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Kapinawás ressignificam a cultura ancestral através do design

Povoado indígena recebeu no último mês duas etapas do projeto 'Ocupação, Estamparia e Grafismos Kapinawá', que incentiva a criação de uma estampa inspirada na etnia

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o objetivo deste trabalho é desenvolver, num processo colaborativo junto aos Kapinawás, uma série de estampas têxtis inspiradas na etnia

O povo indígena Kapinawá, cujo atual território fica localizado no sertão pernambucano, próximo ao município de Buíque, viveu nos últimos dias uma experiência de resgate dos símbolos e de sua cultura ancestral através da arte. Entre os dias 30 de janeiro e 4 de fevereiro, a designer Zzui Ferreira e a artista visual Lia Letícia estiveram na aldeia Mina Grande para oferecer uma oficina de estamparia manual, atividade da segunda parte do projeto Ocupação, Estamparia e Grafismos Kapinawá que conta com incentivo do Governo de Pernambuco, através do Funcultura.

De acordo com Zzui Ferreira, idealizadora do projeto, o objetivo deste trabalho é desenvolver, num processo colaborativo junto aos Kapinawás, uma série de estampas têxtis inspiradas na etnia local em diálogo com os símbolos ancestrais deste povo. “Em todas as atividades nós ouvimos e orientamos os participantes com o propósito de colocarmos eles em contato com as pinturas e gravuras rupestres da região, através de uma reapropriação dessa identidade. Decidimos fazer tudo juntos, dentro de um conceito chamado de Design Social, que basicamente é trabalhar com comunidades tradicionais”, explica. Ainda segundo ela, a escolha dos Kapinawás se deu pela presença dos sítios rupestres que existem no entorno das aldeias e por manterem a tradição de se aplicarem pinturas corporais em rituais e encontros.

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De acordo com a artista visual Lia Letícia, sua oficina foi basicamente sobre o conhecimento em torno da pintura

A artista visual Lia Letícia, que tem 20 anos de experiência em pintura e estamparia, conta que a sua oficina foi basicamente sobre o conhecimento em torno da pintura. “Exploramos o universo da cor, do espaço, das linhas e da composição e trabalhamos em diversos suportes têxteis, desde o algodão até a lona. Tudo utilizando a construção gráfica e simbólica que eles vinham adquirindo e criando. Além disso, compartilhei uma técnica de serigrafia caseira, e que pode ser aplicada com baixo impacto de químicos”.

Lia Letícia conta também que se impressionou com o grau de coletividade do povo Kapinawá. “Para mim, que sou educadora, sentir esse impacto real, sem firulas, é incrível. Principalmente no momento atual em que a arte está sendo banida do currículo das escolas. Eram pra ser 20 pessoas, acabou que na oficina tivemos 23 participantes, entre adultos, adolescentes e crianças, um auxiliando o outro. Algo muito bonito de se ver, principalmente pra quem vive na cidade onde essa união e companheirismo são tão raros”, conta. “Outro momento emocionante foi quando uma das lideranças da comunidade falou ‘que de agora em diante eles não precisariam mais mandar pra gráfica da cidade as suas camisetas, porque eles mesmos iriam imprimir’”, revela a artista.

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As aulas exploraram o universo da cor, do espaço, das linhas e da composição em diversos suportes têxteis, desde o algodão até a lona

A terceira e última etapa do projeto será uma mostra expositiva do conjunto de símbolos criados pelos indígenas, com curadoria de Zzui Ferreira. “A gente está numa perspectiva de realizar esta exposição entre abril e junho deste ano, mas depende muito deles. Precisamos ainda conversar com os Kapinawás pra saber como eles querem expor estes trabalhos. Além disso, essa última fase é mais demorada porque eu vou fazer outra imersão para finalizar todas as estampas produzidas”, explica a designer, ressaltando que algumas informações relacionadas ao projeto estão disponíveis na internet. A equipe conta ainda com a produção executiva de Daniela Azevedo.

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Nos dias 16 a 20 de janeiro o grupo realizou visitas a vários sítios rupestres da região

Antes das oficinas, foi realizado o primeiro contato com o povo indígena, uma imersão aos sítios arqueológicos que ocorreu durante os dias 16 a 20 de janeiro. “Tivemos na ocasião o auxílio de um profissional da arqueologia e escolhemos, em conjunto com os participantes, alguns sítios próximos às aldeias para visitarmos. A imersão durou quatro dias, um destinado à roda de conversa para combinar com eles como seria as visitas, e os outros três para os trilhas. A pesquisa gráfica foi muito importante para ficarmos mais entrosados e, assim, pudemos identificar símbolos ancestrais, como rodas e círculos, aos quais vinculamos muitos hábitos que eles ainda mantêm até hoje, como os movimentos circulares tão presentes no Toré, por exemplo”.

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