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Através da cultura, Outras Palavras transforma ambiente escolar na Muribeca

Desde que foi iniciado, projeto da Secult-PE e Fundarpe já atingiu 358 escolas, levando escritores e atrações do nosso estado para dentro da escola

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Iniciativa conta com outros números relevantes: 8.352 jovens atendidos e 4.560 livros doados até aqui

Marcus Iglesias

Manter a disciplina dentro do ambiente escolar é, por vezes, uma tarefa complicada. Na agitação da idade, os alunos tendem a perder fácil a atenção caso o assunto não seja tão interessante. Por essa razão se faz cada vez mais necessário criar condições e estratégias para atrair este olhar, revolucionar a educação e fazer com que os jovens entendam a importância dela como uma ferramenta de formação cidadã e humana. Este é um dos papéis do Outras Palavras, iniciativa da Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe que atingiu, na última quinta-feira (21), a marca de 358 escolas públicas atendidas no estado. Desta vez, a instituição que recebeu o projeto foi a EREM Edson Moury Fernandes, na Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, com a presença do escritor Delmo Montenegro e do grupo de rap Aliados CP.

Durante os dois anos que o Outras Palavras circulou no território pernambucano, foi comum encontrar nas instituições de ensino estudantes ainda dispersos, sem entender muito bem o que iria acontecer naquela situação. “Sou professora e conheço de perto as dificuldades na rede pública de ensino. Vejo aqui muitos filhos da classe operária do nosso país, e esse projeto tem a proposta de dar oportunidade a nossa juventude, fazer com que ela possa conhecer patrimônios da cultura popular do estado e ter acesso às publicações da Secretaria de Cultura e Fundarpe, que tratam diretamente dos nossos bens culturais”, disse Antonieta Trindade, vice-presidente da Fundarpe, destacando outros números que a iniciativa já alcançou: 8.352 jovens atendidos e 4.560 livros doados até aqui.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Nós queremos garantir que vocês concluam o Ensino Médio tendo acesso à universidade e ao emprego, assim como os filhos daqueles que têm a riqueza no Brasil”, discursou Antonieta Trindade aos jovens presentes

“Oportunidade na vida é assim. A gente pega e valoriza, ou deixa passar. Nós queremos garantir que vocês concluam o Ensino Médio tendo acesso à universidade e ao emprego, assim como os filhos daqueles que têm a riqueza no Brasil. Que vocês compreendam que hoje nós precisamos de uma juventude que pense, e não que apenas reproduza aquilo que está na mídia ou cultura de massa. A escola precisa ser um lugar que ensine a gente a pensar e exercer nosso senso crítico”, completou Antonieta Trindade, atraindo a curiosidade dos presentes. A turma, antes agitada, agora prestava mais atenção no que estava por vir.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Delmo Montenegro é vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura, com o livro Recife No Hay, que também foi finalista, na categoria Poesia, da 56ª edição do Prêmio Jabuti

Como de praxe, antes da conversa com os escritores, o Outras Palavras abre espaço para apresentação de algum grupo artístico da escola. Na Muribeca, alguns alunos apresentaram um trabalho feito para o Dia da Consciência Negra, quando montaram um grupo percussivo, ainda sem nome, composto por sete integrantes, que tocavam em instrumentos feitos com material reciclado. Na sequência, o mediador Marcos Lopes iniciou a conversa com o escritor Delmo Montenegro, vencedor do 1º Prêmio Pernambuco de Literatura, com o livro Recife No Hay – que também foi finalista, na categoria Poesia, da 56ª edição do Prêmio Jabuti. Poeta, ensaísta e tradutor, Delmo também publicou os livros de poemas Os Jogadores de Cartas (2003) e Ciao Cadáver (2005) e organizou, em parceria com o poeta Pietro Wagner, os dois volumes da antologia Invenção Recife (2004), que mapeou parte da nova cena poética de Pernambuco.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Tem que correr atrás. A história é não se acanhar, achar que você é menos que ninguém, isso não existe”, opinou o autor de Recife No Hay quando perguntando sobre o que faz pra divulgar seu trabalho

Nascido e criado no bairro de Afogados, Delmo Montenegro contou aos estudantes que desde criança gostava de frequentar bibliotecas. “Talvez minha paixão por literatura tenha começado desse interesse. Às vezes a gente não tem muitas oportunidades na vida, mas a gente se agarra nas que consegue, do jeito que pode. As coisas não foram fáceis pra mim, mas nem por isso eu fico usando isso como justificativa. Pelo contrário, só me deu força a encarar o que eu tinha que fazer”, disse aos jovens. “A gente vive num país que não dá tanto valor à arte como em outros lugares. Mas a arte me levou a outros países e estados”, concluiu.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Alunos interagiram durante toda a atividade, com perguntas e observações sobre o fazer literário

