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Marcelo Mário Melo e Lucas Oliveira participam do Outras Palavras

Projeto promovido pela Secult-PE/Fundarpe, o Outras Palavras levou os artistas para a EREM Professor Benedito Cunha Melo, na última terça-feira (12), para participar de um bate-papo sobre arte e educação com os alunos da instituição

Jan Ribeiro

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A quadra do EREM Professor Benedito Cunha Melo se encheu de alunos para receber o Outras Palavras.

Por Camila Estephania 

Os alunos da EREM Professor Benedito Cunha Melo, tiveram um dia de aprendizados diferente na última terça-feira (12), quando o projeto Outras Palavras, promovido pela Secult-PE/Fundarpe, levou o poeta Marcelo Mário Melo e o músico Lucas Oliveira para a instituição.  A manhã na escola de Jaboatão dos Guararapes foi pautada por um bate-papo com os artistas convidados, que falaram sobre suas carreiras e o papel da arte na educação.

Ansiosa para receber a inciativa na escola, a coordenadora Daisy Almeida reuniu os estudantes na quadra, onde destacou a importância de aproveitar a ocasião. “É um prazer imenso receber esse projeto, por isso vamos fazer deste momento único e singular para todos nós”, comentou ela para os jovens que se mantiveram atentos durante todo o evento. “A arte é importante para desenvolver o indivíduo como um todo”, completou.

Jan Ribeiro

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A coordenadora da escola, Daisy Almeida, comemorou a iniciativa.

Para dar continuidade ao evento, Marcelo Mário Melo abriu a conversa falando sobre como todas as pessoas podem se desenvolver artisticamente. “Não existe coisas poéticas ou não poéticas, o que existe é o olhar poético ou não sobre as coisas. A poesia não estranha o que a vida entranha, tudo pode ser visto poeticamente. Sou contra a mitificação da poesia e a ideia de que o poeta é um iluminado. Penso que poesia se aprende e se ensina”, defendeu ele, que acredita que as pessoas precisam basicamente de exercício e estímulo.

Quando eu estudava, todo dia tinha que escrever uma redação escolar. Aí comecei a escrever para mim, como notas de um diário, e comecei a perceber que, naquele bolo, algumas palavras ganhavam autonomia, elas se diferenciavam porque eram palavras poéticas”, disse ele, sobre a sua iniciação, alertando sobre a necessidade levar o hábito da escrita para além da experiência escolar. “Uma criança se expressa com toda a sua autenticidade, depois ela começa a ficar inconveniente e as pessoas começam a podá-la. Quando ela começa a estudar, isso se intensifica porque vem a linguagem instrumental, que é muito útil, mas costumo dizer que só vai do queixo até a testa. Essa linguagem não chega no que está além de nós ou no nosso interior. Para mim, os profetas e os poetas andam no mesmo território, porque são eles que expressam essas outras coisas”, observou escritor.

Jan Ribeiro

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Marcelo Mário Melo falou da sua experiência como poeta.

Questionado por Pedro sobre se a poesia vinha perdendo a força, Marcelo falou mais um pouco sobre o ensino. “A maneira como a arte é tratada nas salas de aula não é conveniente. Ela é tratada através das correntes artísticas, como surrealismo, cubismo, mas os alunos não são estimulados a praticar”, criticou.

Em resposta sobre o porquê e as dificuldades de ter escolhido fazer poesia, desabafou: “Não escolhi, apenas gostava. Você vai exercitando e nesse processo vão aflorando as palavras. O grande desafio é viver poeticamente dentro do sistema capitalista, que tem três colunas terríveis: a exploração, a dominação política e a valorização do ter”, disse, ao citar versos de Ronaldo de Macedo e Mário Quintana como outros exemplos de como tornar os revezes em poesia.

Autor de poemas políticos como os dos livros “Os colares e as contas” e “Rumos Resistência – Poesia/Cidadania”, Marcelo também falou sobre a importância da política na sua vida. “Meu pai participou da Revolução de 1930 e era do Partido Comunista de Caruaru, onde nasci. Me envolver com isso foi natural para mim”, comentou ele, que ficou preso durante oito anos da Ditadura Militar por atuar na oposição.

Jan Ribeiro

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O autor falou da importância da política na sua formação cultural.

Para responder a Lucas, que quis saber sobre suas inspirações e qual o seu sentimento para escrever, o poeta falou sobre a subjetividade do processo criativo. “É muito perigoso você embarcar na construção de cada poeta, porque ela é muito pessoal. Vários caminhos podem ser seguidos, pode ser uma indignação, um tesão, uma análise. É como o poema que fiz sobre a mulher que pisou de salto no meu pé descalço. Começou com a dor, que é um estado emotivo e abriu a minha sensibilidade. Quando olho para cima, vejo o decote dela e vira um poema erótico. É uma combinação do que já está rolando dentro de você com o que aconteceu no momento. É como se o poeta fizesse a intimidade pública, porque é aquele discurso sobre coisas que todo mundo faz ou pensa, mas a gente expressa”, falou ele.

Ao recitar versos de “Macrolove” e “Apelação”, ambos poemas do livro “Poemídia” – em que escreve sobre coisas relativas a relação do homem com as mídias – respondeu a Catarina sobre se a paixão o inspirava. “O número de poemas de amor que fiz é muito maior do que sobre os outros temas”, avaliou ele, que também lançou em 1986 o bem-humorado livro “Manifesto Masculinista”, em que defende a “masculinidade sem machismo” e reivindica, dentre outras coisas, o direito do homem ser sensível.

