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Centésima edição do Outras Palavras é celebrada durante feira literária em Arcoverde

Na última sexta-feira (30/11), o escritor Urariano Mota e a atriz Hilda Torres conversaram com estudantes de escolas públicas da cidade

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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O escritor Urariano Mora, como forma de cativar a garotada, tratou logo de sentar ao lado das crianças para interagir e ganhá-los com a simpatia

Por Marcus Iglesias

A centésima edição do Outras Palavras ganhou tons de celebração com a participação do projeto na Feira Literária do Sertão (Felis), realizada em Arcoverde durante o final de semana passado. Na última sexta-feira (30/11), o escritor Urariano Mota, autor do livro Soledad no Recife, e a atriz Hilda Torres, com o espetáculo Soledad: a terra é fogo sobre nossos pés, conversaram com estudantes de escolas públicas da cidade sobre Soledad Barret, militante assassinada durante a ditadura militar no Brasil.

Lucila Gomes, uma das integrantes da equipe do Outras Palavras, desde 2015, conta que a primeira edição foi realizada no Teatro Apolo, no Bairro do Recife, com a presença de quatro escritores, da cirandeira Lia de Itamaracá (representando os Patrimônios Vivos), representantes da Secretaria de Educação estadual, e mais de 150 profissionais da área da educação, entre diretores de escolas, professores e gestores das Gerências Regional de Educação (GRE).

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O Outras Palavras atingiu mais de 590 escolas, 17 mil estudantes e entregou mais de 6100 livros às bibliotecas por onde passou.

“Naquela ocasião, eu não tinha ideia se teríamos a segunda edição, mas a confiança de que nossa proposta seria bem aceita por quem faz a educação pública acontecer. Hoje estamos na centésima edição, recebendo convites de várias escolas e festivais pelo estado, e ainda teremos mais até o final do ano”, comemora Lucila.

No próximo dia 5 de dezembro, está agendada uma ação da Secult-PE e Fundarpe na EREM Capitão Luiz Reis, no Alto da Bondade, em Olinda. Já no dia 12 deste mês, haverá uma edição de avaliação dos três anos do Outras Palavras no auditório do Centro de Artesanato de Pernambuco, no Marco Zero, com vários convidados e artistas que participaram da iniciativa. Dentre outros números, até aqui o projeto atingiu mais de 590 escolas, 17 mil estudantes e entregou mais de 6100 livros às bibliotecas por onde passou.

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Apesar de tímidos, as crianças não desgrudavam os olhos da conversa entre o Urariano e Hilda

Outras Palavras em Arcoverde - Quando Urariano Mota e a atriz Hilda Torres chegaram à Praça Virgínia Guedes esperavam encontrar um público mais adolescente para lhes ouvir. Afinal, eles iam falar sobre assuntos duros como a ditadura militar e repressão policial no Brasil, fazendo uma conexão com a história de Soledad Barret. Mas ao observarem o ambiente, perceberam que precisariam se adaptar de improviso diante da plateia que se depararam. É que as escolas envolvidas tinham levado muitas crianças – e apenas alguns adolescentes – para a ação.

Os dois conversaram nos bastidores e combinaram como fariam a nova apresentação. Enquanto Hilda se preparava, Urariano, como forma de cativar a garotada, tratou logo de sentar ao lado das crianças para interagir e ganhá-los com a simpatia. Atrair a atenção deles, primeiro, para depois entrar no assunto que tinha ido falar. O escritor é um bom conhecedor deste perfil de plateia porque foi aluno da escola pública. A Escola Professor Alfredo Freyre, no bairro de Água Fria, que recebeu uma edição do Outras Palavras com a participação do seu antigo aluno no ano passado.

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“Tenho o sonho de que o mundo seja melhor para todos e todas”, disse uma menina que estava na plateia

Apesar de tímidas, as crianças não desgrudavam os olhos da conversa entre o Urariano e Hilda, que intercalaram, respectivamente, com declarações sobre o que viveram durante a ditadura militar e com poesias de autoria de Soledad Barret. Quando Hilda Torres perguntou se gostavam de poesia, vários levantaram as mãos. Teve até uma aluna, chamada Denise, de 12 anos, que se declarou poetiza, mas ficou com vergonha de dizer mais do que isso. A atriz pediu então para recitar a última poesia escrita por Soledad.

“Mãe, me entristece te ver assim / o olhar quebrado dos teus olhos azul céu / em silêncio implorando que eu não parta / Mãe, não sofras se não volto / me encontrarás em cada moça do povo / deste povo, daquele, daquele outro / do mais próximo, do mais longínquo / talvez cruze os mares, as montanhas / os cárceres, os céus / mas, Mãe, eu te asseguro / que, sim, me encontrarás! / no olhar de uma criança feliz / de um jovem que estuda / de um camponês em sua terra / de um operário em sua fábrica / do traidor na forca / do guerrilheiro em seu posto / sempre, sempre me encontrarás! / Mãe, não fiques triste / tua filha te quer”, declamou a personagem Soledad Barret, interpretada por Hilda.

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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“Sonhar não tem idade. Expressem essa busca de forma que faça você e as pessoas felizes”, sugeriu Hilda Torres

Outro momento extraído daquelas crianças foi quando a atriz falou dos sonhos de Soledad Barret, um mundo sem injustiças e uma América Latina de povos irmãos, e perguntou se alguém ali tinha um sonho também. “Que o mundo seja melhor para todos e todas”, disse uma menina. “Que a gente tenha sempre vez e voz”, disse outro garoto. “Sonhar não tem idade. Expressem essa busca de forma que faça você e as pessoas felizes”, sugeriu Hilda, provocando sorrisos na garotada.

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Além da história de Soledad Barret, o autor aproveitou para falar sobre o lançamento do seu livro ‘A mais longa duração da juventude’

“Soledad era uma sonhadora e apaixonada pelo que fazia. Ao mesmo tempo, uma mulher apaixonante. Ela inspirou o poeta uruguaio Mario Benedetti a escrever uma poesia sobre sua vida. Esse texto foi publicado no dia que Mario soube que ela havia sido assassinada”, disse, com pesar, Urariano. Além da história de Soledad Barret, o autor aproveitou para falar sobre o lançamento do seu livro A mais longa duração da juventude, que aconteceu durante a Felis no dia seguinte, no sábado (1º/12).

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A professora Eliane Rodrigues, responsável por uma das escolas participantes, ressaltou a importância de conversar sobre a história do Brasil dentro das escolas

A professora Eliane Rodrigues, responsável por uma das escolas participantes, brincou com a timidez da criançada e ressaltou a importância de tratar esse assunto dentro das escolas. “Eu sei que eles estavam tímidos, mas eles não são assim caladinhos. Porém, nas na sala de aula, vamos continuar essa conversa. Eles sabem um pouquinho da história e que são importantes para dar continuidade a essa luta, independente de qualquer coisa, e, sobretudo, agora diante do momento que o Brasil vive”.

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