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Oficina de vídeo envolve crianças do Sertão pernambucano

Sertânia, São José do Egito, Araripina e Belém do São Francisco receberam o projeto da documentarista Maria Eduarda Andrade, que contou com incentivo o Funcultura

Renata Pires

Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça!”. Ao se ouvir/ler a frase clássica do cineasta Glauber Rocha, você já parou pra pensar numa criança com câmera em punho, ou dirigindo um filme? Talvez não. Mas, num universo quase que exclusivamente de “gente grande”, os pequenos pensantes também tem vez. Foi o que vislumbrou a documentarista Maria Eduarda Andrade, que não ficou somente na ideia! Com o incentivo do Governo de Pernambuco, através do Funcultura, ela percorreu as cidades de Araripina, Belém do São Francisco, Sertânia e São José do Egito com um propósito: transformar crianças desse municípios em realizadores de audiovisual. Sob o tema “O que você quer ser quando crescer?”, ela levou oficinas de vídeo aos quatro municípios e iniciou os meninos e meninas no universo da criação na Sétima Arte.

Durante quatro semanas, Maria Eduarda e sua equipe rodaram mais de 2 mil quilômetros entre estradas esburacadas, que os levaram a lugares remotos, longínquos, incrustados no Sertão pernambucano. Tinham na bagagem o desejo de fazer um novo mundo se descortinar para aquelas crianças. Voltaram cheios de histórias pra contar. “Eu sou fascinada pela infância em si!”, conta Maria Eduarda, que morou, durante oito anos, em Londres e Nova York, onde realizou oficinas de vídeo com crianças. “A infância explica muito do adulto que a gente é. E acho que a gente olha pouco pra infância, e, em geral ,quando olha, a gente não faz com a seriedade que o tema merece, não respeitamos a inteligência e autonomia das crianças. Então, eu quis fazer algo que tivesse essas coisas, o respeito pela inteligência das crianças, o confiar na autonomia delas, saber que elas seriam capazes de desenvolver uma história, elaborar um roteiro e fazer um filme em cinco dias”, explica Maria Eduarda sobre o que a motivou a empreender este projeto.

Renata Pires

E como chegar até elas? Durante a pré-produção das oficinas, Maria Eduarda contatou as secretarias de Educação dos municípios, assim como as dirigentes das unidades escolares, para explicar do que se tratava o projeto e para colaborar na seleção das crianças, com faixa etária de 6 a 11 anos. “A gente basicamente pediu a elas (escolas) que selecionassem mais ou menos o mesmo numero de meninas e meninos, pra ter igualdade de gênero. E que elas ficassem de olho em crianças que ‘gostassem de contar histórias’”, conta. Ao chegar nas cidades, ela encontrou meninos e meninas excitadíssimas e curiosas com a novidade que estavam trazendo para o lugar. Muitas delas nunca tinham tido a oportunidade de ir ao cinema, que dirá ser ator, diretor ou roteirista de um filme?

Durante a oficina, as crianças aprenderam conceitos básicos da narrativa em vídeo, além de eles próprios criarem, coletivamente, as histórias a serem contadas, os personagens, cenários e figurinos. “Foram semanas de trabalho muito intenso, mas a verdade é que nosso maior desafio é criar um ambiente de segurança emocional, onde a criança é livre pra criar e se expressar. E é muito mágico quando isso acontece”. Cada uma delas recebia uma função no grupo. O pequeno Anchieta Júnior, de 10 anos, de São José do Egito, assumiu a câmera e áudio do filme O Mundo Mágico de Valentina, de autoria dos alunos. Apesar de externar o desejo de se tornar veterinário, Anchieta demonstrou muito talento e desenvoltura na função. “Eu achei bem legal participar. No começo foi difícil, a gente ainda não sabia direito das coisas. Depois foi ficando mais fácil e a gente filmou tudinho, comigo na câmera. Achei bem interessante”, conta ele, que, logo em breve, terá sua história contada em um documentário produzido por Maria Eduarda.

