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Outras Palavras celebra a história e a cultura de Pernambuco

Na última quinta-feira (25), o projeto levou o escritor e jornalista Evaldo Costa e músicos do Quinteto Violado para um bate papo com alunos da Escola Gercino de Pontes, que sediou o evento, e do EREM Amaury de Medeiros.

Rodrigo Ramos

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Pátio da Escola Gercino de Pontes se encheu de alunos para receber o projeto Outras Palavras

Por Camila Estephania

Com a proposta de ampliar o conhecimento cultural dos estudantes da rede estadual, o projeto Outras Palavras, promovido pela Secult-PE/Fundarpe, vem conquistando não só gestores e alunos, mas também os artistas que participam da ação. A edição da última quinta-feira (24), que aconteceu na Escola Gercino de Pontes, no bairro da Imbiribeira, no Recife, por exemplo, foi marcada pela interação entre o escritor e jornalista Evaldo Costa e os músicos do Quinteto Violado com os estudantes que, antes mesmo de começar o bate-papo, decoraram o pátio da escola com cartazes e LPs que remetiam à história da banda, evidenciando uma pesquisa afiada sobre os convidados do dia.

Para abrir a conversa, a vice-presidente da Fundarpe e coordenadora do projeto, Antonieta Trindade, destacou a importância do momento para os alunos. “Com o Outras Palavras, vocês estão tendo uma oportunidade que a maior parte das escolas públicas do país não têm. Esse projeto foi concebido a partir do plano de governo de Paulo Câmara e tem o objetivo de integrar a cultura à educação. Já percorremos cerca de 500 escolas de todas as regiões do Estado, levando escritores e músicos premiados. Agora, trazemos para cá para que vocês tenham uma aula diferente que estimule o senso crítico de vocês”, disse ela para o pátio cheio, que também contava com estudantes do EREM Amaury de Medeiros.

Rodrigo Ramos

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A gestora da escola, Janeide Costa, e a vice-presidente da Fundarpe, Antonieta Trindade, falaram da importância do projeto para os alunos.

Ex-aluno da Escola Gercino de Pontes, Evaldo Costa lembrou de como era o espaço e seus personagens na época em que cursou o Ensino Fundamental II e logo estabeleceu uma conexão com os jovens presentes. “Acho que vocês conseguem imaginar a minha emoção de estar aqui hoje. Estudei aqui quando a Escola era muito menor e fiz amigos que cultivo até hoje”, comentou ele, antes de apresentar o seu trabalho. “Sou jornalista, escrevo notícia. Então, quando faço livro também é mais ou menos pelo mesmo caminho”, adiantou ele, ao mostrar a biografia “Pelópidas Silveira: o homem que amou demais uma cidade”, lançado em 2016, sobre o prefeito do Recife eleito em 1963.

O cunho informativo dos livros de Evaldo gerou um intenso debate que acrescentou também ao conhecimento de história dos alunos. “A nossa data magna, em 6 de março, foi criada em homenagem a Revolução Pernambucana de 1817, quando Pernambuco se declarou independente da coroa portuguesa. O livro ‘Memorial do dia seguinte’ é sobre o momento seguinte a essa revolução, que foi reprimida, e uma forma de agradecer aos que fizeram esse movimento que representava um avanço para o Brasil”, explicou ele sobre o título, escrito juntamente com Débora Cavalcantes e Hildo Leal Rosa.

Ao ser questionado pela aluna Érica sobre quais eram suas inspirações, o autor respondeu: “Inspiração é trabalho, não é uma coisa onírica. Fiz jornalismo porque acreditava que era um instrumento para mudar o mundo. Sei que também se faz muita maldade através do jornalismo, mas isso é a minoria. A maior fonte de pesquisa que existe são os jornais, porque são os que mais cometem erros, mas também são os que têm mais acerto na média duração também. Não existe democracia sem um jornalismo forte e não há dignidade humana sem democracia. Tudo o que eu fizer vai ter o tom de comunicar e fazer política com ‘P’ maiúsculo, no sentido de mudar a vida das pessoas”, esclareceu ele, que já assumiu o cargo de Secretário Estadual de Comunicação nos governos de Miguel Arraes e de Eduardo Campos.

Rodrigo Ramos

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Evaldo Costa falou sobre o caráter informativo dos seus livros.

“Perto de onde eu morava havia a Biblioteca Municipal, com 13 anos comecei a visitar aquele lugar e o primeiro livro que peguei foi ‘Memórias do Cárcere’, de Graciliano Ramos. Esse livro me marcou e me definiu como pessoa, porque passei a ser alguém que não tolera injustiça e que quer buscar o melhor para as pessoas”, observou ele, ao responder a estudante Adriana, que perguntou sobre a escolha de ser jornalista.

