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Trupe recifense mergulha em pesquisa sobre a obra de Marco Camarotti

Estudo da Trupe Ensaia Aqui e Acolá conta com incentivo do Funcultura e servirá para o coletivo finalizar uma trilogia sobre a obra do autor pernambucano

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Oficinas fazem parte do projeto Pesquisa Cultural Aqui e Acolá no Rastro do Teatro Folclórico de Pernambuco

Desde sua gênese, em 2007, a Trupe Ensaia Aqui e Acolá vem investigando a obra do ator, encenador e doutor em teatro Marco Camarotti (in memoriam). Após uma série de trabalhos de pesquisa e de apresentarem os espetáculos Rififi no Picadeiro (2007) e O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas (2010), inspirados em livros do autor pernambucano, a trupe se debruça agora em estudar o livro Resistência e Voz: teatro do povo do Nordeste (2001), com foco no teatro folclórico. A proposta é construir, através de oficinas que se ajustem a este olhar, uma montagem que feche uma trilogia inspirada nas obras de Camarotti.

A iniciativa faz parte do projeto Pesquisa Cultural Aqui e Acolá no Rastro do Teatro Folclórico de Pernambuco, que conta com incentivo do Governo do Estado, por meio do Funcultura. O principal objetivo é mergulhar na ancestralidade ritual das manifestações folclóricas nordestinas, através da realização de três oficinas de capacitação. A primeira, realizada em outubro passado pelo professor Fábio Soares, foi sobre Cavalo Marinho. A segunda, intitulada O Ator Ritual, aconteceu na primeira semana de abril e foi ministrada por Ceronha Pontas. Já a Oficina de Mamulengo, ministrada por Marcondes Lima, acontecerá na segunda quinzena deste mês.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Com base na obra de Camarotti, a Trupe Ensaia Aqui e Acolá produziu e montou dois espetáculos teatrais, o ‘Rififi no Picadeiro’ (2007) e ‘O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas’ (2010)

Segundo Andrea Rosa, uma das integrantes da trupe e organizadora do projeto, o coletivo é formado por ex-alunos de Marco Camarotti que compartilhavam o desejo de pesquisar a obra do seu antigo mestre. “Tínhamos uma relação extraclasse. Maria Clara Camarotti, filha dele, por exemplo, estudava na minha turma e escreveu o texto do nosso primeiro espetáculo da trupe, o Rififi no Picadeiro (2007), inspirado no livro A linguagem no teatro infantil (1984). A partir desta pesquisa surgiu O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas (2010), baseado na obra O palco no picadeiro: na trilha do circo teatro (2004)”.

Marco Camarotti defende em seus escritos uma série de reflexões de grande importância para o entendimento do fazer teatral. Dentre a sua produção teórica, pode-se destacar a defesa ao teatro para infância e juventude, ao circo-teatro e ao teatro folclórico, considerados, segundo ele, marginalizados pela sociedade por não serem objeto de estudos mais extensos e aprofundados por parte dos pesquisadores e profissionais das artes cênicas.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Trupe Aqui Acolá é formada por ex-alunos do ator, encenador e doutor em teatro Marco Camarotti (in memoriam)

Para a trupe, faltava ainda construir uma montagem que dialogasse com a terceira obra de Camarotti, o livro Resistência e Voz: teatro do povo do Nordeste (2001), composto pela segunda parte da tese de doutorado do autor. Neste livro, Camarotti pontua a distinção, defendida por Roger D. Abrahams, entre o teatro folclórico, o popular e o sofisticado, bem como investiga as origens, as características e o sentido contemporâneo de quatro formas de teatro folclórico que ainda hoje são representadas no Nordeste brasileiro: o Bumba-meu-boi, a Chegança, o Pastoril e o Mamulengo.  “A nossa atual pesquisa tem foco no teatro folclórico. Por isso que tivemos a oficinas de Cavalo Marinho, teremos a de Mamulengo e agora passamos pela Ator Ritual. Porque nesta obra o Marco Camarotti toca muito nessa questão do folclore brasileiro”, revela Andrea Rosa.

Sobre a Oficina de Mamulengo, que será realizada na segunda quinzena deste mês, a atriz conta que as inscrições ainda não estão abertas, mas que os interessados podem acompanhar a página no Facebook da trupe e ficar por dentro das datas e horários. “Para participar, basta enviar uma carta de intenção para o e-mail trupeensaiaaquiacola@gmail.com e a gente faz a seleção. Temos o entendimento de que é muito importante poder dividir, trazer outras pessoas que não são pesquisadores da trupe pras aulas”, conta, revelando haver uma média de 25 alunos por oficina.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“A oficina passou também por um estudo teórico amparado pelas obras de Camarotti, de Artaud e no conceito de corpos sem órgãos”, explica a professora Cerona Pontas, que ministrou a oficina O Ator em Ritual

De acordo com a professora Ceronha Pontas, a oficina O Ator em Ritual, passou por um trabalho de preparação e treinamento do ator em relação ao que é um ritual. “Paralelo às oficinas, está acontecendo dentro da trupe a montagem do espetáculo Machuca, que é uma peça que passa pelo universo do ritual. Tem algumas cenas que são propositalmente construídas no modo ritualístico, contemplando esse modelo de teatro, e a gente aplicou na oficina muito do nosso treinamento em ensaio, partilhando com os participantes inclusive cenas construídas nos nossos experimentos. A oficina passou também por um estudo teórico amparado pelas obras de Camarotti, de Artaud e no conceito de corpos sem órgãos. Além disso, estudamos outros autores, como o Daniel Lins e o Teixeira Coelho, entre outros que foram citados por Camarotti e que nos amparam do ponto de vista teórico”.

O ator Daniel Alcântara, integrante da trupe, participou das duas últimas oficinas. “A gente pensa, por exemplo, que Cavalo Marinho está apenas relacionado à dança, mas há nessa manifestação muita relação também com os processos de rituais. Neste sentido, a oficina O Ator em Ritual foi muito interessante e ainda mais profunda, porque a gente não entende muito o que de fato é um ritual. A pesquisa de Camarotti caminha nessa ideia de dividir o que é teatro e o que é ritual, e a oficina nos fez entender que elementos do ritual o teatro bebe. É um processo de descoberta, tudo o que estamos passando. Seja no cavalo marinho ou numa oficina de ritual, isso mostra que a gente ainda tem olhos muito fechados pra manifestações que estão nas nossas raízes. É uma maneira, talvez, da gente se reconectar com nossa ancestralidade e pra um trabalho de ator isso tudo só fortalece nosso vínculo”, opina.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Para o coletivo, Marco Camarotti defendeu em seus escritos uma série de reflexões de grande importância para o entendimento do fazer teatral

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