O estudante Mateus Soares, do segundo ano do Ensino Médio, quis saber de Delmo quais inspirações ele busca para escrever um bom livro e pediu um conselho para quem queira começar a escrever. “Quando a gente escreve, faz música ou constrói teatro, a gente sempre vai buscar referências em outros nomes. É importante que a gente tente ir atrás disso, mas no meu caso específico sempre tive a oportunidade de estar lendo muito. As minhas inspirações na poesia não necessariamente tem relação com livros. Claro que os autores que contam nossa história, como Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Gilberto Freyre, são pessoas que pensaram a realidade brasileira e seu material deve ser estudado. Mas eu sou um cara que passei muito tempo da minha vida ouvindo música e jogo de videogame. Eu passava mais tempo na frente de um Playstation do que propriamente na frente de um livro. Por outro lado, se você ler meus poemas vocês vão encontrar ligações a outros escritores, como Augusto dos Anjos, por exemplo, uma pessoa de quem bebo muito da fonte”.

Delmo respondeu também a uma pergunta do estudante Breno da Silva, do 2º ano, que quis saber quais plataformas o autor usa para divulgar seu trabalho. “Hoje você grava sua música, grava seu texto, recita, coloca numa página no Facebook ou Instagram, e faz as coisas circularem. A articulação atualmente é muito mais prática para quem lida com a arte. De repente teu trabalho circula, pessoas de outros estados e países passam a ter acesso. Tem que correr atrás. A história é não se acanhar, achar que você é menos que ninguém, isso não existe”, opinou o autor de Recife No Hay.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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A Aliados CP é formada por Mano Gão (MC), Fumaça (MC), AF (MC) e DJ Paulo V.

Originado em Casa Amarela, o Aliados CP fechou a programação na instiga do rap. O grupo é formado por Mano Gão (MC), Fumaça (MC), AF (MC) e DJ Paulo V., e lançou seu primeiro trabalho independente no final de 2005, intitulado Enxergamos uma luz. Em 2012, o grupo lançou seu segundo álbum, Vivendo o presente sem esquecer o passado, que conta com participações de Zé Brown e Jorge Poeta. A proposta da banda durante o Outras Palavras foi falar um pouco do trabalho deles e da cena hip hop no Recife. “A gente vem destrinchando a questão do rap, transformando num som mais regional, ligando ao repente e poesia improvisada”, explica o MC Gão. “Procuramos sempre trabalhar com qualidade. Não é porque somos pobres, desfavorecidos na sociedade, que vamos trazer um produto de má qualidade pro nosso povo. Os nossos pais não aceitam nota 8 ou 9, eles querem 10. É assim que somos”, pontuou.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Grupo de Casa Amarela conversou com os jovens sobre como é a cena rap do Recife, além de destrinchar detalhes sobre sua história

Durante a conversa com a banda, o aluno Breno da Silva pediu novamente a fala e disse que gostava de escrever e cantar rap romântico, e que algumas pessoas o haviam desencorajado a correr atrás. “Queria saber como vocês lidaram com essa situação?”, questionou o jovem. “Dê graças a Deus que você tem voz, porque muita gente queria ter e não tem”, aconselhou o MC Af.  “No começo da banda foi difícil e é até hoje. Quando eu comecei a escrever letras com quinze anos eu mostrava ao meu irmão. Eu tinha que colocar aquilo pra fora e precisava mostrar a alguém. Mas vejam como são as coisas. Depois eu descobri que ele chegava para o pessoal na rua e dizia que achava que eu estava enlouquecendo, que eu estava com um papo de doido que tinha virado músico. Mas ele nunca me desencorajou diretamente. O que aconteceu depois de um tempo foi que uns amigos montaram uma banda de rock, na Bomba do Hemetério, para participar de um festival, mas eles não tinham música letrada. Ai me chamaram e disseram que estavam sabendo que eu havia escrito algumas canções e que queriam ouvir. Resultado: depois de ouvirem, eu acabei entrando pra banda e passei três anos nela, um grupo bem legal de Casa Amarela que se chama Gravidade Zero. E foi através do baixista que eu conheci Gão. Pra você ver como as coisas estão conectadas. Se eu tivesse desistido ali atrás, eu não estaria conversando com você agora. Sempre vá aperfeiçoar. Se você tiver que ser alguém, seja o melhor, sem desmerecer os outros”.

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