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No Dia do Estudante, Outras Palavras leva cultura e arte a Belo Jardim

Projeto da Secult-PE e Fundarpe foi realizado nesta sexta (11) no EREM Bento Américo, com a escritora Rejane Paschoal e o poeta Mestre Galo Preto

Outras Palavras em Belo Jardim

Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Mestre Galo Preto celebrou o Dia do Estudante com muito coco de roda e diversão dos presentes

 Marcus Iglesias

Não havia data mais simbólica para a realização da última edição do Outras Palavras, que aconteceu nesta sexta-feira (11), desta vez na EREM Beto Américo, localizado no município de Belo Jardim. É que nesta data comemora-se em todo o Brasil o Dia do Estudante, público-alvo principal do projeto promovido pela Secretaria de Cultura estadual e Fundarpe – que busca levar cultura e arte para dentro do ambiente escolar e já passou por centenas de municípios pernambucanos. Celebrando este dia, o encontro teve a participação de vários professores poetas da cidade, que recitaram seus trabalhos, além da escritora Rejane Paschoal, vencedora do 3º Prêmio Pernambuco de Literatura, e do Mestre Galo Preto, Patrimônio Vivo do estado.

Desde que foi lançado em 2015, o Outras Palavras alcançou números incríveis. Até aqui, já passou por 336 escolas, atingindo mais de 7 mil pessoas, e distribuiu 4291 livros. Diante deste êxito, hoje em dia muitas instituições de ensino fazem convites para que o projeto também passe por elas. Foi o caso do EREM Bento Américo, que através do professor Ronaldo Maia, também membro da Academia Belo-jardinense de Letras e Artes (ABLA), solicitou uma edição da iniciativa para Belo Jardim.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Antonieta Trindade, gestora do Outras Palavras e vice-presidente da Fundarpe, ao lado de Lourdinha Mergulhão (presidente da ABLA) e de Luciene Souza, gestora do EREM Bento Américo

Uma coincidência que encheu de emoção esta edição é que a presidente da Academia, Lourdes Mergulhão, conhecida na cidade como Lourdinha, estudou na infância no EREM Bento Américo. Natural de Brejo da Madre de Deus, ela foi morar ainda bebê em Belo Jardim, onde construiu toda uma história afetiva.  “Essa foi minha primeira escola e aqui tenho minhas primeiras lembranças com a arte. Foi nesse salão que fiz meu primeiro recital de poesia, em homenagem ao Dia das Mães. Aquele momento ficou registrado na minha memória até hoje. Quando soube pelo Ronaldo Maia que o projeto da Secult-PE e Fundarpe aconteceria aqui, no Dia do Estudante, fiquei bem emocionada, sem acreditar”, contou ela, que também é funcionária da Secretaria de Cultura do estado. Fundada em 2007, a ABLA conta com 35 membros de Belo Jardim e Sanharó e já lançou duas antologias de poetas da região.

Foi uma data bem pensada pra gente levar pela primeira vez em Belo Jardim, no Dia do Estudante, o Outras Palavras. O nosso trabalho é voltado pra eles, garantir aos alunos acesso ao que há de melhor na literatura pernambucana e às manifestações culturais do nosso estado. E é um trabalho de resistência, porque há três anos estamos nessa luta de levar conhecimento às instituições de ensino”, opina Antonieta Trindade, gestora da iniciativa e vice-presidente da Fundarpe.

Como de costume, antes dos debates há a exibição do filme A hora da saída, produzido por alunos da Escola Estadual Santa Paulo Frassineti que participaram do Curso de Iniciação ao Audiovisual – como parte do projeto Cine Cabeça. O curta, que narra com tom de comédia a angustia dos alunos nos segundos finais que precedem a largada da escola, foi dirigido por Cynara Santos e Gabriela Freitas, enquanto que o roteiro é assinado por Lucas Cintra e Vitor Vinicius.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rejane Paschoal venceu a 3ª edição do Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro Manuscritos em Grafite (categoria Contos)

Em seguida, a única mulher premiada no Prêmio Pernambuco de Literatura conversou com os estudantes sobre sua carreira artística e intimidade com a escola. Rejane Paschoal foi durante muitos anos professora de Artes, e sabe muito bem da importância da escola na construção de um mundo melhor. “Eu estou num dos ambientes que mais gosto da minha vida, que é o escolar. Passei muitos anos construindo uma relação afetiva com alunos, e para mim isso é algo mágico. Considero como se os professores e alunos aqui presentes também são meus. Não consigo olhar pra vocês e não pensar isso”, disse, logo de início.

