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Projeto Outras Palavras combina literatura e dança em Igarassu

Na última sexta-feira (19), a ação aconteceu na ETE Jurandir Bezerra Lins e contou com as participações do escritor Walter Cavalcanti Costa e do espetáculo de dança "Ascenso em Movimento", dirigido por Maria Paula Costa Rêgo e performado por Adoni Nascimento e Anne Costa.

Elimar Caranguejo

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O Outras Palavras no ETE Jurandir Bezerra Lins contou com o escritor Walter Cavalcanti Costa e o espetáculo “Ascenso em Movimento”

Por Camila Estephania

Coordenadora da biblioteca da ETE Jurandir Bezerra Lins, que fica em Igarassu, Sabrina Oliveira assistiu a uma vivência do Outras Palavras no Teatro Arraial, em junho deste ano, e se encantou com a projeto, que habitualmente acontece em escolas da rede pública do estado. Desde então, passou a articular com o gestor da instituição, Claudivan Claudino da Silva, uma data para receber o projeto, que é realizado pela Secult-PE/Fundarpe com o intuito de atrelar a cultura à educação dos estudantes da rede pública através de bate-papos com escritores, músicos, bailarinos, dentre outros artistas.

Na última sexta-feira (19), o tão aguardado dia em que o Outras Palavras iria para a ETE Jurandir Bezerra Lins finalmente chegou e foi recebido com as comemorações dos professores e a curiosidade de um auditório cheio de alunos ansiosos. “Para nós, é uma honra receber esse trabalho, que acrescenta de maneira muito qualificativa à educação dos alunos. A partir disso, eles podem fazer uma outra leitura do que é a obra de arte e transformá-la em algo melhor para sua própria construção enquanto cidadãos”, avaliou, o auxiliar de gestão, Luciano Trajano, como representante da instituição na ocasião.

Elimar Caranguejo

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Walter Cavalcanti Costa falou sobre o livro “O Velocista”, que venceu o 5º Prêmio Pernambuco de Literatura.

As expectativas foram correspondidas ao longo da tarde, que concretizou mais uma edição especial: além de trazer pela primeira vez o escritor Walter Cavalcanti Costa para o projeto, o dia também contou com o espetáculo de dança “Ascenso em Movimento”, dirigido por Maria Paula Costa Rêgo, contando com coreografias improvisadas de Anne Costa e Adoni Nascimento, tendo sido desenvolvido especialmente para a edição em questão do Outras Palavras.

Vencedor do 5º Prêmio Pernambuco de Literatura, Walter Cavalcanti Costa abriu a roda de conversa falando sobre o livro “O Velocista”, que o consagrou entre os campeões do concurso, que também é realizado pela Secult-PE/Fundarpe. “A ideia era escrever sobre um astronauta que viajava pelo espaço. Guardei esse material e fui escrever outras coisas, mas, com o tempo, senti necessidade de retomar esse roteiro inicial e reestruturar os fragmentos”, explicou ele, que, até agora, também já publicou outros dois livros, sendo eles “Entressafra 89” (2011) e o infantil “Marlinda” (2017), em co-autoria com Milca de Paula.

Questionado sobre o que achava do ensino da literatura nas escolas, o escritor defendeu que ainda era preciso mais leitura. Para reforçar essa importância, o autor também defendeu a leitura de determinados materiais como fonte de compreensão de sua obra:“Todos os livros pertencem, de alguma forma, à alguma tradição. Já na sinopse de ‘O velocista’, por exemplo, eu digo que trabalho com Futurismo europeu, com o Modernismo brasileiro, com o Concretismo. Você identifica tudo isso lendo, mas a literatura que se estuda no Brasil se dedica mais a estudar as características das correntes e não se lê literatura”, observou ele, que é doutorando em teoria da literatura e também é professor na área.

Elimar Caranguejo

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Os alunos tiraram dúvidas sobre o universo da literatura e da dança.

O autor também encorajou os alunos a enfrentar as críticas e seguir fazendo aquilo que eles acreditavam. “Ser escritor no Brasil é complicado. Principalmente se você não escreve um tipo de leitura fácil. O tipo de livro que faço sofre alguma resistência até dentro da comunidade de escritores, mas isso é consequência da má formação dos leitores para a recepção da prosa no modernismo brasileiro. Recebi críticas tanto positivas quanto negativas, porque é um livro todo pautado em leituras. Esse momento da leitura é quando a obra ganha vida, porque os leitores ampliam o que eu escrevi, mas tem gente que só quer buscar defeito. É preciso saber escutar só quem precisa escutado”, defendeu ele.

