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Funcultura

“Tatuagem” deixa sua marca de afeto no Recife

Filme de Hilton Lacerda estreou na capital pernambucana na abertura oficial do 6º Janela Internacional de Cinema do Recife

Costa Neto

Costa Neto

Hilton Lacerda (dir), acompanhado da equipe de “Tatuagem”, fala sobre a estreia do filme

por Leonardo Vila Nova

Uma noite para acarinhar a alma e o coração. Há tempos que o público recifense se preparava para o que aconteceu na última sexta (11): a tão aguardada estreia do filme Tatuagem, de Hilton Lacerda, na capital pernambucana. Depois de festejadas exibições no Festival de Gramado e do Rio (nesses dois, conquistou um total de nove prêmios), o primeiro longa de ficção do diretor encheu a tela do São Luiz, na abertura do 6ª edição do festival Janela Internacional de Cinema do Recife, e arrebatou um público gigante, que enfrentou fila e chuvisco para garantir seu lugar em mais um momento histórico da nossa produção audiovisual.

E o que levou tantas pessoas a enfrentarem uma fila que deu voltas no quarteirão e a esperar por horas para conseguir o melhor lugar no cinema? O estudante de publicidade Thomaz Jefferson respondeu com um sorriso no rosto: “É a paixão pelo cinema! O prazer de ver um lindo trabalho, como imagino que deva ser Tatuagem”. Jefferson veio de Paudalho  especialmente para a abertura do Janela (além do Recife, Olinda e Bonito, o município na Zona da Mata Norte serviu de cenário para algumas passagens do filme). O jovem chegou no São Luiz por volta das 14h. Ao saber que os ingressos só seriam vendidos a partir das 19h, deu um tempo e depois, em torno das 16h, estava de volta à fila, onde já haviam 10 pessoas à sua frente. Para passar o tempo, valeu banquinho para esperar sentado e até tabuleiro de xadrez como distração. Mesmo com a fila já abraçando o São Luiz, quem ainda tinha uma ponta de esperança de conseguir um ingresso não desistiu.

Amor pelo cinema e prestígio da produção pernambucana. Tamanha expectativa não se limitava somente ao público. Momentos antes da exibição, o diretor Hilton Lacerda já recebia abraços carinhosos e desejos de boa sorte enquanto circulava entre os convidados. E ele não fez a menor questão de esconder a ansiedade pela recepção que o filme teria em sua terra. “É a primeira vez que estou nervoso. Já passei por várias estreias em minha trajetória, mas sempre muito tranquilamente. Só que mostrar o filme em casa é outra coisa e esse está sendo um momento muito feliz, é uma expectativa e uma responsabilidade muito grandes“, declarou.

A sessão começou exibindo o curta Censura livre (1979), registro do diretor Ivan Cordeiro, em Super 8, da demolição de algumas salas de cinema no Recife, sendo substituídas por estabelecimentos comercias. Imagens que falam por si, apontando a desolação e o ostracismo a que verdadeiros templos da cultura e lazer foram destinados pelo poder predatório do capital. Na sequência, sem intervalo, o clima de desbunde total invade a tela do São Luiz e enche os olhos dos espectadores. Tatuagem estava começando!

É “amor da cabeça aos pés”, como cantaram os Novos Baianos. Do primeiro ao último minuto, Tatuagem faz reverberar em quem o assiste um brado de liberdade, que chacoalha, emociona e faz apaixonar. Com extrema sensibilidade, o filme é uma verdadeira catarse, uma entrega sem medidas do diretor, de sua equipe e, inclusive, do próprio público. Em cena, Clécio Wanderley (interpretado por Irandhir Santos) comanda a trupe teatral Chão de Estrelas, que, de modo libertário, faz do deboche e da anarquia suas principais armas de transgressão, indo de encontro à repressão e ao autoritarismo que marcaram os “anos de chumbo”.

Desbundados, provocativos, ousados e, acima de tudo, livres, os atores do grupo se travestem de múltiplas cores e de incontáveis sonhos e desejos de amor para contestar o conservadorismo da época. É neste cenário que surge o recruta Fininha (Jesuíta Barbosa), que, de cara, é fisgado por Clécio. A paixão entre os dois desabrocha instantaneamente, e Fininha – em contraponto ao ambiente autoritário e disciplinador  de um quartel – começa a se entregar ao amor por Clécio e ao novo mundo que se descortina diante dele.

O grupo Chão de Estrelas é uma verdadeira comunidade, onde todos vivem a mais absoluta experiência de se despir de pudores, fazendo uso da linguagem teatral como meio de expressão disso. Sexualidade, nudez, contracultura estão nas assertivas do grupo, que questiona padrões sociais e culturais a partir dos seus happenings alegres, envolventes, críticos e repletos de afeto, palavra que é fio-condutor do filme. Inspiração que vem do grupo de teatro Vivencial Diversiones, que agitou a Olinda setentista, e de forma apaixonante e apaixonada, Tatuagem representa o questionamento mais contundente – e mais delicado – sobre os valores humanos e os padrões que nos moldam, freando o desejo infinito de amar o mundo ao nosso redor. “Apesar de aparentar, Tatuagem está longe de ser um filme saudosista ou de época, mas é, sim, um filme contemporâneo, que quer discutir o que somos hoje, de uma construção do futuro delineada a partir do passado, sobre o que é que a gente fez e onde foram parar os nossos sonhos“, disse Hilton Lacerda, ao explicar essa identificação do público com o filme.

Uma das personagens mais magnéticas do filme é Paulete, interpretada por Rodrigo García, que, um dia antes da abertura do Janela, ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival do Rio, por sua atuação em Tatuagem. O sucesso do filme e o destaque que Paulete tem na história foram celebrados por García. “Foi um dos presentes mais lindos da minha vida ser convidado para esse filme e, ainda mais, fazer esse personagem. Esse reconhecimento que Tatuagem está tendo só vem confirmar que tudo o que vivemos valeu a pena e que nós estamos no caminho certo. A nossa convivência juntos, como uma verdadeira família, numa comunidade que foi criada especialmente para o filme, foi decisiva para esse sentimento de carinho que ele revela. Esse filme nos deu a chance de viver momentos intensos que, pra todos nós, com certeza, foram maravilhosos e se revelam igualmente incríveis para o público!“, destacou.

Para quem ainda não viu o filme, vai ter a chance de assistir a mais uma sessão, nesta terça (15/10), no Cinema da Fundação, a partir das 18h, com a presença do diretor Hilton Lacerda.

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