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Outras Palavras encerra o ano com edição impecável em Olinda

Na última quarta-feira (5), os estudantes da EREM Capitão Luiz Reis, no Alto da Bondade, em Olinda, estiveram frente a frente com a escritora Ezter Liu e o sambista Jorge Riba

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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Este ano, a EREM Capitão Luiz Reis completou seu quadragésimo aniversário, um dos motivos pelos quais o Outras Palavras foi solicitado para ir até a escola olindense

Por Marcus Iglesias

A última edição do Outras Palavras deste ano, na última quarta-feira (5), foi impecável dentro do que o projeto se propõe: uma verdadeira aula sobre cultura e arte dentro do ambiente escolar, com intensa participação dos jovens. Não foram poucas as vezes que os estudantes da EREM Capitão Luiz Reis, no Alto da Bondade, em Olinda, levantaram as mãos pra tirar suas dúvidas com os dois convidados: a escritora Ezter Liu e o sambista Jorge Riba. Ambos assumiram, de uma forma bem humorada e divertida, os papéis de professores e falaram, respectivamente, sobre os processos criativos e artísticos dentro da literatura e do samba pernambucano.

Este ano, a EREM Capitão Luiz Reis completou seu quadragésimo aniversário, um dos motivos pelos quais o Outras Palavras foi solicitado para ir até a escola olindense. “Hoje teremos uma aula diferente, porque vai ser uma mistura de literatura com cultura, arte, cinema e música. Bem melhor que a aula de matemática que eu dou e sei que vocês adoram”, brincou o professor Wildson Cruz, gestor da escola, em conversa com seus alunos.

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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O gestor Wildson recebe das mãos de Lucila Gomes, do Outras Palavras, um kit com livros dos vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, e outras publicações com incentivo do Funcultura

Wildson é um dos educadores que estavam presentes na primeira edição do Outras Palavras, realizado no Teatro Apolo. “Quando o conheci quis trazê-lo para nossa escola porque compreendi ali a importância desse projeto. Selecionamos então alguns estudantes que sabemos que gostam de leitura e de música para que a atividade fosse absorvida da melhor forma possível”, explicou o professor. Em seguida, foi exibido o curta A hora da saída, realizado por alunos da Escola Santa Paula Frassinete, do Recife, resultante das oficinas promovidas pelo projeto Cine Cabeça, uma parceria da Secult-PE com a Secretaria de Educação.

Ezter Liu participou pela primeira vez do Outras Palavras em Petrolina, durante a Clisertão, e no Alto da Bondade se mostrou tão à vontade como quando esteve com os estudantes do sertão. Sobre seu livro Das tripas coração, o grande vencedor do V Prêmio Pernambuco de Literatura, a autora detalhou como foi sua criação.

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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Ezter falou sobre o livro ‘Das tripas coração’, o grande vencedor do V Prêmio Pernambuco de Literatura

“No ano passado, tive o enxerimento e ousadia de enviar meu rascunho de livro, que era uma compilação de contos que eu tinha, para o Prêmio Pernambuco de Literatura. Há um tempo eu era como vocês. Escrevia, mas não mostrava pra ninguém. Meus cadernos estavam cheios de rascunhos e poemas, só que sem leitores. A nossa sorte é que sempre tem aqueles amigos que nos incentivam a escrever e eu sou cheia deles”, disse Ezter Liu, lembrando na sequência que, eno ano que vem, haverá um novo edital e que todos ali podem participar.

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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“Fiquei feliz pra caramba com o Prêmio, mas, principalmente, porque inspiro outras a também escreverem”, revelou a escritora

Ainda sobre a premiação e o fato de ter sido a primeira mulher a receber o Grande Prêmio, Ezter falou da importância desse momento. “Eu achava o livro muito pessoal. Só que quando ele nasce, já com a distribuição garantida, envolvido com projetos como o Outras Palavras, acaba se espalhando mais depressa. E logo depois tive o feedback de pessoas mais próximas, que se sentiram representadas e inspiradas a escrever”.

“Em 2012, uma das vencedoras desse Prêmio foi a escritora Rejane Paschoal. Mas eu achava que as mulheres e empoderadas estavam retidas, que precisavam mostrar seus materiais. A gente não pode reclamar de um lugar se a gente não se coloca nele. Fiquei feliz pra caramba com o Prêmio, mas, principalmente, porque inspiro outras a também escreverem”, revelou a escritora.