Renata Pires

Toda orgulhosa, Maria de Lourdes de Souza Almeida, a Dêra, mãe de Anchieta, acompanhou o envolvimento do filho nesse momento e deu total apoio. “Eu achei muito importante pra ele! Por ele ser tão novinho, ele ficava muito empolgado com tudo o que fazia. Júnior é muito interessado nas coisas e, por isso, ela (Maria Eduarda) o incentivou ainda mais. Tudo era novidade, pra ele e pra gente”, disse. E a novidade foi bem assimilada pelas crianças, que botaram sua criatividade pra fora. Bem o disse Elaine Batista, diretora da Escola Municipal Baraúnas, também em São José do Egito, que recebeu também alunos de duas escolas convidadas para participar das oficinas, Escola Helena Maria de Figueira Brito e Escola São Sebastião. “Essa oficina foi algo que nos surpreendeu muito e torcemos para que a equipe volte pra cá! Eu gosto muito de desafios e essa oficina foi um desafio importante pra nós que moramos aqui na Zona Rural, com crianças tão pacatas, no seu cantinho. De repente, elas têm uma oportunidade dessa, de colocar suas ideias e sensibilidade pra fora. Todos gostaram muito e pensamos até na possibilidade de incluir cinema e teatro no currículo escolar, assim como dar continuidade ao que eles desenvolveram aqui. Mesmo sem os equipamentos que eles possuem, mas com celulares dá pra gente fazer algo. Temos muitas ideias em mente para desenvolver com os nossos alunos”, conta Elaine, ansiosa pelo retorno de Maria Eduarda e equipe à escola.

Com a tal câmera na mão e mil e uma ideias na cabeça, surgiram histórias de um circo imaginário, do mundo encantado de Valentina, histórias de terror, que contaram com uma produção de maquiagem, que rendeu em meninos e meninas fantasiados de caveirinhas horripilantes, causando furor e expectativas nas mães mais receosas. Tudo virou festa e filme!

Criar, fazer e se ver na tela grande

Tudo virou filme e ganhou a tela grande de um verdadeiro cinema. Era 11 de abril de 2015 quando, na quadra da Escola Baraúnas, alunos, seus familiares e os funcionários da unidade de ensino aguardavam, ansiosos, por um momento único em suas vidas. Naquela noite, em um telão montado no loca, seria exibido o filme O Mundo Mágico de Valentina, um curta-metragem criado e filmado pelos alunos das escolas participantes da oficina de vídeo, ministrada por Maria Eduarda Andrade. Muita gente marcou presença no local, para conferir o talento das crianças.

Renata Pires

Renata Pires

Crianças assistem ao filme que produziram durante a oficina

O pequeno Anchieta Jr., responsável pela câmera que registrou todas as tomadas do filme, contou como foi a sensação de ver seu olhar estampado numa tela de cinema. “Eu tive orgulho de mim, de expor as coisas que eu vi ali”, contou. Dona Dêra, mãe do menino, levou os familiares pra assistirem ao filme e “lambeu a cria”, “Ele se saiu muito bem! Ele e toda a equipe, principalmente por serem ainda muito novinhos. Como aqui não temos cinema, não temos o hábito de ir ao cinema, e aí tudo me parecia muito bonito. Eu mesmo nunca tinha ido ao cinema, e, pra mim, aquilo era um cinema perfeito. Foi a primeira vez e foi lindo!”, exalta.

Elaine Batista, diretora da escola, se surpreendeu com a adesão da comunidade. “Eu até pedi que a exibição fosse de tarde, pois a escola fica num local de difícil acesso. Mas Duda insistiu e, então, resolvemos que seria à noite. E foi incrível, tinha muita gente, eu não imaginava que viesse tanta gente. Pessoas de outras localidades, de outras escolas. Foi algo, realmente, contagiante”, lembra.

Aplausos, sorrisos e choro aos montes na exibição do filme. E, para toda a equipe, um sentimento de dever cumprido se revela. Para Maria Eduarda, “Foi muito maravilhoso ter podido proporcionar um momento como esse para aquelas pessoas. Mexeu demais comigo. Quando propus o projeto pro Funcultura, achava que estávamos propondo algo bacana, mas não imaginava que o impacto no nosso público alvo fosse ser tão tocante”, comenta Maria Eduarda.

E, assim como na história de Valentina, contada por Anchieta e seus amigos, em filme, o próprio garoto relembra, em sua fala, o desfecho dessa curta, mas tão intensa aventura de mergulhar no mundo do cinema: “E todo mundo ficou feliz!

Confira o filme O Mundo Mágico de Valentina, produzido na oficina de vídeo em São José do Egito
Para conferir outros vídeos da oficina, acesse AQUI.

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