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Funcultura

No Dia do Circo e dos Circenses, artistas comemoram importantes conquistas e reconhecem desafios

Linhas de ação do Funcultura, Lei do Patrimônio Vivo de Pernambuco, Prêmio Ariano Suassuna, comissão setorial e uma cartilha (a ser lançada) são avanços da política pública para o setor

Foto: Renata Pires

Foto: Renata Pires

Lona de circo, durante o Festival de Inverno de Garanhuns (FIG)

Michelle de Assumpção

Antes de existir o rádio, a televisão, o cinema, existiu o circo. E o circo chegou entrando onde o teatro e o cinema não puderam ir. Desbravou o país e continua chegando aos lugares mais distantes, mais isolados, onde grande parte da população muito provavelmente só vai saber o que é espetáculo a partir dos números que seus artistas apresentam. O dia 27 de março foi instituído, pela lei estadual n° 16.241, de 14 de dezembro de 2017, como Dia Estadual do Circo e do Artista Circense. Nacionalmente também se comemora a data, que surge em homenagem ao palhaço brasileiro Abelardo Pinto, conhecido popularmente como Piolin, que nasceu nessa data, no ano de 1897. É um momento em que os circenses refletem sobre as conquistas e sobre os desafios que o ofício impõe.

A Secretaria de Cultura de Pernambuco tem mantido e fortalecido políticas que visam garantir a permanência da arte circense, seja no picadeiro dos circos itinerantes, ou a partir dos projetos de formação que visam formar novas gerações de circenses. A principal delas, em curso atualmente, é a destinação de recursos, via Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura. No Edital Funcultura-Geral, na linguagem Circo, existem dez linhas de ação, sendo duas delas voltadas exclusivamente para os circos itinerantes. A primeira, no valor de R$ 80 mil, refere-se à montagem de espetáculo; e a segunda, que contempla itinerância estadual de espetáculos pelas macrorregiões do Estado, incentiva com R$ 100 mil os projetos contemplados.

Existe ainda uma linha mais abrangente que, além de circos itinerantes, pode contemplar também trupes e grupos, no valor de R$ 60 mil (circulação pela Região Metropolitana do Recife) e R$ 120 mil (para circulação em pelo menos três estados do Nordeste). Na área de Pesquisa Cultural em circo, são ofertados R$ 130 mil. E, na área de Formação e Capacitação, existem outras cinco linhas de ação (com valor global de R$ 255 mil), pela qual os circenses itinerantes também podem apresentar propostas.

Outra ação da Secult-PE, que também foca nos circenses, é o Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia, que reserva categorias para mestres e para grupos populares, selecionando quatro propostas por cada área com recursos de R$ 10 mil e R$ 15 mil, respectivamente. Em ambas as categorias, os artistas de circo podem apresentar projetos.

TRADIÇÃO E SABERES – Por meio de mais um importante edital, o de Patrimônio Vivo de Pernambuco (Lei nº. 12.196, de 2 de maio de 2002) – mestres e grupos circenses podem ser valorizados. No caso do circo, a artista circense Índia Morena é detentora do título desde 2006. Depois de ter seu próprio circo e uma bela e emocionante história de quase 40 anos, Índia Morena é incansável na batalha por melhorias para o artista do circo. “Minha luta é mais para defender os artistas de circo, não exatamente os donos de circo. Eu olho hoje e vejo o circo muito diferente de quando eu conheci. É nisso que a gente pensa”, diz Índia. Para quem, como ela nasceu no circo, e portanto viveu todas as suas alegrias e desventuras, ser circense é quase como ser cigano (aliás, entre as famílias tradicionais do circo, muitos vieram de comunidades ciganas); é ter vivido centenas e talvez milhares de aventuras, por outros milhares de quilômetros de estrada Brasil afora.

Foto: Renata Pires

Foto: Renata Pires

Índia Morena é artista circense com mais de 60 anos de vida artística e Patrimônio Vivo do Estado

Os bisavós peruanos de Gardênia Alves chegaram ao Brasil por volta do ano de 1900. Eles já eram do circo. Em 1903, nasce Manoel Pedro Vasconcelos, o filho caçula e brasileiro do casal, avô de Gardênia. É dessa data que ela conta o surgimento do Circo Alves, que começa em Minas Gerais e hoje tem dezenas de lonas espalhados pelo Brasil. “Eu tenho circo, meus irmãos têm os circo deles, meus sobrinhos. Somos uma grande família de circenses tradicionais. Naquela época, éramos uma das poucas famílias que fabricava lona”, conta Gardênia, mais conhecida como Tita. Ela veio parar em Pernambuco depois de conhecer o pernambucano Heleno Orlando de Melo, o Palhaço Gipinho, um garoto que deixou a família e literalmente fugiu com o circo.

“As família tradicionais de circo sempre tiveram isso de querer que as mulheres se casassem com homens de famílias do circo. Ele (Palhaço Gipinho) não vinha de uma família tradicional do circo, mas a gente começou a namorar em meados de 90. Minha família era grande, um pessoal conhecido, tinha essa coisa. Então mesmo ele sendo circense eu sofri esse preconceito. E até hoje tem essa diferença pra gente, de pessoas que vivem da nossa linguagem, sem serem circenses. Nós nascemos do circo, fomos paridas do circo. Tem gente que não consegue entender essa diferença, mas ela existe”, explica Gardênia. Hoje é ela quem monta os espetáculos do circo Alves, atualmente instalado na comunidade da Comportas, um pequeno bairro de Jaboatão dos Guararapes.