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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Além das perguntas que fizeram, os jovens pediram a Ezter diversos conselhos sobre como construir seus textos, desenvolver a criatividade e a escrita

Os jovens pediram a Ezter diversos conselhos sobre como construir seus textos, desenvolver a criatividade e a escrita. “As ideias estão no ar o tempo todo. É importante que vocês saiam do foco, do olhar comum, até porque habilidade e criatividade é uma coisa que todo mundo tem. Agora, é necessário, antes de qualquer coisa, ler bastante. Só assim vocês vão adquirir vocabulário e conhecer outras formas e possibilidades na hora de escrever seus textos”, opinou ela, que já tem outra obra no gatilho. “Tenho o próximo livro quase pronto, com a previsão de ser lançado no ano que vem. Mas não vou dar spoiler”.

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Jorge Riba enalteceu o samba como a identidade brasileira mundo afora

Jorge Riba, ao assumir a fala, não deixou nem a peteca nem o pandeiro caírem e prendeu a atenção da garotada com maestria. “Me criei no Morro da Conceição e no bairro de Rio Doce. No Morro, tem muito samba e candomblé. Dentro desse universo que fui me moldando, pelo viés da religiosidade e da arte. Minha avó me levava para os terreiros e eu ouvia a música sendo tocada também por grandes sambistas do meu bairro”.

Durante sua apresentação, Jorge Riba conta que ficou mais popular quando participou do programa Samba da Gamboa, de Diogo Nogueira, na TV Brasil, há uns quatro anos. “Na ocasião eu não toquei muito, mas fiz uma explanação sobre o samba de Pernambuco. A produção gostou muito, porque falei de nomes como Belo Xis, Wellington do Pandeiro e Paulo Perdigão, grandes nomes do nosso estado”, opinou o músicio, que já fez circulação pelo Brasil com incentivo do Funcultura.

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“Foi no MNU que tive acesso a diversos artistas africanos, como o Bonga, que mudaram meu conceito de ver a música. Me tornei músico dentro desse viés, um homem negro dentro de uma sociedade racista”, disse o sambista

Questionado sobre se já sofreu algum tipo de preconceito por ser negro, Jorge Riba contou que é um dos fundadores do Movimento Negro Unificado na década de 70. “Naquela época, até hoje, as lutas buscam igualdade social. É com essa proposta que o MNU surge. Foi lá que tive acesso a diversos artistas africanos, como o Bonga, que mudaram meu conceito de ver a música. Me tornei músico dentro desse viés, um homem negro dentro de uma sociedade racista”.

A aula sobre música embalou mais ainda quando Jorge Riba provocou os jovens a participarem de uma brincadeira. “Cada um de vocês é um instrumento, com som e reverberação única. O coração dá o ritmo da vida de vocês. Podem perceber que ao ouvirmos uma música mais agitada ele agita junto, assim como o inverso, quando escutamos uma canção mais calma. É dessa pulsação que vocês vão extrair suas músicas. Eu vejo nessa sala uma orquestra completa, com metais, pau e corda. E eu gostaria de tocar com ela”.

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No Outras Palavras é assim: quem faz pergunta também ganha um kit com vários livros pra levar pra casa

A turma foi dividida em três tons: grave, médio, e agudo. “Esses são os tons primários, de acordo com suas frequências”, explicou Jorge, mostrando com as mãos os gestos que faria relacionados a cada tom, como um maestro. Do lado da plateia, a garotada se divertia bastante com os sinais que o artista passava.

De acordo com Jorge Riba, o samba é a identidade brasileira e, musicalmente, o brasileiro é conhecido assim lá fora. “E graças ao samba pude rodar o País e conhecer outros quatro na Europa. Temos o mau costume de achar que tudo que vem de fora é melhor. Mas somos detentores de uma das culturas mais diversificadas do planeta. Peço a vocês, meus jovens e futuro dessa nação, que não a deixem morrer, porque foi com muito sangue e suor que chegamos onde estamos”, pediu Jorge Riba, que ao final da aula cantou com os alunos algumas músicas, dentre elas Não deixe o samba morrer, de Alcione.

Elimar Caranguejo/CulturaPE

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Ao final da aula, Jorge Riba puxou o tamborim e cantou com os alunos algumas músicas, dentre elas ‘Não deixe o samba morrer’, de Alcione.

1º Encontro de Balanço, Avaliação e Perspectivas do Outras Palavras – Na próxima quarta-feira (12), haverá uma edição de avaliação dos três anos do projeto da Secult-PE e Fundarpe no auditório do Centro de Artesanato de Pernambuco, no Marco Zero, com escritores, escritoras, Patrimônios Vivos, educadores e gestores. Em três anos, o projeto atingiu mais de 590 escolas, 17 mil estudantes e entregou mais de 6100 livros às bibliotecas por onde passou.

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