Em resposta a um aluno que quis saber qual era o tipo de texto mais fácil de escrever, Walter disse: “acho que o primeiro ponto que a gente deve se perguntar não é o que é mais fácil, mas se a gente não está fazendo mais do mesmo. Ultimamente, tenho focado mais na prosa, por isso, tem sido mais fácil, mas já foi a poesia. Porém, acredito que o que é mais procurado é a prosa. Ela está bem em alta e é bem difícil de ser escrita de uma forma diferente do que já foi escrito”, analisou ele.

Elimar Caranguejo

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O espetáculo “Ascenso em Movimento” foi aplaudido pelos alunos.

Na sequência, o espetáculo “Ascenso em Movimento” foi encenado combinando cinema, dança, música e literatura. Durante a obra, os bailarinos Anne Costa e Adoni Nascimento improvisaram uma coreografia ao som da musicalidade da poesia de Ascenso Ferreira, usada para os diálogos do curta-metragem “Incenso” (2005. Marco Hanois), que foi exibido em sobreposição à performance dos artistas, que trouxeram na corporalidade vários movimentos da nossa cultura popular.

“Ascenso tem um ritmo que nos fez dispensar uma trilha sonora, a própria poesia dele já é a música. Temos como base a improvisação e como técnica as brincadeiras populares. Pensei assim, porque gosto de peças que tem muita improvisação e dá autonomia para o bailarino”, explicou a diretora Maria Paula Costa Rêgo, que também é Assessora de Dança na Fundarpe. “Adoni veio das brincadeiras de Mestre Salustiano e quando eu o via sempre achava ele muito rico, por isso, o chamei pra dançar no grupo Grial, onde ele passou dez anos. Anne, que tem uma história também trabalhou comigo por lá. Pra mim, é muito fácil trabalhar com quem tem essa liberdade de corpo, por isso chamei os dois para esse trabalho de hoje”, continuou ela.

Elimar Caranguejo

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Coordenadora de Dança da Fundarpe, a bailarina Maria Paula Costa Rêgo dirigiu o espetáculo.

Com passos de maracatu, cavalo marinho, frevo, afoxé, dentre outros elementos da cultura popular misturados à dança contemporânea, os bailarinos arrancaram aplausos dos alunos, que quiseram saber mais sobre a dança do Estado. “Pernambuco é muito original, tem toda essa misturas das brincadeiras populares e ainda é muito técnico. Só a gente tem isso. Todo mundo que dança e vai para os festivais acha que Pernambuco é único, porque os grupos daqui são muito específicos”, comentou Maria Paula.

Interessados em saber quais passos seguir para entrar na área, os estudantes perguntaram como o trio começou a trabalhar com a linguagem. “Comecei a dançar quando tinha quase 15 anos. Antes, dançava em casa Madonna, Spice Girls. Foi o que construiu o meu prazer com a dança. Não há artistas na minhas família e meus pais viviam dizendo que eu deveria estudar outras coisas, mas persisiti nisso e hoje vivo de dança. Desde 2001, nunca parei”, disse Anne, que trabalha em quatro grupos de dança, encorajando os estudantes. “Assumam o compromisso com o que vocês gostam e vão adiante. Se juntem com quem faz dança ou outras coisas que vocês gostem e as portas vão se abrindo. O mundo vai ter respondendo como seguir”, completou Maria Paula.

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Os bailarinos Adoni Nascimento e Anne Costa falaram sobre suas trajetórias na dança.

Adoni também foi questionado se ele sofria preconceito por trabalhar com dança, que costuma ser uma linguagem mais associada às mulheres. “Eu queria ser baterista, mas meu pai, que é músico, queria eu me dedicasse à guitarra. Aí resolvi que não seria nenhum dos dois e fui pra dança. Meu pai teve preconceito no início, mas quando me assistiu no teatro veio falar comigo emocionado depois. Isso não tem nada a ver com orientação sexual. Temos que nos focar e se especializar no que nos dá prazer e eu sou muito feliz com a minha profissão, porque com ela acho que consigo dialogar com qualquer pessoa”, respondeu o bailarino, que é pai de quatro filhos.

Ao responder sobre o que é dança, Maria Paula falou sobre o estudo artístico. “É uma linguagem e tem suas bases. Dança, para mim, é a junção de tempo, espaço e corpo. Você tem que aprender isso, é um estudo de como você combina isso no seu corpo. Eu estou conversando com você sobre algo e crio um movimento a partir disso, isso é dança”, concluiu ela.

 

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