“Eu monto os espetáculos, dou aula, trabalho com os palhaços, sou mestre de cena, trabalho o espetáculo inteiro. Já fui malabarista, trapezista, hoje sou apresentadora”, conta ela, que vai fazer um espetáculo neste Dia do Circo, para comemorar a data. “Circo é cultura para as comunidades, lugares onde a população tem pouco acesso à arte. A gente chega onde não tem teatro, não tem cinema, não tem nada. Hoje, a luta maior é pra poder trabalhar. Os municípios ainda querem cobrar todas as taxas de uso do terreno, e essa é uma das nossas maiores dificuldades”, diz Gardênia.

O Circo Alves é um dos que acessam as políticas para o circo do Governo de Pernambuco. Mesmo reconhecendo que ainda há muito a fazer, Gardênia diz que é de extrema importância a circulação promovida pelos programas que incentivam a tradição, como o Funcultura ou mesmo o Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), para onde todos os anos tem levado seus espetáculos. Só no FIG do ano passado, o Governo de Pernambuco investiu cerca de R$ 80 mil para contratação da programação artística de circo. Durante nove dias de programação, o público lotou a lona montada no Parque Euclides Dourado, para assistir aos espetáculos. Ao longo do ano, as pautas de circo também podem ocupar o Teatro Arraial Ariano Suassuna, equipamento ligado à Secult-PE e a Fundarpe, que faz uma seleção criteriosa de pauta, a partir de projetos inscritos por meio de convocatória.

Foto: Renata Pires

Foto: Renata Pires

O Circo Alves tem 130 anos de história e hoje é coordenado por uma bisneta dos fundadores, Gardênia Alves

PERSPECTIVAS – A Secretaria Estadual de Cultura está elaborando – em parceria com entidades ligadas ao circo – uma cartilha que virá com o objetivo de fortalecer a relação entre os artistas de circo com as administrações municipais, abrindo espaço para uma maior compreensão – por parte dos gestores das cidades por onde os circos itinerantes passam – de que eles precisam ser apoiados da execução de sua arte milenar. “Entendemos que estamos, enquanto poder público, construindo um diálogo importante com todas as pessoas que contribuem para a existência do circo em Pernambuco, seja por meio dos circos itinerantes, seja nas trupes. Estamos finalizando o conteúdo de uma cartilha para a Campanha ‘Pernambuco Recebe o Circo de Braços Abertos’, que terá a importância de facilitar a compreensão e o diálogo dos grupos com as prefeituras municipais. Também renovamos a Comissão Setorial de Circo, formada por três titulares e os respectivos suplentes, eleitos em 2017, durante a realização da 4ª Conferência Estadual de Cultura. São pessoas do Circo que nos aproximam de sua realidade, contribuindo para elaboração de políticas mais assertivas para o segmento. Sem esquecer da representação do segmento Circo no Conselho Estadual de Política Cultural, que fortalece ainda mais esse processo da co-gestão”, destaca o assessor de Circo da Secult-PE, Jorge Clésio.

“Sabemos do desafio que é fortalecer a linguagem do Circo, assim como de todas as linguagens da cultura, sobretudo em um momento em que os recursos ficam mais escassos, mas trabalhamos com muito otimismo e abertura ao diálogo, sempre recebendo os grupos e artistas e buscando as melhores formas de atender aos circenses, sejam os do circo tradicional, sejam os grupos e trupes que tanto colaboram para o processo de formação dos novos circenses”, coloca o secretário de Cultura Gilberto Freyre Neto.

“Um circense itinerante chegar a uma câmara setorial é muito difícil, mas conseguimos. A minha classe vê tanta injustiça social, que não acredita que possa mudar, mas a gente que já começa a acessar vê que pode acontecer. Muitas coisas já foram mudadas, mas ainda existem muitos circos espalhados pelo país e a gente ainda tem muito a conquistar”, conclui Gardênia.

TRECHO DE POESIA “SER DO CIRCO” (ÍNDIA MORENA)

Eu não sou de circo, sou dos circos

Ser de circo é conviver no dia a dia com alegria

Ser de circo é enfrentar públicos diferentes

Ser de circo é estar numa invasão, numa favela, ou em bairros perigosos, convivendo com marginais

Ser de circo é estar até os nove meses de gestação, se exibindo para o público, no palco ou no picadeiro

Ser de circo, é se mudar num caminhão com chuva, o caminhão quebrar sem ninguém por perto

Ser do circo, é deixar amigo por onde passo, e o nome para não ser esquecido

Ser do circo é receber notícia, no meio do espetáculo, de um parente morto, e não ter o direito de chorar

Ser do circo, é levar sua arte onde o povo está

Ser do circo, é esperar trabalhar hoje, para comer amanhã

Ser do circo é morar numa barraca de de lona, ou numa lata de sardinha chamada trailler

Ser de circo, é querer o bem até pra quem não merece

Ser do circo, é trabalhar em circos

Ser do circo, é não ter infância, mocidade nem velhice, e se esforçar para chegar onde o público está

Ser do circo não é trupe, trupe não tem número

Ser do circo é saber armar e desarmar sua morada, seu Palácio que é o circo

Ser do circo é morrer sem poder ser sepultado longe de sua terra natal

Isso é que ser artista de circo

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