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‘O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos’ lança catálogo no Recife

Projeto foi motivado pela existência de fichas de artistas pelo DOPS/PE entre os anos de 1934 e 1958

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Projeto contou com incentivo do Funcultura e gerou trabalhos inéditos a partir de investigação no acervo do DOPS/PE

Criado a partir de um conjunto de fichas de artistas que foi produzido pela Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco (DOPS/PE) entre os anos de 1934 e 1958, o projeto O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos lança catálogo no Recife nesta terça-feira (28). A ocasião vai contar com palestras do professor e historiador Durval Muniz de Albuquerque Junior e da curadora Gleyce Heitor, que apresentará as três propostas artísticas desenvolvidas a partir de uma convocatória lançada no final de 2015: Vaga de Irma Brown, de Moacyr Campelo (PE), Folhetim dos Encontros, de Juliana Borzino (RJ) e Teta Lírica, de Marie Carangi (PE). O evento será realizado no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje), a partir das 19h, com entrada aberta ao público.

“Uma pergunta que sempre norteou nossa pesquisa é o porquê dessas pessoas serem fichadas. E o que constatamos é que não foi por ideologia, e sim porque eram vidas que não se adequavam ao padrão que a sociedade esperava. Os dois primeiros transformistas registrados como artistas no Brasil, por exemplo, foram fichados pelo DOPS/PE. Outro dado interessante é que 60% das fichas são de mulheres, muitas delas que tinham hábitos que não se encaixavam no conceito ‘recatada e do lar’”, explica Clarice Hoffman, uma das coordenadoras d’O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos.

Imagem do Recife durante o período que o DOPS/PE iniciou o fichamento dos artistas

Imagem do Recife durante o período que o DOPS/PE iniciou o fichamento dos artistas

Com incentivo do Governo de Pernambuco, através do Funcultura, e contemplado pelo programa Rumos, do Itaú Cultural, o site do projeto também vai receber outros conteúdos nesta nova etapa. Já estão disponibilizados no local, por exemplo, artigos dos pesquisadores Alexandre Figueirôa e Marcília Gama, que tratam respectivamente do panorama das diversões públicas e do seu controle entre 1930 e o final da década de 1950 no Recife, bem como o controle político e social exercido pela DOPS/PE no período.

“Temos percebido que o site é bastante acessado por pesquisadores, que o utilizam como fonte de informações. Devido a essa demanda estamos em busca de outros financiamentos para que o projeto siga em frente com outras ações”, comenta Clarice Hoffman. Além dos artigos, serão inseridos no endereço eletrônico uma nova cartografia do Recife, feita a partir das informações registradas nos fichários, bem como a publicação de dezenas de novas resenhas, e a disponibilização das obras artísticas criadas a partir da convocatória.

Ficha de funcionário do Cassino Império, que funcionava no centro do Recife

Ficha de funcionário do Cassino Império, que funcionava no centro do Recife

Um dos resultados que também foi gerado a partir deste projeto é um ensaio do historiador Durval Muniz de Albuquerque Junior, publicado no site e no catálogo que será lançado no evento. O texto faz uma reflexão sobre as motivações que levaram a Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco a fichar tais artistas. O autor também sugere cinco possíveis cartografias para a cidade do Recife, criadas a partir da documentação da DOPS/PE que aponta para redes e territórios pouco conhecidos na história da cidade.

Exibidas virtualmente no site, as Cartografias das Delícias, Artes, Nomadismo, Paranoia e Política apresentam narrativas visuais e interativas da cidade do Recife, possibilitando aos visitantes do site acesso a imagens e informações sobre locais e eventos existentes entre os anos 1934 e 1958, assinalados em um mapa de 1952 e ilustrados por fotografias do Museu da Cidade do Recife.

Sobre o projeto

O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos é um projeto cultural elaborado e motivado pela existência de um conjunto de fichas produzido pela Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco (DOPS/PE) entre os anos de 1934 e 1958, com registros da passagem pelo estado daqueles indivíduos vistos e nomeados como artistas.

Das mais de mil fichas que compunham esse conjunto, apenas 403 foram conservadas e encontram-se, desde 1991, sob a salvaguarda do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (APEJE). São indícios da vida de mulheres e homens, brasileiros e estrangeiros, protagonistas de uma movimentação ocorrida na cidade do Recife, no campo da arte e do entretenimento, nas décadas de 1930, 1940 e 1950, que lançam luz sobre uma potente história cultural e política do estado e do país.

Serviço
Lançamento do catálogo d’O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos
Terça (28) | 19h
Apeje (Rua do Imperador, 371, Bairro de Santo Antônio)
Gratuito

Saiba mais sobre as obras artísticas criadas a partir da convocatória:

Vaga de Irma Brown e Moacyr Campelo (PE)
O trabalho composto por vídeos, fotografia, perfomance e intervenção urbana. Foi idealizado com base no mapeamento dos espaços existentes na cidade do Recife fichados pela DOPS/PE, entrecruzando passado e presente, evidenciando ruínas e resistência. Ao subjetivar os lugares, os contextos e os ambientes do Recife, a proposta apresenta a cidade como a grande protagonista.

Folhetim dos Encontros, de Juliana Borzino (RJ)
A artista entrecruza ficcionalização e arqueologia, criando um folhetim inspirado por aquele outrora distribuído pela loja de seu bisavô pernambucano, a Livraria Mozart. Diversamente ao folhetim da livraria, dedicado a grandes personagens e eventos da cidade, em seu Folhetim dos encontros, Borzino vai ao encontro de uma cidade fantasmática, experimentada por entre momentos de coletividade e recolhimento. Sua narrativa soma-se a uma iconografia que contrapõe pesquisa em arquivo e produção de imagens, relacionando história pública e familiar como história da cidade.

Teta Lírica, de Marie Carangi (PE)
Conjunto de vídeos, performances e fotografias nas quais a artista produz som a partir do movimento de seus seios em frente a um teremim. Sua performance, que se dá em espaços cênicos em desuso da cidade (como um coreto e uma concha acústica), articula-se com as práticas e modos de vida de alguns artistas apresentados em O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos a partir de uma poética do corpo e da subversão.

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