O currículo extenso, que inclui passagens por vários jornais do País, como o Correio Braziliense, Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio, através do qual ganhou um prêmio Esso, chamou a atenção dos alunos. Um deles quis saber se Evaldo imaginou que teria sucesso na profissão. “A gente nunca acha que vai ser capaz. Eu achava que não ia nem passar no vestibular, mas passei. Depois achei que não passaria no curso básico, mas também passei. Aí, no 4º período da Universidade, tive a oportunidade de me tornar profissional. Só depende da gente e do quanto a gente quer. Querer é ter a disposição de construir meios de chegar aonde você espera”, respondeu.

“Fui a primeira pessoa que teve curso superior na minha família, que não entendia tanto dessas diferenças entre as carreiras, então, me apoiaram, porque eu tinha muita clareza do que eu queria”, comentou ele, ao responder sobre se teve apoio da família. “Não existe falha maior do que querer algo e não buscar. Sou humano e tive momentos de fraqueza e quis desistir, mas persisti. Era um momento de muita dificuldade, mas minha família me manteve focado”, continuou, ao responder sobre se já havia pensado em desistir, lembrando que apesar das dificuldades financeiras e de só ter podido cursar a Universidade Católica de Pernambuco após a criação do crédito educativo, foi atrás do sonho.

Rodrigo Ramos

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O jornalista e escritor destacou a importância da leitura para quem deseja seguir na área.

Dando continuidade a conversa, a aluna Ana Catarina perguntou qual foi a sensação de ver o primeiro livro publicado. “Foi tranquilo. Minha grande emoção mesmo foi quando vi meu primeiro texto assinado no jornal, mas meu primeiro livro foi sobre o jornalista Andrade Lima Filho e fala sobre a conversão dela da extrema direita da política para a extrema esquerda. Escrevi em 90 dias na época em que eu trabalhava no Diario. Deu muito trabalho para fazer, mas quando a gente vê pronto é uma alegria. Muita gente gosta desse livro, eu amo como um filho”, resumiu ele, que ainda publicou títulos como “Cânticos do Cariri” e “Palavra Acesa”.

Para representar o Quinteto Violado, o tecladista Dudu Alves e o flautista Ciano Alves deram continuidade a conversa com os alunos e tocaram algumas músicas que marcaram a história da banda contando com a participação do percussionista João Alves. “O Quinteto Violado começou na década de 1970 com Toinho Alves, meu pai, e Marcelo Melo, como a proposta de resgatar e modernizar a música tradicional nordestina. Atualmente, o Quinteto é composto por mim, Ciano, Marcelo Melo, Roberto Medeiros e Sandro Lins. João, que nos acompanha hoje, é filho do nosso percussionista, Roberto, e já está se integrado a banda, como eu também fui”, apresentou Dudu, ao falar do trabalho que já atravessa gerações.

Rodrigo Ramos.

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Os alunos perguntaram sobre o início das carreiras dos convidados e as dificuldades superadas em suas trajetórias.

Ao observar os discos de Luiz Gonzaga empregados na decoração do pátio, Dudu tocou a versão do Quinteto Violado adaptada para o teclado de “Asa Branca”. “O Rei do Baião costumava dizer que esse arranjo que o grupo fez para a música dele foi o mais bonito que ele já ouviu”, lembrou Dudu, dando início a uma verdadeira aula prática sobre a cultura popular de Pernambuco. Ainda sobre o sanfoneiro, Dudu também falou sobre a turnê conjunta que ele fez com o Quinteto. “Na época, Dominguinhos estava iniciando a carreira e fazia parte da banda de Luiz Gonzaga. Foi nesse tempo que Dominguinhos compôs junto com Toinho Alves a música ‘Sete Meninas’”, revelou ele, antes de tocar a canção.

Na ocasião, o grupo também mostrou os LPs de alguns álbuns emblemáticos da banda, como “A Missa do Vaqueiro”, “A Feira”, “Folguedo” e o primeiro disco homônimo de 1972. “‘Folguedo’ foi um dos discos que mais foi pelo caminho de buscar músicas que fazem parte da nossa cultura. Já primeira capa que a gravadora escolheu para o primeiro disco deu a maior polêmica, porque usava o desenho da capa de um disco de uma banda de rock, por isso, depois teve que ser trocada, mas esta é mais famosa”, disse ele, segurando a raridade, enquanto destacava curiosidades sobre os trabalhos e a indústria fonográfica da época.

Rodrigos

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O Quinteto Violado apresentou alguns de seus álbuns e revelou curiosidades sobre eles.

