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‘Outras Palavras’ levou bate-papo literário e o Som na Rural para escola em Paulista

Projeto da Secult-PE e Fundarpe segue enriquecendo o ambiente escolar por meio de ações integradas de cultura e educação

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Atividade aconteceu ao melhor estilo do Som na Rural, com a ocupação do espaço público de uma forma mais dinâmica e participativa

Marcus Iglesias

Pela primeira vez, o Som na Rural, um dos projetos de difusão da cultura pernambucana mais atuantes do estado, participou de uma edição do Outras Palavras, iniciativa da Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe que tem a preocupação de levar cultura e arte pra dentro do ambiente escolar. A participação aconteceu nesta última quinta-feira (23), no EREM Professor Arnaldo Leão, em Maranguape, bairro no município de Paulista e território imortalizado em um canção do falecido músico Erasto Vasconcelos. Além do Som na Rural, o escritor Camillo José, vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro A Dakimatura Flutuante, conversou com os estudantes que participaram da ação.

A edição do Outras Palavras costuma também levar cinema pra dentro da sala de aula e começou com a exibição de dois curtas. Um deles foi o primeiro episódio da segunda temporada do Pasárgada.doc, iniciativa da Coordenadoria de Literatura da Secult-PE, com a jovem poeta pernambucana Joy Carlu. O outro é o A Hora da Saída produzido por alunos da Escola Estadual Santa Paula Frassineti, durante o curso de iniciação ao audiovisual do projeto Cine Cabeça, com direção de Cynara Santos e Gabriela Freitas e roteiro de Lucas Cintra e Vitor Vinícius.

Em seguida, os alunos foram convidados a ir para a quadra da escola, onde estava estacionada a famosa e ornamentada Rural. Produzido por Nilton Pereira e Roger de Renor, o Som na Rural já circulou por várias cidades do estado e regiões do país, sempre promovendo a música de Pernambuco. Por onde ela passa, chama atenção com suas cores e até pelo próprio legado que construiu nos últimos anos – além dos próprios eventos que produziu, teve programa de rádio e TV. É tanto reconhecimento espontâneo que muita gente do bairro espiava por cima do muro pra ver o que estava acontecendo. “É legal demais ver o Roger de Renor, que foi tão envolvido com o movimento Manguebeat, aqui na minha comunidade”, disse emocionado Rogério Alves, um dos jovens que estavam em cima do muro da escola.

Momentos antes da atividade começar, enquanto os alunos se posicionavam na quadra da escola, Roger botou pra garotada ouvir Ottomatopeia, o disco mais recente de Otto. “É uma oportunidade pra garotada conhecer um pouco das coisas novas e legais que tão acontecendo fora dessa mídia convencional”, explica Renor.

Já mais bem à vontade, a garotada preferiu sentar mais perto da Rural pra prestar atenção na conversa que ia rolar. “É legal isso de sentar no chão, é uma coisa que a gente faz nas ruas, que é a reocupação do espaço público de uma forma dinâmica e participativa. Vai ser bem interessante fazer isso agora dentro da escola”, comemorou Roger.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Os alunos preferiram sentar perto da Rural pra acompanhar de perto a conversa e também tirar suas dúvidas sobre a produção literária de Camillo José

“O papo aqui não vai ser careta não, Camillo José é mais antenado do que muita gente mais jovem que ele. E olhe que ele só tem 24 anos. Vocês vão poder trocar ideias com um cara que tá nas ruas e na internet como vocês. Um papo que todo mundo participa. E se fosse careta eu nem estava aqui, porque eu detesto essas coisas, mas a gente vem pra escola porque isso aqui é muito sério e importante”, disse o produtor.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Mediado por Roger de Renor, o papo com Camillo José foi sobre sua escolha como escritor, suas influências e sua atuação nas plataformas digitais

