevo, segundo Filipe Calegario, é que a percepção que se tem do instrumento é de que existem diversas possibilidades a serem trabalhadas. “Hoje o TumTá é uma palminha com uma espuma auditiva, com um sensor bem artesanal, costurado. Percebemos nessa demonstração que a galera de frevo tem uma mola no pé, enquanto Aguinaldo Silva, mestre do cavalo-marinho, tem uma pisada mais forte. É preciso ter esse controle de sensibilidade no pé”, observa.

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