Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Fundarpe

Outras Palavras para falar de democracia e cultura no Recife

Projeto levou até um colégio no bairro de Água Fria a cirandeira Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo de Pernambuco, e o escritor Urariano Mota

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Um dos convidados desta edição foi o escritor Urariano Mota, que já participou de outra edição do projeto

Marcus Iglesias

A tarde desta última quarta-feira (7) foi de reencontros saudosos e de muita emoção na Escola Professor Alfredo Freyre, localizada no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife. Durante mais uma edição do projeto Outras Palavras, que contou com a presença de dezenas de estudantes da própria escola e de outras quatro da região, a expectativa já era grande com a presença confirmada de Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo de Pernambuco. Mas a surpresa mesmo ficou por conta da presença do escritor e também convidado Urariano Mota, que foi chamado para compartilhar com os alunos da escola sua trajetória na vida literária. É que o autor do livro Soledad no Recife, vencedor de diversos prêmios da literatura brasileira, estudou na infância naquela mesma escola. Não só foi aluno do Alfredo Freyre, como reconhece naquela instituição um marco na sua formação como cidadão.

Veterano do projeto Outras Palavras, Urariano Mota se apresentou dessa vez como um filho de Água Fria. “O Recife começou pra mim neste bairro, o mundo começou pra mim aqui. Quando a Fundarpe me convidou para vir pra cá, eles não sabiam da minha ligação com o Alfredo Freyre. Fui aluno dessa escola e ela esteve na minha formação nos momentos mais fundamentais da minha vida. O livro de minha autoria Dicionário Amoroso do Recife, que deixarei na biblioteca da escola, tem dois verbetes onde aparece o nome desse colégio. Um na letra C, com o Colégio Alfredo Freyre, e outro na letra P, com o Professor Arlindo Albuquerque, que foi um mestre de pessoas que tivemos aqui, um formador de pessoas, um formador de almas”, relembra o escritor.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

A surpresa da edição foi quando Urariano Mota contou aos presentes que na sua infância havia estudo na Escola Alfreido Freyre, em Água Fria

Várias vezes o autor fez referências ao professor Arlindo Albuquerque, a quem chama de mestre e grande humanista. “Dizia-se que ele ensinava português e francês pra gente, mas ele ensinava era cidadania. Os livros de francês que era adotava eram livros de Jean Jacques Rousseau e outros autores importantes. Uma das lições que ele me deu carrego comigo até hoje. Após ler um texto meu no qual eu descrevia o pôr do sol no sertão, e era uma coisa tipicamente de José Alencar, aquelas frases derramadas, e fez uma anotação que dizia: ‘Urariano, seja mais pessoal’. Hoje eu compreendo o que ele quis dizer. Ele apenas queria me incentivar que eu fosse eu mesmo”.

“Atualmente vejo na minha escrita que eu tenho sido educador. Acho que o escrito que tem o mínimo de respeito pelo leitor, pelo povo, ele tem que ser educador. Ainda mais nesses tempos miseráveis que vivemos . Eu vivi aqui no Alfredo Freyre o período da ditadura militar. E hoje nós estamos vivendo uma recuperação dessa época no pior sentido”, opina o escritor. Segundo ele, sua estreia como romancista foi com o livro Os Corações Futuristas, que fala sobrea formação de jovens no Recife durante a ditadura. “Depois eu parto pra Soledad no Recife. E esse livro conta um trauma de juventude nosso. Corria o ano de janeiro de 1973 quando foram assassinados seis militantes socialistas aqui no Recife. E um deles era amigo meu, Jarbas Marques. Entre os assassinados estavam Soledad Barret, que os jornais pintaram como uma terrorista que andava desencaminhando jovens, quando ela própria era uma jovem de 27 ou 28 anos. No dia que o livro foi lançado aqui no Recife, que eu vi num programa de TV a capa dele sendo projetada na tela, eu pensei: O que era terror na nossa juventude hoje é um lançamento literário. Isso era inimaginável”. O livro Soledad no Recife também inspirou a montagem do espetáculo Soledad – A terra é fogo sob nossos pés, monólogo da atriz Hilda Torres.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

O autor aproveitou para ler, na ocasião, um trecho do livro Dicionário Amoroso do Recife, no qual homenageiam o Colégio Alfredo Freyre

Urariano Mota aproveitou o momento para compartilhar com os alunos algumas dicas de como aperfeiçoar o fazer literário, mas ressaltou que a prática é a melhor de todas. “Hoje eu não leio simplesmente por ler. Eu leio estudando. Procurando entender a narrativa, a construção do texto, como o autor fez aqueles diálogos. Quando era mais jovem não tinha maturidade pra escrever sobre minha angustia. Mas também não esperei que o Espírito Santo me iluminasse. Escrevia e escrevia e escrevia. Mostrava às pessoas, pedia opiniões. Uma vez levei um conto para o Hermilo Borba Filho ler, queria enviar pro Jornal Movimento, e fiz isso porque ele era uma referência na época. Deixei o conto debaixo da porta e fui embora. Depois liguei e perguntei se ele havia lido, e para minha surpresa ele me pediu pra redigir novamente o texto, tirar os erros da datilografia, e levasse ao jornal dizendo que ele mandou publicar”.

