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O Hip Hop e a rima como instrumentos da educação no Outras Palavras

Edição realizada em São José da Coroa Grande, na EREM Professor Carlos José Dias da Silva, teve a presença do professor Sérgio Sociólogo e do MC Kabeça

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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““A nossa comunidade não tem muita visão sobre a cultura do Hip Hop, e o que eles trouxeram pra mostrar pra gente ajudou muito a mudar esse entendimento”, disse um dos estudantes que participou da ação

Por Marcus Iglesias

A cultura do Hip Hop foi utilizada como instrumento de educação nesta última quarta-feira (7) numa edição do Outras Palavras realizada no município de São José da Coroa Grande, na Mata Sul do estado. Mais de cem alunos da EREM Professor Carlos José Dias da Silva participaram de uma conversa com integrantes do Hip Hop pernambucano, como o professor Sérgio Ricardo Matos, mais conhecido como Sérgio Sociólogo da Favela, e rapper Cláudio Ferreira, o Kabeça, que foi acompanhado dos jovens MCs Gabiz e DL9.

O bate-papo desta vez foi completamente voltado para a música, dança e poesia urbana inspiradas no movimento que nasceu na década de 60 no Bronx, bairro periférico de Nova Iorque, nos EUA, e que se expandiu mundo afora com a força da valorização da cultura afro-jamaicana.

Neste sentido, as apresentações de Sérgio Sociólogo e de Kabeça foram divididas, respectivamente, numa parte teórica e noutra mais lúdica. Primeiro o professor exibiu alguns vídeos do projeto Griot Urbano, feitos pelo rapper Monge MC, e que contam um pouco sobre como surgiu o movimento Hip Hop pelos EUA e pelo mundo.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Sérgio Sociólogo é produtor cultural e professor de Ciências Humanas, além de ativista deste movimento há 16 anos

Sérgio Sociólogo é produtor cultural e professor de Ciências Humanas, além de ativista deste movimento há 16 anos. Enquanto membro da Associação Metropolitana de Hip Hop em Pernambuco coordena diversos projetos, a exemplo do Polo Hip Hop (realizado no Recife e em Olinda), da Mostra Pernambucana de Danças Urbanas, e do Ginga BBoys e BGirls, iniciativas de cunho social realizadas em presídios, escolas públicas e entidades sociais.

“Conheci o Hip Hop no final de 1989 e na época eu era um jovem muito revoltado. Mas vi no break dance uma oportunidade de me expressar e colocar aquilo tudo pra fora. Fortaleci a minha autoestima e aprendi que eu poderia ter um futuro diferente. A falta dela é o que cria as condições para um cidadão ou cidadã entrarem no crime”, refletiu Sérgio.

Depois da exibição do primeiro episódio do Griot Urbano, o sociólogo fez algumas ponderações sobre os acontecimentos históricos. “Dois personagens se tornam centrais no início do Hip Hop, que são Kool Herc e sua irmã Cindy. Eles começaram a realizar as primeiras festas com as principais características que este movimento tem, como o sound system, o break dance, a presença dos MCs e DJs e também a dos grafittis. Por essa razão, o DJ Kool é considerado um dos fundadores do Hip Hop, por ter estabelecido o formato e os elementos que compõem esta cena cultural”, explicou Sérgio Sociólogo.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Durante a conversa foram exibidos alguns vídeos do projeto Griot Urbano, feitos pelo rapper Monge MC, e que contam um pouco sobre como surgiu o movimento Hip Hop pelos EUA e pelo mundo

“Mas gostaria de lembrar do papel e Cindy Campbell, uma mulher que não é tão lembrada quando a gente fala sobre este momento da história. Poucos sabem, por exemplo, que ela teve a ideia de criar a festa e era aderecista de vários grupos da época”, completou Sérgio, que também falou de outros nomes de importância para o Hip Hop, como Afrika Bambaataa.

A conversa com os estudantes se estendeu por outros assuntos, como o surgimento dos Panteras Negras, das gangues do Bronx e do acordo de paz entre esses grupos, que resultou na explosão da cultura Hip Hop pela região. “Na década de 70, o Bronx sofria com altos índices de criminalidade e de condições precárias para se viver. A violência estourou, em cada quarteirão havia uma gangue. E uma das mais temidas da época foi a Guetto Brothers, liderada pelo MC Yellow Benjy, que propôs o acordo de paz entre os rivais”.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Convidados a interagir, dois alunos começaram uma batalha de rimas com Gabiz e DL9, mostrando ao vivo o dom que possuem com métrica e improviso

“Com a paz, as gangues começaram a dialogar umas com as outras e, ao invés de disputar na violência, passaram a competir através da arte, na música e na dança. Isso mostra que a gente consegue sim, através da cultura e da educação, transformar uma realidade”, ressaltou o professor.

Quando Sérgio Sociólogo terminou sua explanação, Kabeça assumiu os microfones puxando algumas rimas de sua autoria. A ideia era esquentar o público para a verdadeira brincadeira que viria em seguida. “Primeiro eu queria saber se tem alguém aqui que gosta de rap”. Mesmo tímidos, dois alunos, Pedro Lucas e Lucas Alves, foram até a frente do auditório encorajados pelos seus colegas de escola.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Kabeça é ativista da cultura Hip Hop desde 1986 e líder de um dos primeiros grupos de rap de Pernambuco, o Sr. Kabeça. É tambémcoordenador do projeto Viadutos Prazeres, batalha de MCs onde conheceu Gabiz e DL9

Os dois começaram uma batalha de rimas com Gabiz e DL9, mostrando ao vivo o dom que possuem com métrica e improviso. Um momento de muita energia dentro daquele auditório, com direito a votação do MC vencedor. É nesse instante da interação entre estudantes e artistas que o Outras Palavras revela seu verdadeiro potencial.

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Um dos corajosos que foi até a frente do auditório na hora da batalha, Pedro Lucas, de 17 anos, participa de encontros de MCs no município de Barreiras

Kabeça é ativista da cultura Hip Hop desde 1986 e líder de um dos primeiros grupos de rap de Pernambuco, o Sr. Kabeça. É também coordenador de Políticas Culturais da Associação Metropolitana de Hip Hop em Pernambuco e do projeto Viadutos Prazeres, batalha de MCs realizada em Jaboatão dos Guararapes – onde conheceu Gabiz e DL9.

Os dois jovens MCs convidados por Kabeça instigaram os alunos com outra brincadeira. “A gente queria agora que vocês sugerissem algumas palavras que vão servir como temas pra nossas rimas (alguns assuntos propostos pelos estudantes foram Resistência, Segregação, Conhecimento e Humildade)”, disse Gabiz, que falou em seguida. “Antes de conhecer o crime eu tive a oportunidade de conhecer o Hip Hop, e ele mudou a minha vida. Espero que mude a de vocês também”.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Mais de cem alunos da EREM Professor Carlos José Dias da Silva participaram da conversa com integrantes do Hip Hop pernambucano

Um dos corajosos que foi até a frente do auditório na hora da batalha, Pedro Lucas, de 17 anos, participa de encontros de MCs no município de Barreiras. Ele se autodeclarou um fã da Chave Mestra, coletivo de rappers do Recife, e de outros nomes da atual cena nacional como Baco Exu do Blues (BA). “A nossa comunidade não tem muita visão sobre a cultura do Hip Hop, e o que eles trouxeram pra mostrar pra gente ajudou muito a mudar esse entendimento. Pras pessoas mudarem a cabeça e que isso vai mais além, agregando muitas coisas legais dentro da arte”, opinou o estudante.

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