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Outras Palavras para falar sobre poesia, Manguebeat e cantoria popular

Edição em Orobó, nesta terça-feira (22), teve a presença do escritor Carlos Gomes e do cantador Adiel Luna, marcando a passagem do projeto por 40 cidades pernambucanas

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Em Orobó o Outras Palavras completou a marca de 40 cidades alcançadas. De 2015 pra cá, o projeto atingiu mais de 510 escolas, interagiu com mais de 12 mil alunos e deixou nas bibliotecas das instituições de ensino por onde passou mais de 5.100 livros

Por Marcus Iglesias

Logo na entrada da Escola Estadual Profª Rita Maria, em Orobó, no Agreste pernambucano, o escritor Carlos Gomes e o cantador e repentista Adiel Luna deram de cara com uma surpresa das boas. Estudantes e professores da escola os esperavam na última terça-feira (22) com abraços, chocolates e sorrisos nos rostos, a forma que escolheram para agradecer a ida dos artistas pernambucanos até seu município dentro do projeto Outras Palavras. Sabiam que aquela tarde seria diferente porque a educação ganharia um toque especial, artístico, um momento de reflexão importante para jovens estudantes da rede pública estadual de ensino.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“Alguns municípios nós já fomos mais de uma vez, mas a nossa meta é chegar a todas as microrregiões do estado. Ao todo, são doze, e faltam apenas três delas para completarmos Pernambuco inteiro”, comemorou Marcos Henrique Lopez, da equipe do Outras Palavras

“A gente também está muito feliz com essa recepção porque aqui em Orobó o Outras Palavras completa a marca de 40 cidades alcançadas. Alguns municípios nós já fomos mais de uma vez, mas a nossa meta é chegar a todas as microrregiões do estado. Ao todo, são doze, e faltam apenas três delas para completarmos Pernambuco inteiro”, comemorou Marcos Henrique Lopez, da equipe do projeto, que de 2015 pra cá atingiu mais de 510 escolas, interagiu com mais de 12 mil alunos e deixou nas bibliotecas das instituições de ensino por onde passou mais de 5.100 livros.

As surpresas para os dois artistas não haviam acabado na entrada da escola. No início da atividade, a estudante Taynara, do 3º ano, cantou uma toada com versos que homenageavam Chico Science e o Manguebeat, abrindo os caminhos para o que viria em seguida, quando o grupo de dança Profª Rita Maria, formado por oito alunas da escola, apresentou uma coreografia baseada na música Forró Bom, de Adiel Luna, sob a orientação da professora Emília.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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A atividade começou com a estudante Taynara, do 3º ano, cantando uma toada com versos que homenageavam Chico Science e o Manguebeat

Estudante de escola pública na infância, Carlos Gomes foi o primeiro a conversar com os alunos. Atualmente ele trabalha como professor de Português e Literatura numa escola técnica do Recife. É também editor e fundador do blog de crítica de arte Outros Críticos, que posteriormente se transformou numa revista impressa e completa em 2018 seus dez anos de estrada; e é autor de dois livros: O de poesias êxodo,, vencedor do 3º Prêmio Pernambuco de Literatura, e o Canções Iluminadas de Sol, lançado este ano, que faz uma análise sobre os pontos em comum entre dois movimentos musicais brasileiros, a Tropicália, na Bahia, e o Manguebeat, em Pernambuco.

Dentro do auditório onde aconteceu a atividade havia um painel com uma dezena de perguntas escritas por estudantes do 3º ano sobre a pesquisa que Carlos Gomes desenvolveu no seu mais recente livro. “Como você avalia o Movimento Manguebeat hoje, 20 anos depois, e qual a sua importância para a música brasileira?”, ou “Uma das maiores características do Manguebeat é a crítica social. E o cenário político atual? Dá pra fazer política com música?” eram algumas delas.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Dentre outras atividades que acumula, Carlos Gomes é editor e fundador do blog de crítica de arte Outros Críticos, que posteriormente se transformou numa revista impressa e completa em 2018 seus dez anos de estrada

Ao dar início à sua fala, Carlos Gomes convidou uma aluna para recitar um dos poemas do livro êxodo,, ao seu lado, mostrando na prática a experiência que faz nos seus textos. “Quando eu comecei a fazer o poema, e eu falava de êxodo, de estrada, e comecei a pensar nas suas margens. Cada margem é uma estrofe, e as duas unidas se transformam na estrada em si”, explicou o autor, reforçando que lendo o livro a ideia fica mais clara de se entender.

