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J. Michiles e Urariano Mota somam cultura à educação no Outras Palavras

Outras Palavras da última terça-feira (16) aconteceu no Compaz Eduardo Campos, onde os artistas convidados conversaram com alunos da Escola Gabriela Mistral. O projeto é realizado pela Secult-PE/Fundarpe.

Elimar Caranguejo

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O escritor Urariano Mota e o compositor J. Michiles conversaram com alunos da Escola Gabriela Mistral

Por Camila Estephania

Na manhã da última terça-feira (16), o encontro entre o escritor Urariano Mota e o compositor J. Michiles com os alunos do sexto ano da Escola Gabriela Mistral, no Compaz Eduardo Campos, veio para aproximar os adolescentes dos seus sonhos.  A ação foi mais uma edição do projeto Outras Palavras, realizado pela Secult-PE/Fundarpe, com a proposta de acrescentar mais arte à educação dos jovens de Pernambuco através de um bate-papo com convidados experientes da nossa cultura.

“Desde 2015, a Secult executa esse projeto dirigido aos alunos das escolas públicas com o objetivo de levar cultura e trazer aspectos humanísticos e de cidadania que também é importante para a formação de vocês”, explicou o vice presidente da Fundarpe, Guido Bianchi, ao abrir o evento lembrando que o projeto já alcançou mais de 17 mil estudantes, atingindo 584 escolas, nas quais foram distribuídos mais de 6 mil livros.

Elimar Caranguejo

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O vice presidente da Fundarpe, Guido Bianchi, doou livros ao Compaz e destacou a importância do projeto para a formação de novos cidadãos.

Ex-colegas de classe de Richardson Barbosa, que ficou nacionalmente conhecido como MC Bruninho pela música “Jogo do Amor”, os alunos da Escola Gabriela Mistral participaram do projeto com uma curiosidade especial sobre os caminhos possíveis para se dedicar à cultura. A oportunidade de conviver tão de perto com artistas de outros segmentos, como Urariano e J. Michiles, manteve os adolescentes animados e mais confiantes de que a literatura e a música também podem ser universos acessíveis às suas realidades.

“No nosso colégio, muitos meninos estão querendo cantar desde que viram o amigo fazer sucesso. Esse evento é importante para que eles conheçam nomes relevantes da nossa cultura e percebam que não é fácil, mas é possível se dedicando aos estudos também”, comentou a professora de português da turma, Andreza Carvalho, destacando a importância dos jovens descobrirem a importância da criação artística para além da fama.

Criador de músicas que já viraram hinos do Carnaval do Estado, como “Bom Demais”, “Diabo Louro” e “Me Segura Que Senão Eu Caio”, conhecidas na voz de Alceu Valença, J. Michiles serviu como exemplo do papel fundamental do compositor para o sucesso de um artista. “O autor fica sempre na moita, né? As pessoas conhecem os intérpretes, mas não conhecem o autor. Uma vez minha mulher foi ao Centro do Recife e viu uma troça passar tocando ‘Diabo Louro’. Uma vendedora ambulante começou a cantar toda animada e disse: ‘pense na miséria que essa galega pintou para Alceu fazer essa música!’”, lembrou ele, cujas letras também já foram cantadas por nomes como Elba Ramalho, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Almir Rouce, André Rio e Claudionor Germano.

Elimar Caranguejo

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J. Michiles defendeu a importância dos estudos para se dedicar às artes.

Ao ser questionado sobre quais caminhos seriam interessantes para revelar novos nomes da nossa cultura, o compositor relembrou de competições como o festival Uma Canção Para o Recife, que lhe trouxe reconhecimento já em 1966. Na ocasião, o artista venceu concorrentes como Luís Bandeira, Ademar Paiva, Capiba e Ariano Suassuna, com a música “Recife Manhã de Sol” . “Tem menino aqui que tem inclinação para escrever, mas não tem oportunidade. Acho que festivais e concursos musicais como os que tinham poderiam ser uma oportunidade, sim”, defendeu ele, que começou a compor aos 19 anos e considera que os estudos foram essenciais para o exercício.

“Quando eu era menino, ficava me perguntando como o músico tocava lendo um monte de garrancho. Depois fui entender que as partituras significam um som. É uma linguagem universal e isso é lindo. Por isso que depois fui ensinar elementos musicais, desenho, entre outras coisas. Sem estudo, a gente não faz nada na vida. A idade que vocês estão é a idade de aprender para se tornarem grandes pessoas”, alertou Michiles, que já foi professor da rede pública.

