Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Fundarpe

Jovens em conflito com a lei vivenciam arte pernambucana

Edição do "Outras Palavras" contou com a participação do escritor Mário Filipe Cavalcanti e do músico Cannibal

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Jovens, que nunca haviam lido um livro inteiro na vida, ganharam publicações vencedoras das edições do Prêmio Pernambuco de Literatura

Por Marcus Iglesias

O previsto para a tarde da última terça-feira (19) era mais uma edição do Outras Palavras com um debate rico e direto com estudantes da rede pública sobre o assunto literatura, numa proposta de desmistificar o tema e aproximar leitores de escritores, além de uma apresentação cultural de uma Patrimônio Vivo ou banda pernambucana. Colocar os jovens em contato direto com a arte, desta vez com a presença do autor Mário Filipe Cavalcanti, vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura com Caninos Amarelados, e do músico Cannibal, cantor e baixista da Devotos, banda de rock com 30 anos de estrada e muita história pra contar.

Mas, como disse Mário Filipe Cavalcanti num depoimento após a atividade, “naquele dia, a coisa era incerta: o projeto iria para dentro de uma das salas de um dos CASE da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase), onde ficam abrigados adolescentes em conflito com a lei”. Desta vez, para o CASE Jaboatão Velho, que abriga quase 60 garotos, segundo a coordenação do local, com idades entre 12 e 16 anos, a de menor faixa etária do estado.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

De acordo com a coordenação do CASE Jaboatão Velho, a casa abriga quase 60 garotos, com idades entre 12 e 16 anos

“Aqui temos a parceria com a Escola Frei Jaboatão, que nos atende majoritariamente com professores voltados ao Ensino Fundamental. Mas caso algum adolescente entre no Ensino Médio, a instituição de ensino nos oferece um quadro de professores para atender esta demanda. Caso o jovem ingresse na universidade, também recebe a liberação para estudar o curso escolhido, dependendo do seu comportamento dentro do CASE”, explicou Normando de Albuquerque, coordenador do Eixo Profissionalização da Funase, que contou também haver naquela escola uma oficina de artes plásticas voltada para os jovens.

Após apresentação de uma minibiografia de Mário Filipe Cavalcanti, o jornalista e mediador do bate-papo Marcos Henrique Lopes, perguntou: “Alguém aqui na plateia já havia visto de perto um escritor, autor de livros?”. Ninguém. Perguntou ainda se alguém já haviam lido algum livro inteiro. Ninguém.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

“Alguém aqui na plateia já havia visto de perto um escritor, autor de livros?”, perguntou o mediador Marcos Henrique Lopes, recebendo uma negativa unânime dos jovens presentes

“E eu me vi ali, escritor, diante de quarenta adolescentes que nunca viram um livro na vida. Sim, que nunca tocaram em um livro, que nunca cheiraram um livro, que nunca souberam o que era ler. O choque foi automático”, revelou Mário Filipe no depoimento.

Por várias vezes os jovens foram provocados a interagir. Um teve a coragem de pedir a fala e, direcionado a Mário Filipe Cavalcanti, perguntar como é o processo de criar uma história e escrever um livro. “Eu pego uma narrativa que vi ou ouvi por ai e vou mentir para que ela fique um pouco maior. Toda história é uma mistura de verdade e mentira, porque alguns detalhes precisam ser ressaltados e valorizados para dar o drama. Mas isso faz parte da condição humana. Afinal, quem não mente nessa vida?”, respondeu o escritor.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Mário Filipe Cavalcanti insistiu na importância da leitura para a formação cidadã

Como de praxe, quando um aluno faz uma pergunta durante o Outras Palavras, ele ganha um livro. Neste caso, o jovem recebeu a publicação Todas as coisas sem nome, de Walther Moreira Santos.

