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Evaldo Costa e Silvério Pessoa inspiram estudantes no Outras Palavras

A Escola Heróis da Restauração, que fica no bairro de Areias, no Recife, aconteceu na manhã desta sexta-feira (18/05) e aproximou os alunos dos artistas que já viveram na região.

Jan Ribeiro

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Outras Palavras contou com edição na Escola Heróis da Restauração, no bairro de Areias, no Recife.

Por Camila Estephania

Uma oportunidade “para atar as duas pontas da vida”. Assim foi definido o Outras Palavras, ação da Secult-PE/Fundarpe, desta sexta-feira (18), que aconteceu na Escola Heróis da Restauração, no bairro de Areias, pelo escritor e jornalista Evaldo Costa ao parafrasear Machado de Assis em “Dom Casmurro”. Ao lado de Silvério Pessoa, o autor foi um dos convidados da edição que o levou de volta para a escola em que cursou o ensino infantil e fundamental para conversar com alunos da instituição sobre literatura e música em uma manhã pontuada pela emoção.

A infância e a adolescência que vivi aqui foram experiências que nem sempre foram das mais felizes, porque vim de uma família muito pobre. Quando a gente junta isso ao que vivo hoje, a gente dá um sentido novo e  compreende as dificuldades. Quando vejo que essa linha de crescimento tem uma continuidade, isso é o que me emociona”, disse o escritor, que lançou livros como “Cânticos do Cariri” e “Palavra Acesa” e trabalha como jornalista desde 1979, já tendo atuado em vários veículos do País, entre eles o Jornal do Commercio, com o qual ganhou um prêmio Esso.

Jan Ribeiro

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A vice-presidente da Fundarpe e coordenadora do projeto, Antonieta Trindade, entrega kit para a gestora da Escola, Sylvia Muniz.

Após a exibição do curta-metragem “A Hora da Saída”, produzido por alunos da Escola Santa Paula Frassinetti, o evento foi aberto pela vice-presidente da Fundarpe e coordenadora do projeto, Antonieta Trindade. “O Outras Palavras tem como objetivo trazer para vocês o que há de melhor na literatura e na música para que vocês possam conversar com pessoas como Evaldo Costa, que tem uma ampla trajetória, e também Silvério. Espero que aproveitem muito, porque a arte permite que vocês possam sonhar e o sonho é o que possibilita vocês de transformar a realidade”, resumiu ela.

Confirmando a fala de Antonieta, Evaldo lembrou da infância marcada pela leitura proporcionada pelos muitos livros que pertenciam às irmãs, que eram professoras leigas (sem formação superior). “Escolhi fazer jornalismo porque eu adorava ler. Foi pela paixão pela leitura, pelos esportes e pela política, por acreditar que esse exercício era um instrumento de manifestação. Na época, só a Universidade Católica tinha o curso e minha família não podia pagar, tive que aguardar até criarem o crédito educativo para financiar meus estudos”, comentou ele, em resposta a uma aluna que perguntou quais dificuldades já havia enfrentado na profissão. “Devo a minha formação estar aqui hoje”, completou ele.

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O jornalista e escritor Evaldo Costa falou como a política inspira seus textos.

Através do trabalho como jornalista, o autor estreitou sua relação com a política, que influencia diretamente na sua produção literária. “Minha inspiração para escrever vem da luta, porque não me conformo com as coisas do jeito que elas são. Acho que fazer a informação chegar às pessoas é fundamental e é uma coisa que eu, no lugar onde estou, posso fazer. Eu tive oportunidade de angariar informações, tenho uma vida confortável, mas eu vejo o mundo, vejo as pessoas e me vejo nelas. É importante que vocês saibam da responsabilidade que temos com as pessoas que vivem em nosso entorno. Toda vida é política”, esclareceu ele, que já assumiu o cargo de Secretário Estadual de Comunicação nos Governos Miguel Arraes e Eduardo Campos.

Entre seus títulos, que buscam provocar reflexões no leitor sobre o cenário político nacional, está o “Memorial do dia seguinte”, lançado neste ano e escrito em parceria com Débora Cavalcantes e Hildo Leal da Rosa. “Falou-se muita coisa sobre a Revolução de 1817, mas eu sentia que as pessoas não sabiam o que foi isso. Foi o primeiro movimento independentista brasileiro, que reuniu uma classe intelectual aqui em Pernambuco que disse que não fazia sentido o Brasil continuar sendo colônia de Portugal. Aconteceu apenas 30 anos depois da Revolução Francesa, então, foi um movimento que tornava o Brasil contemporâneo, mas foi violentamente sufocado”, observou ele, sobre a proposta de avanço da Revolução.

Jan Ribeiro

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Os alunos ouviram atentamente aos convidados e tiraram dúvidas sobre seus trabalhos.

Fui jornalista também por conta do ativismo política, gostava de ler jornais de imprensa alternativa, eu achava que fazer jornalismo era uma forma de combater a ditadura. Um dia, tive a oportunidade de ser professor de jornalistas e lembrar qual é o papel da profissão, porque são carreiras que as pessoas abraçam como projeto de vida e não para ficarem ricas”, comentou Evaldo, ao responder sobre a experiência como professor do curso de Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco, e defender que a afinidade é primordial na hora de escolher a profissão.