Autora do livro Manuscritos em Grafite, vencedor da 3ª edição do prêmio promovido pela Secult-PE na categoria Contos, ela deu detalhes do seu envolvimento com a literatura. “Aprecio todas as linguagens, e apesar de não ser uma multiartista, tenho ligação com todas elas. Quando me aposentei do trabalho como professora de Artes, em 2007, comecei a escrever. Praticamente do nada eu inventei uma história infantil e passei a gostar muito disso. Na época fiz também uma oficina de literatura com Raimundo Carrero, que passava a experiência dele como escritor e estudioso da área”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Vários alunos participaram da conversa com a autora e tiraram dúvidas sobre como é pra ela ser uma escritora

Erionaldo dos Santos, aluno do 1º ano, quis saber como era que vinha a inspiração na hora de escrever algo. “Sabe quando você está num canto sentado, descansando, e acende aquela luz em cima da cabeça como acontece nos desenhos infantis? Isso acontece de verdade, mas não é do nada, e sim por causa dos seus processos internos. Coisas que a gente vai juntando na cabeça, relacionando. Podem ser vivências concretas, sonhos. E ai de repente uma palavra, uma coisa que a gente viu, constrói o insight. Agora o mais divertido é começar a construir uma personagem e não saber o que vai acontecer com ela. Eu simplesmente vou escrevendo as coisas e construindo um sentido. O que eu não sabia é que personagens são seres rebeldes. Eu achava que a gente tinha controle sobre as criações, mas não, eles fazem o que querem”, brincou.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

“Passei muitos anos construindo uma relação afetiva com alunos, e para mim isso é algo mágico”, disse Rejane Paschoal sobre ter sido professora

A aluna Isis Gouveia, do 3º ano, por sua vez, perguntou como a autora se enxergava sabendo que era a única mulher vencedora do Prêmio Pernambuco de Literatura. “Eu sinto muita satisfação com o reconhecimento do trabalho. Mas até hoje estou processando isso. Tem muita mulher escrevendo, e eu particularmente conheço várias. O problema é que estamos no século XXI, mas tudo ainda pesa sobre nós. Pra gente superar as coisas tem que ter um esforço muito grande, porque além da rotina normal outras responsabilidades recaem sobre nós, como filho, cuidados com a casa. Pode perceber que quando os homens publicam um livro ou alguma pesquisa, em geral, agradecem às mulheres ‘pelo tempo que ficaram ausente da família e fulana sustentou a barra’. A gente não tem quem faça isso. Meu segredo pra superar isso é ser de circo. Quando eu era criança eu achava que quem era artista circense era gente que fazia coisas dificílimas, e eu gosto de pensar assim”.

Na sequência, um dos maiores representantes da tradição do coco de Pernambuco,o Mestre Galo Preto assumiu a brincadeira. No ano passado, aos 82 anos (hoje o mestre tem 83, mas disposição de jovem), Galo Preto lançou seu primeiro e único registro fonográfico, o disco Histórias que Andei, com recursos do Itaú Cultural. Acompanhado de três músicos, o mestre aproveitou para apresentar para os presentes algumas das canções deste trabalho, que pode ser escutado na internet.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Com sua típica irreverência e bom humor, Mestre Galo Preto foi uma das atrações do Outras Palavras nesta sexta (11)

Entre vários cocos, contos e causos, Galo Preto narrou uma história engraçada que aconteceu com ele quando, na década de 70, foi participar de um programa do Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. “Na época eu era bem conhecido porque vivia na televisão, e antes de eu entrar no palco o apresentador fez todo um discurso me anunciando. Quando ele disse ‘e agora, com vocês, Galo Preto’, e eu entrei naquele silêncio, um cara lá atrás gritou ‘cocoricó’ (imitando um galo), e foi aquela gozação. Quem estava comigo nesse dia foi o famoso Arlindo dos Oito Baixos, e ele me disse no ouvido que eu tinha que responder a quem fez a brincadeira. Então eu disse assim, na hora, e vejam bem o que é improviso: ‘O galo verdadeiro quando canta/ bate a asa e espicha o pescoço/ já cantei pra todo mundo/ vou cantar praquele moço (e apontei para o cara que me chamou de galo) / me chamam de Galo Preto/ por causa da minha morada/ lá vai aqui a resposta/ pro galo que me saudou na chegada/ ele tentou me imitar/ mas não fala como eu falo/ seu cantar é muito fino/ não chega ao cantar de galo/ como todo mundo sabe/ o galo é um bicho macho/ e a patente desse cara/ é de galo mais abaixo”, contou, debaixo de várias gargalhadas da plateia.

A apresentação, claro, acabou com muito coco de roda no meio do auditório, com o mestre no meio e alunos e professores em volta, num clima de confraternização. Ao final, foram distribuídos alguns kits do Outras Palavras, que contém livros dos vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, além de um bloco de notas que vai servir pra abrigar as ideias da garotada.

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