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Outras Palavras retorna com a poesia (en)cantada do Pajeú

Primeira edição do ano do projeto que integra cultura e educação foi realizada nesta última quarta-feira (14), em São José do Belmonte, com a presença do poeta Zé Carlos e da poetiza Belinha

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Escola Técnica em São José do Belmonte, no Sertão Central, recebeu a primeira edição de 2018 do Outras Palavras

Por Marcus Iglesias

A espera e a saudade acabaram. Depois de um período de férias escolares, o Outras Palavras, projeto de integração entre a cultura e a educação da Secult-PE e Fundarpe, está de volta ao ambiente escolar. A primeira edição de 2018 aconteceu nesta última quarta-feira (14), na Escola Técnica Pedro Leão Leal, localizada no município de São José do Belmonte, no Sertão Central, com a participação de dois importantes nomes da atual geração da região do Pajeú: O cantador e repentista Zé Carlos, de Tabira, e a declamadora e também poetiza Belinha, do grupo As Severinas, de São José do Egito.

Esta edição do Outras Palavras contou com o apoio da GRE Sertão Central e teve ainda a presença do presidente da Associação da Pedra do Reino, Diogo, e de estudantes de outras três escolas da região (Estadual Professor Manoel de Queiro, EREM Dr. Walmy Campos Bezerra e Colégio Municipal D. Arcâncio Pereira), além de poetas do projeto Infância Rimada, organizado por Zé Carlos.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

“Aqui temos curso de agroecologia, administração e rede de computadores, e até um pomar também, onde os jovens podem ter um contato mais próximo com a terra”, disse o diretor da escola, Antonio Carlos de Magalhães

Considerada por muitos gestores de escolas como uma das Escolas Técnicas Estaduais mais conservadas do estado, o diretor da ETE Pedro Leão Leal, Antônio Carlos de Magalhães, não esconde a satisfação nesse reconhecimento. “A gente faz aqui um trabalho de educação voltado para a conservação da escola. Há aqui um sentimento de pertencimento por parte dos estudantes. Pra se ter uma ideia, desde 2015, nunca houve uma depredação do espaço. Aqui temos curso de agroecologia, administração e rede de computadores, e até um pomar também, onde os jovens podem ter um contato mais próximo com a terra”, reforça o diretor.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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O poeta Zé Lopes conversou com os estudantes sobre sua obra e o projeto Infância Rimada, realizado em Tabira, no Sertão do Pajeú

A primeira conversa dos jovens alunos, mediada pelo jornalista e cineasta Marcos Henrique Lopes, foi com o poeta Zé Carlos, que falou sobre sua obra e sobre alguns de seus projetos em Tabira, como o Infância Rimada. “A ideia surgiu porque dentro da cidade a gente já tinha uma garotada que participava dos encontros poéticos. Veio então a proposta de criar um grupo pra se treinar as técnicas de declamação. E quem declama sabe que existem muitas. Precisa-se de muito olhar, de muito entusiasmo e interpretação, de acordo com cada texto”.

Segundo ele, já haviam seis crianças que declamavam na cidade, quatro meninos e duas meninas, e o grupo começou assim. “Hoje a gente conta com mais de quarenta crianças, com idades entre quatro e 13 anos, e já passaram quase 70 pelo grupo”. Duas que fazem parte do Infância Rimada, Tiago e Cauã Silva, foram com o Zé Carlos para o Outras Palavras dar uma mostra do que aprenderam e do que sabem fazer com a palavra (en)cantada.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Thiago Silva, um dos jovens que faz parte do Infância Rimada, foi até o Outras Palavras declamar poesias de poetas de sua região

No palco, declamaram poesias de vários nomes da região do Pajeú, como Dedé Monteiro, Patrimônio Vivo de Pernambuco titulado em 2016. Como de praxe, o microfone é aberto aos jovens que queiram fazer perguntas e a estudante Iris, que participava da atividade, quis saber se o projeto Infância Rimada também estimula a criação de trabalhos autorais por parte das crianças. “Além de trabalhar as técnicas que eu falei, como postura e a clareza do que se quer dizer, a gente também comenta muito sobre a criação de poesia deles. Tem muitos que já fazem. Esses dois, por exemplo, já têm as suas próprias autorias”, explicou Zé Carlos.

Marcos Henrique Lopes lembrou que Zé Carlos recebeu o Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular, em 2017, na categoria Mestre e Saberes. “Queria que você falasse um pouco sobre essa premiação. A gente sabe que não faz ninguém escrever melhor, mas é um estímulo pra continuar”, pediu o jornalista. “Só pra contextualizar, todo ano nós passamos em todas as salas de escolas de Tabira para dizer que temos uma associação de jovens, porque a gente supõe que existam crianças e adolescentes que queiram participar, mas não sabem como entrar no grupo”, disse o poeta.

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A poetiza Belinha foi participar do Outras Palavras para lançar seu primeiro livro, o Canta Dores

“Você tem que fazer seus trabalhos independente do resultado. Eu nunca sonharia que um dia iria abrir um edital que premiasse pessoas no estado de Pernambuco, que tiveram uma ideia e que a estavam executando há algum tempo. E quando eu li o edital, eu vi que me encaixava nos pré-requisitos. Listei os trabalhos que eu realizei, como os festivais, a associação com os jovens, e outros trabalhos, porque você precisa provar a transmissão de saberes”.

