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Miró se renova e transpira sua poesia urbana no Outras Palavras

Poeta recifense sorriu e se emocionou durante conversa que teve com estudantes da Escola Silvio Rabelo, no centro do Recife, nesta quarta-feira (16)

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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A conversa foi mediada pela também escritora e poetiza Cida Pedrosa, amiga de longas datas do poeta recifense

Por Marcus Iglesias

“Minha mãe dizia que eu não era poeta, era fofoqueiro, porque vocês vão perceber que na minha literatura, na minha forma de escrever, eu sou muito observador”. Foi com essas palavras que Miró respondeu a primeira de muitas perguntas sobre sua trajetória com a arte e a poesia urbana nesta última quarta-feira (16), durante sua participação na edição do Outras Palavras realizada na Escola Sílvio Rabelo, no Centro do Recife. “A poesia é tudo na minha vida”, resumiu ele, que é atualmente um dos poetas urbanos mais conhecidos e estudados no Brasil.

A conversa foi mediada pela também escritora e poetiza Cida Pedrosa, amiga de longas datas de Miró – destacada por ele, inclusive, como sua segunda mãe, depois de Dona Joaquina. “Mediar Miró é quase impossível porque ele é ‘imediável’. Mas como estou aqui, vou provocá-lo a falar sobre a sua vida. Você é um crítico que percebe essas coisas da cidade, um cronista urbano. Como que isso acontece?”, questionou Cida Pedrosa.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Mediar Miró é quase impossível porque ele é ‘imediável’, brincou Cida Pedrosa antes de passar a palavra ao poeta

“Eu não precisei ir para a Universidade. Fiz vestibular para Jornalismo, mas não passei. E a poesia me veio através de um grande amigo, que é meu irmão até hoje, Maurício Silva, que eu conheci por volta dos anos 70 quando eu trabalhava na sua casa. Na época eu tinha uns 14 anos, e fazia uns serviços domésticos pra umas casas dali da região do Rosarinho pra ganhar uma grana. Uma época que a classe média do Recife ainda morava perto dos negros”, começou a refletir Miró.

“O Maurício, que é poeta, uma vez me perguntou: ‘Miró, você sabe o que é poesia?’. Eu disse: ‘Sei, é Roberto Carlos’. Ele riu e me disse que ia dizer o que era uma. Eu já tinha uns 16 anos nessa época. Ai ele disse assim: Farda verde verde verde verde / Praça verde verde verde verde / e o coração bate continência a toda mulher que passa’. Eu fiquei na hora sem acreditar que aquilo era poesia, e fiquei com isso na cabeça. Se realmente era, eu podia fazer também”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Na conversa, ele teve a oportunidade de falar para uma plateia jovem sobre como começou no mundo da poesia

Miró contou que depois de três meses estava na beira da ponte Duarte Coelho, na frente do Cinema São Luiz. “Se em uma coisa que eu gosto de fazer é observar a rua, olhar o que passa nela. Ai é quando minha mãe tem razão, eu gosto muito de escutar conversa atrás de mim. Adoro”, brincou o poeta. “Nesse dia vi um policial arrastando um negro parecido comigo pela orelha. Achei aquilo estranho. Ai daqui a pouco passou um cara atrás de mim dizendo ‘bora cara, já vai dar quatro horas’. Foi quando tive o estalo pra escrever minha primeira poesia (batizada de Quatro horas e um minuto)”, disse ele, declamando em seguida para os jovens, arrancando aplausos com sua performance.

