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Livro inédito dá voz a poetas esquecidos do Recife

Obra do escritor Fábio Andrade resgata Simbolismo pernambucano e será lançada em formado e-book nesta quinta (29), às 17h, na Editora UFPE

Reprodução/Capa do Livro

Na virada do século XIX para o XX, alguns poetas recifenses experimentavam escrever com palavras e versos sobre sombras, melancolia e desencanto com as mudanças do mundo. Ao longo de 40 anos, a capital de Pernambuco teve uma expressiva produção da poesia simbolista e que foi deixada de lado pela crítica nacional. Na tentativa de reverter este quadro e de dar vez e voz aos poetas esquecidos, o professor de Letras da UFPE e escritor Fábio Andrade lança a obra Três poetas – na periferia do simbolismo, que resgata e analisa o trabalho de três importantes poetas desta fase em Pernambuco: Mendes Martins, Domingos Magarinos e Agripino Silva.

O lançamento do livro, em formato de e-book, será nesta quinta-feira (29), às 17h, na Editora UFPE – que disponibilizará em seu site, também a partir desta quinta (29), a publicação para download gratuito. A entrada é gratuita.

De acordo com Fábio Andrade, a ideia da pesquisa é mostrar que Pernambuco foi um local importante para a produção do Simbolismo no Brasil, mesmo estando fora do eixo. “Eles ficaram esquecidos por décadas porque não eram poetas que estavam inseridos em um grande centro cultural e não existia uma crítica literária forte no Recife da época. Além disso, havia um forte preconceito contra a poesia simbolista feita no Nordeste”, comenta o autor.

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Considerado um dos principais estudiosos do Simbolismo pernambucano, Fábio Andrade realizou uma intensa pesquisa de campo para chegar ao resultado final

O projeto contou com incentivo do Governo de Pernambuco, por meio do Funcultura, e teve como inspiração o livro O Fauno dos trópicos, lançado em 2015, que trouxe pela primeira vez um panorama do Simbolismo em Pernambuco com o mapeamento de 13 poetas. “Os três deste novo livro são os que considero mais importantes. Cada um representa uma característica. Mendes Martins é o que melhor expressou o decadentismo – vertente mais melancólica e subjetiva do simbolismo. Domingos Magarinos  é o mais puro, com influência de Cruz e Souza. E Agripino da Silva já faz uma mistura com o Parnasianismo”, explica Fábio.

Um dos principais estudiosos do Simbolismo pernambucano, Fábio Andrade utilizou de pesquisas em coleções particulares, acervos especiais da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, do Gabinete Português de Leitura e do Arquivo Público para chegar ao resultado final.  Uma curiosidade é que muitos dos poemas que estão em Três poetas – a periferia do simbolismo são inéditos em livro. Naquela época as obras eram publicadas em tiragens limitadas, muitas vezes bancadas pelos próprios autores.

Durante a pesquisa, por exemplo, Fábio Andrade identificou que a inauguração do Derby Centro Comercial, uma espécie de precursor dos shoppings centers que sofreu um incêndio em 1902 e virou ponto de encontro dos poetas, foi um dos vários fatores que ajudaram o Recife a produzir poesia simbolista de qualidade. Lá, funcionava a única filial da Livraria Francesa, cuja matriz ficava no Rio de Janeiro. “Os recifenses tinham contato direto com a produção dos autores europeus. Além dos franceses – Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Verlaine – os simbolistas portugueses também influenciaram muito os pernambucanos”, conta Fábio Andrade.

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Domingos Magarinos é um dos poetas que teve seus poemas publicados no livro de Fabio Andrade

Mas houve também empecilhos que dificultaram o desenvolvimento e divulgação do que era produzido no Recife neste sentido, como o preconceito da crítica contra os nordestinos. “A partir dos anos 1930 e 1940 começou uma reabilitação do movimento. O crítico José Cândido de Andrade Muricy teve interesse pelo tema e apresentou um panorama. Mas mesmo ele vai incorrer no erro de que o simbolismo aconteceu apenas nas regiões Sul e Sudeste, porque, na visão dele, são regiões mais frias e com colonização europeia. Ele cita apenas quatro poetas pernambucanos no panorama, todos eles com vida literária fora do estado. A cena literária no Recife foi totalmente ignorada”, afirma.

Sobre os três poetas:

Mendes Martins – Há quase nenhum dado bibliográfico sobre o poeta, a não ser que faleceu aos 41 anos no Recife. Seus poemas trazem como característica mais marcante a morte como uma experiência que pode ser vivida indiretamente. O medievalismo – ou seja, a volta de temas e personagens da era medieval – e uma profunda melancolia também são marcas do escritor. “Os interesses e estilos de vida influenciavam muito a obra dos simbolistas. Há poemas de Mendes Martins que trazem todos os preceitos gnósticos. Eram as ideias a serviço da poesia”, diz Fábio.

Domingos Magarinos – Membro da tradicional família Souza Leão, passou a juventude no Recife, antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Seus escritos trazem temas ocultistas, como a crença de uma civilização avançada na América pré-histórica, puritanos (a “mulher terrível”) e apresentam uma sonoridade que muitas vezes emula os poemas de Cruz e Souza. Magarinos também produziu poemas que se aproximam do pré-expressionismo europeu, algo raro no Simbolismo brasileiro.

Agripino da Silva – Foi um poeta dividido entre a “túnica e o fraque”. Ou seja, entre o sonho e a ilusão do Simbolismo e o apuro da técnica do Parnasianismo. Foi um dos fundadores e editores da revista Heliópolis, uma das principais a divulgar o Simbolismo em Pernambuco.  Sua poesia carrega forte inspiração da natureza, com jogo de cores.  “A obra de Agripino da Silva traz muita criação de palavras, neologismos. Há palavras que nem estão dicionarizadas. Essa experimentação é um dos fatores que separa o Parnasianismo do Simbolismo”, explica Fábio.

Serviço
Lançamento do e-book “Três poetas – na periferia do simbolismo”
Quinta (29) | 17h
Editora UFPE (Rua Acadêmico Hélio Ramos, 20, Cidade Universitária)
Entrada gratuito

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