Em seguida, Marcos Henrique convidou a poetiza Belinha a subir no palco, que já chegou fazendo o que bem sabe: declamando uma poesia do Pajeú. Belinha é uma das integrantes do grupo As Severinas e lançou na ocasião seu primeiro livro, o Canta Dor, assinando com seu nome Isabelly Moreira. Nascida em São José do Egito, Belinha contou que cresceu com o pai, amigos, vizinhos e todo um universo da poesia lhe cercando. “Inclusive professores me influenciaram, e digo a eles aqui presentes que o tralho nas escolas é muito valoroso. Em algum momento nós conseguimos adentrar no ensino no município de São José do Egito de uma forma mais ampla. A exemplo disso é que temos a disciplina de poesia popular em sala de aula. Todas as escolas da cidade ministram essas aulas, e lá os alunos aprendem sobre quem foram os poetas, as técnicas, alguns recursos inerente a esse campo. Dentro do mundo da cantoria de viola, a gente precisa seguir alguns aspectos pra se enquadrar nisso, mas todo sentimento poético é livre”, disse ela.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Vários alunos e alunos aproveitaram o momento para tirar dúvidas sobre o processo criativo de um poeta, bem como as dificuldades e prazeres de se trabalhar com essa arte

Belinha aproveitou para defender o ofício de trabalhar com a arte, como a poesia. “Teve uma hora que eu achei engraçado porque alguém perguntou ao Zé Carlos se ele só fazia isso. E ai fica parecendo que o trabalho de artista é menor, e acontece isso. E nem é por maldade, é pela distância do universo que se tem. O trabalho da arte é como outro qualquer, só tem a diferença de não ser palpável. Se você contrata um pedreiro pra levantar um muro, ele vai lhe dar cinco dias pra entregar o serviço. Você não pode pedir um soneto em cinco dias, porque a gente não lida com o palpável. Vai depender do poeta e da poetiza”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Entre uma conversa e outra, Belinha declamou poesias e até cantou algumas cantorias de coco de roda pra garotada

A estudante Aline, outra presente na atividade, opinou que “todo artista deve ter uma obra de sua própria autoria que lhe inspira, lhe motiva emocionalmente, por ali estar a sua verdade”, e quis saber de Belinha se ela tinha alguma assim. “Tem um soneto que eu queria trazer pra vocês, chamado A Meretriz, que remete à uma das poetizas do Pajeú, chamada Severina Branca. Ela teve uma vida muito árdua porque virou prostituta pelo machismo da época ao engravidar na adolescência e ser expulsa de casa pela rejeição da família. Pra se valer da vida, precisou se prostituir, e esse ponto de vista é uma história muito trágica, mas Severina começou a andar nas noites e na boemia de São José do Egito. Por esse contato, ela conseguiu ganhar protagonismo na poesia enquanto mulher, ainda que enquanto mulher massacrada pelo próprio machismo”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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No final da programação, as escolas receberam um kit do Outras Palavras, com livros premiados no Prêmio Pernambuco de Literatura ou produzidos com incentivo do Funcultura, e que vão ficar disponíveis nas respectivas bibliotecas das instituições

O mediador da conversa entre a poetiza e os estudantes lembrou-se da relação próxima dela com Dedé Monteiro, e pediu que ela falasse um pouco sobre como é essa convivência tão próxima com os mestres do Pajeú. “É até íntima com a maior parte deles. A gente vive se encontrando em eventos, sarais, festivais, e naturalmente se cria um vínculo. No caso de Dedé, ele não é uma referência só pra mim. Mesmo com todas as dificuldades, se de todas as 17 cidades do Pajeú apenas um nome pudesse representar a poesia local os poetas responderiam Dedé Monteiro, E temos a honra de termos ele entre nós e permeando entre as novas gerações”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Aqui vocês puderam ter um contato mais próximo com poetas da cultura popular pernambucana, e a gente espera que vocês se apropriem cada vez mais do ambiente escolar”, celebrou Humberto de Jesus, da equipe do Outras Palavras

No final da programação, as escolas receberam um kit do Outras Palavras, com livros premiados no Prêmio Pernambuco de Literatura ou produzidos com incentivo do Funcultura, e que vão ficar disponíveis nas respectivas bibliotecas das instituições.

“A gente começou aqui mais uma temporada do Outras Palavras, e já temos uma longa estrada pela frente. Na semana que vem iremos a várias cidades da Região Metropolitana do Recife, e nesta quinta-feira (15) estaremos em Salgueiro, no Sertão Central, sempre com o propósito de realizar uma integração entre a cultura e a educação. Aqui vocês puderam ter um contato mais próximo com poetas da cultura popular pernambucana, e a gente espera que vocês se apropriem cada vez mais do ambiente escolar”, celebrou Humberto de Jesus, representando a equipe do Outras Palavras.

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