Questionado sobre a experiência do grupo de ganhar o maior prêmio da música, o Grammy, em 2014, Dudu falou sobre a importância de fazer o que gosta. “Tudo o que a gente faz com prazer na vida acaba gerando coisas boas como os prêmios. Fomos para Las Vegas como indicados ao Grammy Latino com a música que a gente faz, a música nordestina, e vencemos”, comentou ele, evidenciando o reconhecimento internacional que a o trabalho Quinteto tem.

Para responder uma aluna sobre a sensação de subir ao palco pela primeira vez, Dudu falou da sua experiência em particular. “O Quinteto já sofreu várias modificações. A minha primeira vez foi na Europa em uma excursão muito longa que passou por vários países com plateias lotadas, mas a emoção que a gente tem lá é a mesma que a gente tem aqui com vocês, o tamanho do público não importa”, refletiu Dudu, que já está no grupo há 28 anos.

Evaldo Costa também participou do debate ao perguntar como é manter a tradição e ao mesmo tempo atualizar o som da banda ao longo de tanto tempo. “A palavra chave é atualização mesmo. O Quinteto Violado acompanha essa evolução tecnológica. Em mais de 45 anos, a gente não poderia continuar com a mesma formação que tinha naquela época e a entrada do teclado veio para ajudar nisso. Temos que aceitar essa realidade, mas sem perder a essência. No show, quando Ciano está no violão, faço a flauta no teclado, quando Marcelo está na viola, faço o violão no teclado”, defendeu ele, que depois tocou “Sala de Reboco” para ilustrar como o teclado também pode fazer o papel da sanfona na música.

Rodrigo Ramos

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O grupo convidou os alunos para dançar ciranda, quadrilha e frevo.

“Nossa ideia é continuar sempre. Temos isso de ir passando de geração em geração. Hoje, só temos da primeira formação Marcelo, porque temos essa preocupação de manter o trabalho vivo. Já escutamos que o quinteto o único grupo que tem mais de 45 anos de atividade sem parar”, falou Dudu, ao pontuar que o grupo é famoso por abrir portas para novos nomes. “Elba Ramalho era uma atriz da Paraíba que foi para o Rio de Janeiro, porque o Quinteto precisava de uma atriz que soubesse cantar em um trabalho com eles e depois ela ficou lá. Até hoje ela diz que o Quinteto é padrinho dela”, comentou ele.

O segredo para a longevidade da banda, Dudu revelou ao responder um aluno que perguntou quais dificuldades o grupo enfrentava. “A maior dificuldade é conseguir manter a união. Todo mundo tem opiniões diferentes, mas quando se conquista essa união, isso é superado”, disse ele, depois de convocar uma ciranda com a música “Tenho Sede” e uma quadrilha para “Olha Pro Céu”.

Para encerrar, o tecladista respondeu às perguntas dos alunos sobre os projetos futuros do grupo. “Há um projeto que a gente realiza há muitos anos e que já rodou o mundo, que é o Concerto Aula, com o qual a gente apresenta a nossa cultura através do trabalho do Quinteto. Fora isso, também tem o ‘Free Nordestino’, que é o nosso show com músicas novas. Esse nome vem de Gilberto Gil que, quando conheceu o Quinteto, uma vez falou sobre a banda para um jornalista que perguntou o que era e ele disse que era um free nordestino”, falou sobre o título, que remete a liberdade criativa do grupo.

Rodrigo Ramos

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O flautista, Ciano, e o tecladista, Dudu Alves, representaram o Quinteto Violado, que contou com a participação do percussionista João Alves.

Depois de fazer alusão ao São João e à ciranda, a edição do outras palavras foi encerrada com o carnaval, através do frevo “Me Segura Senão Eu Caio”. “É muito importante trazer a cultura nordestina pra essa meninada que tem difícil acesso a isso, por conta da mídia mesmo, que não valoriza tanto o que é mais tradicional da nossa região. Acho que esse projeto vem com a semente para que cada jovem mais tarde possa ter interesse em ampliar o seu conhecimento da cultura que é parte da vida dele”, elogiou Dudu sobre a experiência.

A gestora da Escola Gercino de Pontes, Janeide Costa, reafirmou a importância do projeto. “Achei maravilhoso, cultura nunca é demais, é um alimento para a alma. Quando o aluno não tem contato com a arte, ele fica alienado, pois fica sem contexto e fora do seu mundo. Por isso, um trabalho como este só acrescenta à educação”, concluiu ela.

Rodrigo Ramos

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Os alunos da Escola Gercino de Pontes decoraram o pátio em alusão à banda.

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