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“Outras Palavras” para o empoderamento feminino

Edição teve a presença da poetisa Cida Pedrosa e da atriz Daniela Câmara e foi realizada no Ginásio Pernambucano, no centro do Recife

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Cida Pedrosa, que já participou de outras edições do Outras Palavras, é poetisa, escritora e secretária da Mulher do Recife

Por Marcus Iglesias

O Ginásio Pernambucano, no centro do Recife, foi cenário de uma edição do Outras Palavras feita com uma programação voltada principalmente para refletir sobre empoderamento e afirmação da mulher na sociedade. A edição, realizada na terça-feira (20), contou também com tradução em libras para alguns estudantes e teve um debate muito rico sobre a vida e obra da poetisa Cida Pedrosa, secretária da Mulher do Recife, que conversou de perto com as alunas e alunos sobre seu trabalho direcionado ao feminino.

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A professora Antonieta, gestora do Outras Palavras, lembrou que o projeto já esteve em quase 500 escolas estaduais, levando escritoras e escritores premiados, e mestres da cultura popular para dentro do ambiente escolar

Para Antonieta Trindade, professora e gestora do projeto, o fato que aconteceu com a vereadora do Rio de Janeiro é resultado da violência contra a mulher, do machismo e do racismo. “E num ambiente como esse, o que a gente faz? A gente resiste! E a cultura aponta para este caminho, porque estimula o senso crítico de vocês”, explicou.

“É esse o nosso objetivo. Por isso, trouxemos Cida Pedrosa para conversar sobre sua obra e como é necessário batalhar pra chegar aonde ela chegou. E também trouxemos Daniela Câmara, atriz, que já fez várias encenações pela cidade. Esperamos que vocês aproveitem essa oportunidade”, disse Antonieta, lembrando que o Outras Palavras já esteve em quase 500 escolas estaduais, levando escritoras e escritores premiados, e mestres da cultura popular para dentro do ambiente escolar.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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A edição contou também com uma performance de seis estudantes do 3º ano da escola, que declamaram poesias de Cida Pedrosa

Antes de começar sua fala, Cida Pedrosa foi surpreendida por seis alunas, com máscaras feitas com o rosto da poetisa, que entraram no auditório e declamaram seis poesias de autoria de Cida, um deles, intitulado O Abraço. A poetisa ficou boquiaberta durante toda a encenação, com olhos marejados, e contou depois que se emocionou muito com essa em especial, porque foi uma poesia feita para uma ente querida que havia falecido.

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Pega de surpresa, Cida Pedrosa ficou bastante emocionada com a apresentação

Maria Helena, uma das alunas que participou da encenação, revelou que foi uma experiência muito emocionante para ela porque ela já escreve e gosta de ler para algumas pessoas. “Mas ali, na hora, na frente da escritora, fiquei muito nervosa. Nunca vivi uma coisa assim na vida”, disse, ainda em êxtase com a vivência. Além da Maria Helena, as outras estudantes também disseram que nunca tinham feito algo parecido antes, e estavam muito animadas.

Cida, como boa sertaneja, tratou de contextualizar aos jovens de onde veio, sua terra Bodocó, que tanto inspira sua obra – reflexo por exemplo, observado no livro Claranã, uma homenagem à sua cidade natal. Depois, como militante que é, entrou no seu assunto, talvez, mais preferido, seja pela vocação ou pela luta, no sentido mais verbal da palavra.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Durante a conversa, falou de suas obras, como Claranã, dedicada à sua terra-natal (Bodocó), e o livro de contos As Filhas de Lilith, sobre o qual discorreu por mais tempo

“Todo o mundo passou por uma construção sob o ponto de vista de homens, e isso faz com que a gente olhe para o universo a partir dessa ótica. A gente apagou da nossa história a figura das deusas. Eu estou aqui apenas fazendo um questionamento político, porque sou uma mulher que penso sobre mulheres, e minha obra inteira perpassa por isso”, contextualizou, antes de falar sobre um de seus livros, o de contos As Filhas de Lilith, provavelmente o mais conhecido pelo público.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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De acordo com Cida Pedrosa, existem escritos aramaicos de mais de 1.500 anos que reforçam a tese de que existia uma outra mulher no Paraíso, criada do barro igual ao homem, e que se chamava Lilith

“Alguém sabe quem é essa personagem?”, provocou a autora, para receber em seguida as respostas dos alunos. “Na versão judaica ela é considerada um demônio feminino”, disse um dos jovens. Em seguida, uma aluna pediu a fala e deu a sua opinião. “Ela foi a primeira mulher que Deus criou e eu li que ela não foi escolhida, como Eva, porque não aceitava ser metade do homem. E hoje ela é vista assim, como um demônio feminino”.

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Segundo Cida Pedrosa, Lilith é entregue com essa dualidade. “Existem escritos aramaicos de mais de 1.500 anos, encontrados quando fazem escavações, que davam conta que existia uma mulher além de Eva no Paraíso, criada do barro igual ao homem e que se chamava Lilith. E por conta disso ela é autônoma, e não aceitava ser metade, como a amiga disse. Assim, ela foi expulsa do paraíso. Nesses textos encontrados, por exemplo, há escritos que dizem assim: ‘Adão, porque estás em cima de mim se és tão pesado’. Ou seja, uma mulher que questiona o ato sexual do homem estar sempre por cima. E isso não sou eu quem diz, são textos milenares que contam essa história”, detalha a escritora.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Entre as conversas, Cida Pedrosa aproveitava para ler algumas de duas poesias, como Diana, presente no livro As Filhas de Lilith

Um dos assuntos que mais a incomoda, disse Cida, é a tirania do corpo, “o que é algo profundamente machista, porque você vê o homem com aquela barriga proeminente, se achando lindo, dizendo para a mulher está feia porque está com os peitos arriados”, brincou, arrancado risadas da garotada. “Isso faz com que muitas mulheres sofram. Qualquer coisa a gente é chamada de gorda ou dizem que estamos acima do peso. E isso gera uma doença chamada anorexia”, introduziu, para contar em seguida ler Diana, uma das personagens presentes no livro de contos.

“O espelho sempre engana Diana / O jogo de luz e sombra / Não camufla mais ninguém / Em busca da próxima dieta / A moça se enche de revistas e terapias alternativas”, diz um trecho lido por ela na ocasião, arrancando aplausos e gritos, principalmente das jovens que estavam no local. A edição teve ao final a performance da atriz Daniela Câmara, que há anos realiza um trabalho de declamação de poesias de poetisas pernambucanas.

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A edição teve ao final a performance da atriz Daniela Câmara, que há anos realiza um trabalho de declamação de poesias

Representando a instituição, o professor Adriano Araújo agradeceu pela oportunidade, “porque acredito que a escola ganha muito mais com essas atividades que tiram o aluno de dentro do ambiente da sala de aula e mostram que aprender é possível em vários espaços e de várias maneiras”, comemorou.

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