Na sequência, o músico Silvério Pessoa deu continuidade ao debate e conversou com os alunos sobre a importância de ser fiel a sua identidade ao longo da vida. “Chico Science disse uma frase em uma entrevista que mudou a minha vida: ‘faça o que você é que dá certo’. Tenho amigas psicólogas que estão com os consultórios lotados de jovens que querem fazer uma coisa, mas os pais os pressionam a fazer outra. Isso gera muita frustração. Parece besteira, mas é difícil ser o que você é, porque sempre estão querendo lhe atribuir um modelo. Minha mensagem para vocês é que não deixem de ser o que vocês são”, aconselhou ele que, como parte de uma família de músicos, sempre contou com o apoio da mãe na carreira artística, mas teve que batalhar bastante para encontrar espaço no mercado fonográfico.

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Silverio Pessoa destacou a importância de ser fiel a própria identidade para seguir uma carreira feliz.

A rádio toca tudo que é mediocridade goela abaixo, menos a produção local. Às vezes, me pergunto como vivo de música morando em Pernambuco, que não toca os cantores daqui na rádio e na televisão. Mas trabalho o ano inteiro como músico e professor e pago minhas contas com a música. Não tenho trabalho fixo e isso, às vezes, me inquieta, mas nunca deixei que a minha música fosse um decalque do que o mercado espera”, disse ele, ao responder para uma aluna que uma de suas composições mais significativas era “Nas Terras da Gente”, que reverencia Pernambuco e sua cultura como são.

O uso de referências genuinamente nordestinas, como o coco, o forró e o frevo foi também uma escolha ligada a sua identidade. “Minha avó era cantora de rádio e minha mãe dava aula de acordeon, quando eu era pequeno se fazia saraus lá em casa e eu vivia ali em contato com a música. Mas foi aqui no Barro que aprendi a tocar violão com os amigos que viviam pela rua. Depois me especializei, mais maduro percebi que a arte forma a tua identidade e é por isso que faço esse tipo de música. É o que eu sou”, explicou Silvério, ao responder um estudante sobre o que o influenciou a seguir a carreira, iniciada com a banda Cascabulho.

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O músico também falou da sua experiência como educador.

Antes de exibir o seu primeiro clipe já como artista solo, intitulado “Carreiro Novo”, gravado no Centro do Recife, em cima do teto de uma farmácia, inspirado pelo vídeo de “Get Back”, dos Beatles, Silvério comentou: “a minha alma se reencontra muito no interior ou na periferia, por isso, eu queria um clipe que tivesse essa interação com o povo”, justificou ele, que nasceu em Carpina e foi criado no Bairro do Barro. Esse aspecto da sua biografia também lhe trouxe uma preocupação constante com a pobreza que lhe despertou o interesse para estudar pedagogia na UFPE antes mesmo de atuar como músico e apresentar sua música no mundo todo.

Eu já dei aula de formação de educadores em um assentamento do Movimento Sem Terra para filhas de assentados e eu aprendi muito com elas pela força e perseverança. De vez em quando ainda me ligam falando de conquistas profissionais e me emociono muito. A gente fazia vaquinhas para alugar um ônibus e ir ao cinema assistir filmes  como ‘A Sociedade dos Poetas Mortos’, ‘A Vida de Freud’, porque eu acredito em uma escola aberta e isso marcou elas”, lembrou. “Quando aceitei esse convite de vir para cá mesmo com uma agenda tão corrida foi porque eu faço esse trabalho de formação há 20 anos e muitas vezes nem se fala disso na mídia. Eu venho porque não há uma mudança e nenhuma revolução que não seja através do professor e da escola e vocês vão multiplicar uma nova sociedade”, refletiu ele, que ainda atua na área e faz doutorado em religiosidade contemporânea.

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Os alunos tiveram uma manhã de novos aprendizados

Se você tirar a religiosidade da cultura popular vai ficar faltando espaço. O maracatu é religioso, o bumba-meu-boi é religioso, o reisado é religioso, dentre outros. Já me perguntaram qual é a minha religião e digo que é o bem, mas os cristianismo foi muito forte na minha formação, minha mãe era muito devota”, disse ele, ao responder Evaldo Costa, sobre o interesse pelo tema, cujos símbolos o músico também usa pelo corpo através de tatuagens e adereços. “Esse projeto deveria ser perene e fazer parte do calendário oficial das escolas. Um projeto que promove essa integração entre a escola, a comunidade e os agentes que fazem cultura soma. É fundamental quando a escola sai de suas paredes e encontra esse diálogo e, aqui nessa região onde vivi, foi muito emocionante”, concluiu Silvério, sobre a experiência.

Entre os alunos que fizeram fila para cumprimentar os artistas, Henric Gabriel, de 16 anos, aprovou a manhã de aprendizado. “Em outro espaço da vida, eu não poderia ter conhecido os dois. Agora quero saber mais sobre os livros de Evaldo e as músicas de Silvério”, adiantou ele. A curiosidade despertada pelo debate entre os alunos, foi prevista pela gestora da Escola, Sylvia Muniz.  “Fico muito feliz que a Secult e a Fundarpe tragam esse projeto para cá, porque essa é uma das coisas inesquecíveis que os alunos devem guardar na caixinha da vida e repassar para os filhos deles”, apostou ela, sobre o caráter transformador da vivência.

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