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Os alunos aplaudiram os versos autorais recitados pelo escritor.

Acho muito interessante esse projeto, porque desmistifica a ideia do artista, do poeta, como um ser sobrenatural e estimula os meninos a descobrirem suas inclinações artísticas como uma coisa mais natural. Simplifica e desinibe, porque há uma tendência de colocar os artistas mais ou menos estabilizados como se fosse um extraterrestre, como se ele não tivesse tido um começo também. Além disso, complementa com coisas que não entram no currículo formal da sala de aula”, ponderou Marcelo, que se disponibilizou a manter em contato através do WhatsApp com os alunos interessados em poesia.

Para abrir o bate-papo sobre música, Lucas Oliveira, por sua vez, começou tocando “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, ao violão. “Essa idade que vocês estão, foi muito importante para mim, porque foi quando comecei a descobrir que queria ser músico. Meus pais eram colecionadores de vinil e eu era curioso, gostava de ver aquelas capas bonitas. Um dos discos que me chamou atenção foi o ‘Cantoria’, com Elomar, Vital Farias, Xangai e Geraldo Azevedo”, comentou ele, antes de tocar “Sete Cantigas para Voar”, de Vital Farias, que, anos mais tarde se tornou seu parceiro.

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Lucas Oliveira falou sobre a sua experiência com a cantoria e a música popular.

A formação em violão clássico também o permitiu desenvolver um mestrado sobre a obra de Elomar. “Quando entrei na faculdade, comecei a tocar Elomar, que era mais difícil. Quando ele esteve aqui em 2012, fui até o camarim dele para tocar para ele a minha versão de ‘Violêro’ e saber se ele aprovava. Na hora do show, Ariano Suassuna, que estava presente, foi até Elomar e pediu que ele tocasse essa música, aí ele me chamou para subir ao palco e tocá-la”, lembrou ele, que também tocou a canção na quadra da escola.

Apesar da experiência e pesquisa intensa na música regional, Lucas destacou a importância de ouvir de tudo para quem deseja trabalhar com música. “São várias técnicas para tocar um instrumento, então, quanto menos preconceito a gente tiver, melhor. Quando li sobre música brega dos anos de 1970, por exemplo, vi ali que eram expressões de um sentimento. Assim como o reggae, geralmente, têm mensagens políticas. São músicas que têm sentido e, às vezes, a gente não percebe isso”, observou ele, que ilustrou diferentes métodos para tocar o violão através de ritmos como o baião, samba, sertanejo e rock.

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O músico apresentou diferentes técnicas para tocar o violão.

Questionado sobre o motivo que levou a focar seu trabalho na música regional, Lucas falou sobre resistência cultural. “Sempre me identifiquei com esse tipo de música e tive vontade de valorizar. A cantoria e a música popular sempre precisam ter um espaço maior do que o que elas têm. Fui para cantoria para dar mais espaço e ser mais uma pessoa resistindo mesmo, mas também porque eu gosto muito”, justificou.

Para responder Stefany, que o perguntou se ele usava outros instrumentos para compor, o músico mostrou um pouco mais da versatilidade do violão. “Geralmente, eu crio tudo com o violão. Eu gosto muito dele para fazer as melodias. Às vezes, faço sequências harmônicas em algumas ocasião e depois tento evoluir em casa e aí vai fluindo. Outras vezes, anoto as ideias de melodia na partitura que me ajuda muito também”, revelou, mostrando formas de usar o violão para simular outros instrumentos.

Sobre os compositores que o influenciavam, respondeu: “Atualmente, os artistas mais populares, como Roberto Carlos, Paul McCartney e John Lennon, têm me influenciado bastante para fazer coisas simples, bonitas e profundas também. É importante ouvir de tudo também para criar um bom repertório. Fiz a música para a peça ‘Cantigas e estórias na terra do sabiá’, por exemplo, que tem influência armorial e de Gonzaga também, e nasceu espontaneamente mesmo, depois só fui trabalhando mais nela mesmo”, disse ele, antes de tocar o “Canto do Sabiá”.

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Os alunos participaram do debate com perguntas sobre a carreira do artista.

Ao falar das dificuldades e expectativas na trajetória musical, Lucas incentivou os jovens a persistirem no que gostam. “Além da teimosia, acho que a gente tem que canalizar um pensamento positivo, mas sem expectativas. Não enfrentei problemas na família por conta da minha escolha, porque venho de uma família de artistas, que são pessoas simples. Também tive bons professores. Acho que a grande dificuldade é encontrar espaço, porque muita gente não dá valor ao nosso trabalho. Mas sempre encontrei pessoas muito boas e parceiros no meu caminho. Quando a gente procura, a gente sempre encontra trabalho. Sempre procurei respeitar os outros e fazer a minha arte para isso”, indicou ele.

Diante da dedicação dos alunos, o músico elogiou a experiência ao final da conversa. “Fiquei contente de ver como o pessoal é receptivo para a música, independente do tipo ou se é nova ou antiga. É interessante para ele terem contato com outras pessoas que têm outra metodologia que não é necessariamente a dos professores deles. Acho que é legal até para os próprios professores adotarem uma posição, de certa forma, mais lúdica”, analisou o músico.

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No final, os estudantes pegaram autógrafos e conversaram um pouco mais com os artistas.

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