Uma das alunas presentes nesta edição do Outras Palavras, a estudante do 1º ano Suzana Silva, de 15 anos, perguntou a Urariano o que ele achava que faltava atualmente na literatura brasileira. “Eu não sou competente pra dizer o que falta e o que deve melhorar, e desconfio que ninguém tenha essa competência. Sempre desconfie da autoridade que chega a você ditando regras. A arte literária é feita como o amor. De que maneira se faz o amor? De todas as maneiras. O que eu posso dizer é do que não me satisfaz. Por exemplo, hoje há seguramente uma ausência da pessoa humana nos textos literários, e isso me desagrada bastante”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

A edição desta quarta (7) do Outras Palavras contou com uma apresentação sobre o maracatu feita por estudantes da escola

O auditório lotado também aguardava com ansiedade a apresentação de Lia de Itamaracá, mestra cirandeira reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco e que já participou de outras edições do projeto. A estudante do primeiro ano Nycolle Wellen, de 16 anos, era uma das que contava os minutos pra que chegasse a hora. Momentos antes da conversa com o escritor Urariano Mota, Nycolle participou com muita animação e ao lado de outros dez alunos de uma apresentação sobre o maracatu. A| ideia surgiu dentro de um projeto de dança da escola.

“Cada turma ficou com uma tema e nós do 1º ano ficamos com o da cultura popular. Quem sabia tocar alguma coisa ensinou a quem não sabia e nessa brincadeira dezenas de estudantes participaram da oficina, alguns até de outras escolas. Deu tão certo que vamos começar aqui no Alfredo Freire um projeto de oficina para ensinar quem quiser aprender a tocar instrumentos da cultura popular pernambucana”, explica a estudante, que conhece o trabalho de Lia por causa da mãe. “Eu escuto desde pequena em casa, porque minha mãe adora cultura popular e dançar ciranda, além de fazer todo ano fantasias pro Baile Municipal do Recife. É uma coisa de família mesmo. Quando soube que ela viria aqui pra escola fiquei muito feliz”, revela Nycolle Wellen.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Antes de começar a apresentação, Lia de Itamaracá falou sobre sua história e trabalho com a cultura popular como mestra ciranceira

Lia de Itamaracá subiu ao palco acompanhada de outros quatro músicos e antes de cantar suas canções mais conhecidas, como Essa Ciranda é Minha, Mamãe Oxum, Ciranda de Lia e Quem me deu foi Lia, ela destacou a importância do contato com a juventude. “Já estou acostumada a fazer apresentações em escolas, dar palestras e brincar com as crianças. Acho que a gente tem que fazer isso mesmo, entrar na sala de aula e dar aos jovens a oportunidade de conhecer a cultura de raiz. Existem por ai crianças que estão envolvidas com brincadeiras que não tem nada a ver com a sua história, e isso desparafusa o juízo delas. O que a gente deve fazer pra combater isso é trazer eles pra mais perto da nossa cultura”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

“Acho que a gente tem que fazer isso mesmo, entrar na sala de aula e dar aos jovens a oportunidade de conhecer a cultura de raiz”, opina Lia de Itamaracá

Para Antonieta Trindade, idealizadora do projeto que desde 2015 já atingiu 376 escolas, 6.757 estudantes e doou ao todo 4.189 livros, essas falas mostram o significado importante que há no Outras Palavras. “Primeiro porque com ele buscamos assegurar a toda a juventude das escolas públicas estaduais o direito ao acesso ao conhecimento mais amplo possível. Principalmente nesse momento no qual uma parcela enorme de direitos que conquistamos, tanto na educação como em outros setores, estão ameaçados. É preciso dominar a língua portuguesa, a matemática, e outros assuntos da grade curricular, mas também é preciso conhecer melhor nossos patrimônios culturais”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Confira abaixo um trecho de um dos verbetes do Dicionário Amoroso do Recife, de autoria de Urariano Mota, que homenageia o Colégio Alfredo Freyre:

“Penso que era do espírito do lugar e do tempo. Naqueles anos de agitação política no Recife, na onda, no mar da discussão de ideias, na tradição cultural do bairro de Água Fria, que vinha dos terreiros de xangô, como o de Pai Adão, a barbeiros filósofos, comunistas, como Luiz Beltrão, que era um popular cultivador de livros e da língua inglesa, creio que dessa reunião nasceu a gente que povoou de humanidade o Colégio Alfredo Freyre. Aquela contrafação arquitetônica se fez um espaço de formação de caráter. Se houver em algum país uma academia de anônimos, de notáveis anônimos, de homens e mulheres que ninguém conhece, mas que viveram uma vida exemplar, digna de uma antologia de heróis sem rostos gravados, haverá um educandário semelhante ou igual ao Colégio Professor Alfredo Freyre. A memória sobe e revela, e se revolta contra a síntese omissa de um verbete. Para nada falar de Jussara, Nazirdes, Walter, Spinelli, Arlindo, Zanoni, e de Solange, a primeira vedete, pelo que nela viam os adolescentes, Solange, a vede recatada, mas de coxas vistas pelos meninos que não podiam ir ao Teatro Marrocos, para nada falar dos destinos imortais não sabidos, falo do professor Arlindo, o mestre Arlindo, o fundador de homens e mulheres para todo o sempre. Ali, no Alfredo Freyre”.

< voltar para home