Roger aproveitou para perguntar a Camillo o que o incomodava, como jovem escritor, dentro da produção literária. “Eu estava um dia desses num evento pra ler poesia e uma velha guarda de poetas veio me dizer que na internet as informações eram muito soltas, se perdiam, e que por isso não dava pra trabalhar nessa plataforma. Eu fiquei muito irritado, porque as pessoas em geral subestimam a juventude. Elas acham que pra você ter propriedade pra falar de determinado assunto tem que ter mais de 30 anos, e isso é ridículo. A internet aproxima o leitor do escritor. Você pode até não estar lendo alguma obra específica, mas acompanha de perto o que o autor está fazendo, se quiser”, opinou Camillo.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

“A internet aproxima o leitor do escritor. Você pode até não estar lendo alguma obra específica, mas acompanha de perto o que o autor está fazendo, se quiser”, opina Camillo José

“A questão dos memes, por exemplo, é algo bastante engraçado e que viraliza fácil, mas que também tem uma sacada muito inteligente. Dia desses vi um vídeo de uma criança fugindo de uma galinha com a música de abertura do desenho Naruto. Achei muito interesse, isso é ressignifcar a arte, dar novos olhares pras coisas”, completou o escritor.

O microfone então foi aberto pra garotada tirar suas dúvidas e poder conversar com Camillo. “Não faz muito tempo que Camillo estava sentado no mesmo lugar de vocês e não tinha algum escritor que se dispusesse a vir trocar essa ideia. Essa é a hora de vocês perguntarem alguma curiosidade a ele”, disse Roger, pra receber a primeira de muitas. “Queria saber como foi que você começou a escrever e que dica dá pra quem está começando”, perguntou Maria Alice, de 16 anos.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Vários estudantes participaram da atividade com perguntas e indagações sobre a produção literária do escritor convidado

“Essa é uma pergunta que costumo muito ouvir nas escolas e digo que quando comecei a escrever foi com uma intenção besta. Não existia internet e uma forma de se declarar para as pessoas era através de cartinhas, e eu fazia muito isso. Depois comecei a ter novas percepções sobre o texto, que não necessariamente precisaria escrever para alguém específico, mas sobre uma personagem fictícia ou até mesmo um lugar”, revelou. “Sugiro que você enxergue em si algo legal e enxergue isso também nos outros, a sensibilidade de ter empatia é algo muito importante na arte”, respondeu Camillo.

A estudante Karla Silva, do 2º ano, quis saber o que jovem escritor achava de quem cresceu lendo literaturas fantásticas, como Harry Potter, de J. K. Rowling. “Criticam muito a geração que cresceu lendo essa série, por exemplo, como se essa fosse uma literatura lixo. Mas toda a geração que leu aqueles livros construiu, na sua vida, uma mitologia e uma moral, e com certeza carrega esses símbolos até hoje. Tiveram outras que foram formadas na literatura através de filmes, da música e até videogames. Os jogos em geral contam com um enredo e uma historia embutida, que faz você viajar neles”, comentou Camillo José.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Ao término da conversa, Camillo leu uma de suas poesias presentes no livro A Dakimatura Flutuante, vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura

“Por causa do videogame, por exemplo, aprendi a falar inglês, porque precisava traduzir o que os diálogos dos personagens diziam. Quando coloquei trechos em inglês no meu livro muita gente veio dizer que isso era uma atitude elitista. Eu vejo com outro ponto de vista, a ideia é estimular que as pessoas encarem isso como um caça ao tesouro, que busquem na internet a complementação daquela informação”, instigou o escritor.

Quando a ação chegou ao fim, Roger colocou nas vitrolas a música Maranguape, do conterrâneo do EREM Professor Arnaldo Leão, o músico Erasto Vasconcelos, uma homenagem a um dos artistas mais importantes das últimas décadas em Pernambuco. “Esse cara que vocês estão ouvindo era conhecido no mundo inteiro, e não apenas porque era irmão de Naná Vasconcelos, mas porque desenvolveu e construiu um trabalho com a música muito inspirador pra muita gente, inclusive a galera do Manguebeat das Olinda”, explicou Roger, enquanto a galera curtia a música e entoava os famosos versos da canção.

 

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