“Doamos alguns livros para o lugar, um deles foi de presente para um daqueles rapazes. Um dentre eles que teve a coragem de perguntar algo. Será Natal daqui a pouco, e quantas pessoas não ganharão seus presentes? E o que tínhamos para eles? O livro é uma porta aberta. E receber o livro fez brilhar algo naqueles olhos tão acostumados à violência”, indagou Mário Filipe Cavalcanti depois de processar o que aconteceu naquela tarde. A resposta para a solução do problema veio, para ele, como um estalo.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Um dos jovens quis saber de Mário Filipe Cavalcanti como ele faz pra escrever um livro e contar uma boa história

“O que precisamos? De livros. Precisamos que esses jovens saibam quem foi Gavroche (personagem do romance Os Miseráveis, de Victor Hugo) e, como ele, queiram marchar nas ruas para derrubar um tirano. Precisamos que eles entendam a lógica de Macunaíma. Precisamos que eles queiram montar no cavalo de Dom Quixote para dar carona a Sancho. Precisamos que eles emerjam. Emerjam dos lugares infernais onde nós os colocamos”, refletiu o autor de Caninos Amarelados.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Edição do Outras Palavras na Funase teve sessão do curta ‘O xadrez das cores’ (2004), dirigido por Marco Schiavon

Após a conversa com o escritor, foi realizada uma sessão do curta O xadrez das cores (2004), dirigido por Marco Schiavon, que aborda diretamente a questão do racismo. Silêncio, olhos vidrados na tela.

Ainda sem conhecerem a importância de Cannibal no cenário da música pernambucana – muito menos da sua proximidade com ídolos como Chico Science e Racionais MCs -, já era grande a expectativa por sua chegada. Falaram de vários outros artistas que gostavam, como Ponto de Equilíbrio e MC Troia, mas quando Cannibal entrou na sala, o rebuliço foi grande. O par de All Star, os dreads e a cara marrenta de roqueiro contribuíram para uma identificação quase que instantânea. Chamar a atenção do artista tornou-se o desafio, a disputa do momento.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Cannibal, com seu estilo irreverente e roqueiro, com dreads e All Star, chamou a atenção da garotada

Ao assumir os microfones, Cannibal falou de como foi assumir o sonho de ter uma banda de rock e levar isso adiante. “Uma das piores coisas que eu acho no ser humano é quando você tem um sonho e tentam atrapalhar isso. Quando eu fiz minha banda eu não tinha dinheiro, não recebia quando tocava, e meus pais me cobravam ‘cadê a grana?’. A gente começou a tocar em 1988, e passamos quase nove anos pra gravar o primeiro disco, sem fazer muitos shows que pagassem bem”, disse o cantor.

“Tocar no Alto Zé do Pinho nem pensar, porque do jeito que gente se vestia ninguém queria nem saber da gente. Mas aí um dia Chico Science, quando começou a acontecer o movimento Manguebeat, me falou que tinha uma TV de São Paulo aqui no Recife e ele queria apresentar bandas da capital pernambucana. Foi aí que a parada rolou. Quando ele começou a apresentar a Devotos, e todo mundo viu na TV, passamos a ser chamados para tocar em tudo que era lugar. E todo mundo passou a querer que a gente também tocasse no Alto José do Pinho”, revelou, realizado.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Na conversa, além de tocar algumas músicas, Cannibal falou sobre o desafio de lutar pelo sonho de trabalhar com música e sua relação com o Alto José do Pinho, comunidade onde vive no Recife

“Somos muito agradecidos ao Alto José do Pinho, e sabemos que tem muita coisa a ser consertada ainda na comunidade. Mas consideramos que se alguém de lá começa a ter projeção, tem que ficar lá. Ficando lá, fizemos uma ONG chamada Alto Falante, uma rádio comunitária com o mesmo nome, e colocamos as pessoas pra falar dos seus direitos”, contou Cannibal, exibindo depois o documentário Eu tenho pressa, que conta a trajetória da Devotos e sua relação com o bairro localizado na Zona Norte do Recife.

O artista aproveitou pra tocar algumas músicas da sua banda, mesmo num ambiente não tão comum a ele, apenas com um baixo acústico. “Eu sou acostumado mesmo é com a barulheira, mas vamos tirar um som aqui pra vocês”, brincou, puxando versos tensos da canção Futuro Inseguro, que dizem “Crianças abandonadas / Pedem e roubam na calçada / Sem amor e sem carinho / Os pais morreram, estão sozinhos / Violência sofrida sem razão (…)”.

< voltar para home