Ao tratar de Canções Iluminadas de Sol, lançado este ano, ele fez uma análise sobre os pontos em comum entre dois movimentos musicais brasileiros, a Tropicália, na Bahia, e o Manguebeat, em Pernambuco. Para isso, apresentou duas músicas: Coco Dub, de Chico Science e Nação Zumbi; e Bat Macumba, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Minha ideia no livro é encontrar a intercessão entre os dois movimentos. Na primeira música, você tem o experimento da ressonância da guitarra, numa sensação de circularidade, com o som do coco, que também traz essa impressão. Já no segundo caso, a brincadeira de misturar as palavras Batman, um ícone da cultura pop dos gibis que explodia na época, e Macumba, que representa uma cultura, uma sonoridade, já é um tipo de reflexão e crítica sobre a sociedade que está se construindo”, reflete o autor.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Carlos também é autor de dois livros: O de poesias ‘êxodo,’, vencedor do 3º Prêmio Pernambuco de Literatura, e o ‘Canções Iluminadas de Sol’, lançado este ano

“Para os tropicalistas, a crítica estava na forma e no conteúdo, e no Manguebeat havia a crítica em relação ao ambiente das cidades, espaços urbanos, e na sonoridade também, quando ele coloca a música de raiz, da cultura popular, num espaço de vanguarda”, pontua Carlos Gomes, respondendo ainda a diversas outras questões sobre o Manguebeat que os alunos faziam.

Em seguida foi a vez dele que é um dos participantes de longas datas do Outras Palavras, o cantador e repentista Adiel Luna, tomar a palavra. Ele já passou por vários cantos do Brasil levando sua cantoria de viola, mas revela que é no ambiente escolar que se encontra como artista-cidadão. “Respondendo a uma das perguntas do quadro, eu não acredito em intervenção política acerca da educação se a cultura não andar junto. Hoje minha cultura é meu ganha-pão, é como sustento minha família. O que eu faço meu pai, meu avô e minha bisavó já faziam. A diferença é que hoje a gente tem uma atenção maior por conta de políticas públicas como essa que estamos vivenciando agora”, opinou.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“Eu não acredito em intervenção política acerca da educação se a cultura não andar junto”, disse o cantador Adiel Luna aos estudantes

Falando para um público do Agreste pernambucano, ele contou como foi a sua chegada em São Lourenço da Mata, na sua adolescência. “Quando eu tinha a idade de vocês fui morar na Região Metropolitana do Recife, e na época eu me vestia, segundo eles, de uma forma antiquada. Vocês podem imaginar o tipo de brincadeira de mau gosto que eu ouvia, e isso me fez desacreditar várias vezes da minha origem. Hoje em dia todo alternativo do Recife tem uma alpercata e uma bota, mas na época eu sofri bastante preconceito por ser como eu era”, disse Adiel Luna, para em seguida puxar toadas do cancioneiro popular como Ajoelha e Mulher ingrata e fingida, cantados em coro pelos estudantes no auditório. Depois convidou a estudante Taynara a soltar a voz novamente, desta vez ao seu lado, com a canção Boi Cigano.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Num dos momentos da sua apresentação, Adiel Luna convidou a estudante Taynara para cantar mais uma vez

“Pernambuco é um dos lugares que mais recebe turistas no mundo todo, e o mundo vem pra cá é pra conhecer nossa ciranda, nossos cantadores e o coco de roda, entre outras coisas. A gente precisa enaltecer nossa cultura porque assim vamos enaltecer a nós mesmos. Essas toadas são coisas da gente, é uma herança que vem bem de antes. Não vamos perder a nossa essência, porque sempre que a gente a segue coisas boas acontecem“, concluiu o cantador, que tem três discos lançados: Coco Camará (2010), Onde As Violas Se Encontram (2013) e Baionada (2015).

Esta edição do Outras Palavras em Orobó contou também com a presença de uma representante da Associação de Artesãs de Orobó, com peças de frivolité, uma das tradições da cidade, além de estudantes de outras quatro escolas da região: Escola Municipal Leonardo Pimentel; Escola Municipal Paulo Freire; Escola Estadual Antônio Prado; e Escola Estadual Abílio Barbosa.

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