Ele seguiu narrando sua história, lembrando de quando trabalhou na década de 80 na antiga Sudene, como faxineiro. “Um dia, enquanto eu lavava o banheiro e cantava Caetano Veloso, o poeta Wilson Araújo, que trabalhava por lá, ouviu e veio conversar comigo. Eu acabei falando que escrevia poesia e ele me pediu pra levar uns textos meus para que ele pudesse ler. Moral da estética. Wilson gostou do que leu e me pediu pra que eu levasse o que escrevia para uma amiga no Jornal do Commercio. Moral da histérica. Saiu no domingo, o dia de maior circulação do jornal, uma matéria de página completa sobre minha obra, com cinco poemas meus. Eles ainda arrumaram uma gráfica na época e fizeram uma surpresa pra mim, meu primo livro chamado Quem descobriu o azul anil”, relembrou, emocionado.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Aos 57 anos, Miró se prepara para lançar mais um livro. “Será uma espécie de diálogo entre mãe e filho, é o que posso contar agora”

“Depois disso desandei a escrever essas fotografias urbanas que reparo na rua e desde 1985 que eu não trabalho pra ninguém no sentido obrigatório. A partir deste ano, me tornei um homem livre. Vivo da minha poesia. E isso no Brasil, sendo negro, é uma coisa que me deixa muito feliz. É raro, raríssimo, um preto da periferia viver da poesia”, concluiu, com lágrimas nos olhos, adiantando que está em fase de produção do seu próximo livro. “Será uma espécie de diálogo entre mãe e filho, é o que posso contar agora”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Hoje vivo da minha poesia. E isso no Brasil, sendo negro, é uma coisa que me deixa muito feliz. É raro, raríssimo, um preto da periferia viver da poesia”, disse orgulhoso o poeta

Dentre dezenas de perguntas, uma outra respondida por Miró foi a feita pela estudante Juliana, que quis saber qual o conselho que ele poderia dar pra quem quer começar a escrever poesias. “Primeiro ler. Porque só lendo é que você vai tentar imitar alguém, como imitei o Maurício, e depois você vai ser você. Você vai juntando coisas que admira e acaba ficando original fazendo o seu. E observar o seu universo ao redor. Eu comecei a ler Drummond, que é o que eu mais amo. Eu li pouco, mas quem eu li que amei eu li tudo”.

Os estudantes também conversaram sobre música independente com a banda Dirimbó, que é conhecida pelo público por fazer uma mistura do carimbó do Pará com a cultura pernambucana, através do forró e do coco de roda. “A gente começou a estudar os sons paraenses, como guitarra e lambada, e percebemos um elo entre a música nordestina e a música caribenha”, explicou Rafa Lira, vocalista e guitarrista do conjunto.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Já a banda Dirimbó compartilhou com a garotada como foi a sua sua turnê pelo Brasil pra divulgar o último EP, o Deixar Tu Loks

O grupo hoje, formado por Bruno Negromonte (bateria), Mário Zappa (baixo), Vitor Pequeno (guitarra) e Rafa Lira (vocal e guitarra), pincelou os fatos mais importantes da banda nos últimos três anos, como o lançamento do dois EPs lançados e disponíveis na internet (Dirimbó e Deixar Tu Loks), a turnê que fizeram pelo Brasil e a produção do primeiro disco autoral. “Foi muito legal rodar o Brasil e ser bem aceito. Ir até cidades como Belém, Maceió, São Luís, Fortaleza, Natal, Aracaju e São Paulo e ver como a cultura pernambucana é bem quista em outros lugares. E como tem pernambucano em todo lugar do país, muita gente foi para os nossos shows só pra matar a saudade da terra e do sotaque”, reforçou Bruno Negromonte, baterista da Dirimbó.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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O grupo hoje é formado por Bruno Negromonte (bateria), Mário Zappa (baixo), Vitor Pequeno (guitarra) e Rafa Lira (vocal e guitarra) se prepara para gravar o primeiro disco autoral

Antonieta Trindade, gestora do Outras Palavras, celebrou mais uma edição do projeto que, segundo ela, tem o objetivo de “melhorar a qualidade da escola pública para que a nossa juventude tenha acesso ao conhecimento, no sentido mais amplo possível. Nós trazemos a literatura e a música viva pra dentro das escolas, para conversar não só sobre sua produção, mas também sua trajetória. Mostrar quanta perseverança é preciso ter para chegar aonde eles chegaram”, ressaltou.

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