Elimar Caranguejo

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Urariano Mota falou do papel essencial da literatura para enfrentar a realidade.

Urariano Mota, por sua vez, destacou a leitura como ferramenta essencial na formação de cidadãos mais esclarecidos sobre o seu contexto. “Os professores cometem um grande erro quando obrigam os alunos à leitura. É preciso despertar nos alunos o gosto e fascínio pela leitura e não é pra ser só escritor, não. É importante pra qualquer coisa e existem vários tipos de livros. Acho que é preciso chamar os alunos para lerem sobre seus problemas concretos e não sobre ‘Lucíola’, de José de Alencar. É papel do professor apresentar livros que tratem de problemas que o aluno vivencia”, opinou ele, que indicou autores como Lima Barreto, Cruz e Souza, Machado de Assis, Manuel Bandeira, dentre outros.

Autor de livros como “Dicionário Amoroso do Recife” e “A mais longa duração da juventude”, Urariano defendeu a literatura como um meio de combater mazelas da nossa sociedade, como o preconceito. “Há pouco tempo, o homem podia matar a mulher por crime de honra e ainda vivemos em um momento em que uma professora negra foi chamada de ‘macaca’ lá em São Paulo. Acho que que literatura mostra como, na verdade, somos todos muito parecidos e temos tudo isso muito perto”, observou ele.

Elimar Caranguejo

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Músicos do projeto Anjo Luz tocaram frevos de J. Michiles, dentre outros sucessos do ritmo.

Ao final da aula, os alunos ainda tiveram uma apresentação surpresa do projeto de música Anjo Luz, que ensina crianças a partir de 6 anos a tocar metais todos os sábados no Compaz. O grupo tocou sucesso de J. Michiles, entre outros clássicos do Carnaval, como “Cabelo de Fogo” e “Madeira Que Cupim Não Rói”. Logo após, os estudantes fizeram uma visita guiada à biblioteca da instituição acompanhados pelos artistas convidados.

“Trabalhamos com o modelo de biblioteca viva, em que ela se assemelha mais a um centro cultural. A gente oferece aqui permanentemente atividades onde as crianças podem participar através de inscrição. Tem a ‘Hora do Conto’, ‘Faça Você Mesmo’, ‘Hora da Palavra’, ‘Pintando o Set’, dentre outras. A ideia é que a biblioteca funcione como uma ferramenta de prevenção à violência explorando o turno extra escola das crianças”, listou Débora Escheverria, que gerencia a rede de Bibliotecas Pela Paz do Recife.

Pela primeira vez como anfitriã do projeto Outras Palavras, a diretora geral do Compaz Eduardo Campos, Mayse Cavalcanti, não só aprovou a experiência como torceu pela volta de outras edições ao endereço. “Foi muito interessante a gente receber esse projeto por dois motivos: nossa biblioteca, que tem esse compromisso com a educação e a cultura; e por receber ícones. Teve tudo a ver, porque temos também duas orquestras que ensaiam aqui e foi uma excelente oportunidade para conhecerem esses artistas de perto”, avaliou ela, que acredita que o episódio servirá de incentivo para jovens se aproximarem ainda mais da cultura através do Compaz.

Elimar Caranguejo

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Os alunos e os artistas convidados também fizeram uma visita à biblioteca do Compaz Eduardo Campos.

“Para mim, o Outras Palavras é o que há de mais avançado no país na área de educação e da literatura. Esse projeto faz essa junção e dá um grau de relevância à literatura muito importante. E a experiência aqui no Compaz acabou sendo também uma ótima descoberta de uma boa estrutura que qualquer morador pode usar”, frisou Urariano Mota.

J. Michiles também elogiou atividade por apostar no sentimento de pertencimento dos jovens em relação ao Estado. “O projeto Outras Palavras vem despertar em nossos jovens o sentimento de pernambucanidade e o orgulho de saber que somos donos de uma diversidade musical e cultural que nenhuma outra terra tem. É frevo, maracatu, caboclinho, ciranda, coco de roda, mamuglengo, papangu, xote, xaxado e baião. Tudo isso é Pernambuco, do litoral ao sertão”, concluiu ele.

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