Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Fundarpe

Produção cultural de jovens e estudantes tem espaço no Outras Palavras

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Formado por alunos e alunos do EREM Padre Machado, o grupo Maracaxé Rainha Adelaide foi uma das atrações desta edição

Marcus Iglesias

Além da proposta de levar cultura e arte às escolas públicas de Pernambuco, o projeto Outras Palavras, promovido pela Fundarpe e Secretaria de Cultura estadual, proporciona um adicional ainda mais importante: Dar espaço e trazer para o centro da discussão a produção cultural desenvolvida dentro das instituições de ensino. Nesta terça-feira (8), na Escola de Referência de Ensino Médio Padre Machado, no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife, esse ideal ficou mais que evidente. Ao lado dos escritores Philippe Wolney e Camillo José, vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, e do grupo musical Chorões da Aurora, estudantes de diversas idades e até de outras escolas da região puderam mostrar seus dons com a arte e interagir com o fazer cultural mais de perto.

Antes da conversa com os autores pernambucanos, alguns estudantes e jovens do bairro apresentaram o grupo Maracaxé Rainha Adelaide, um dos ‘braços’ do projeto Multicores das Artes Cênicas – formado por alunos do EREM Padre Machado e de outras localidades. Na ocasião, puderam mostrar o trabalho construído desde 2014 através da dança e da música. “Toda escola deveria ter um grupo percussivo, e é muito importante termos aqui um, numa instituição pública. Mostrar que também fazemos produção cultural. A gente resolveu batizar o grupo com um nome de uma das pessoas que mais luta contra o racismo na escola, que é Adelaide Santos. Ela hoje tem um papel de representatividade muito importante nessa instituição e como cidadã”, disse Samuel Calado, coordenador do Multicores das Artes Cênicas.

Ainda de acordo com Samuel, afora a dança e música, o Multicores tem a proposta de atuar também com outras linguagens, como o teatro, a fotografia e o audiovisual. Durante o Outras Palavras, por exemplo, algumas alunas, com câmeras nas mãos, registravam sob seus olhares o que acontecia no auditório da escola. “Com apoios e parcerias consegui esses equipamentos fotográficos pra cá, e o resultado foi tão bom que uma das alunas chegou até a comprar uma câmera para ela. Esse é o objetivo do Multicores, trabalhar nos jovens questões como a capacidade de expressão, senso de identidade e protagonismo juvenil”, revelou. Na parte teatral, o grupo já tem dois espetáculos, o Afrociberdelia, em homenagem ao manguebeat, e Ethos do Sertão, que será apresentado no dia 24 de agosto no Teatro Arraial Ariano Suassuna. “Nele tratamos a questão da religiosidade, principalmente as de matriz africana e indígena, através do teatro de sombras e da dança contemporânea”, explicou Samuel Calado.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Grupo faz parte do coletivo Multicores das Artes Cênicas, que desenvolve na escola atividades nas linguagens de teatro, dança, música, fotografia e audiovisual

A estudante Adelaide Santos conta que está no grupo desde o começo, apesar de já ter se envolvido com outros coletivos de dança. “Mas foi a partir do Multicores que abri meu horizonte de uma forma muito intensa. Pude conhecer melhor outras linguagens artísticas, como a música, o teatro e a poesia. E uma consequência disso é que participo hoje em dia de um sarau, e adoro escrever e recitar. Vejo também que através do meu empoderamento muitas meninas passaram a participar do grupo e serem mais atuantes na militância negra, e isso me deixa bastante orgulhosa”. Na internet, é possível encontrar alguns vídeos no qual a jovem poeta recita textos sobre discriminação racial e feminismo.

A programação seguiu com um debate com dois representantes da nova cena da poesia pernambucana, Philippe Wolney e Camillo José, vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, respectivamente, com os livros Ruinosas Ruminâncias e A Dakimakura flutuante. Os dois estiveram juntos recentemente durante um debate no 27º Festival de Inverno de Garanhuns, ao lado dos também escritores Paulo Gervais, Walther Moreira Santos e Nivaldo Tenório.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Com mediação do jornalista Marcos Lopes, estudantes e autores puderam trocar uma ideia sobre o fazer literário

“Esta premiação do qual eles são vencedores é oferecida pela Secretaria de Cultura e Fundarpe e vocês estudantes também podem participar. No caso deles, eles foram contemplados na categoria Poesia, mas há também as categorias Contos e Romance”, detalhou o jornalista Marcos Lopes, mediador da mesa, que em seguida questionou aos autores como foi que surgiram as obras premiadas.

“Eu percebi que eu escrevia de uma forma fragmentada e depois sai juntando todos os textos que havia produzido. Era uma coletânea de dois anos de produção que eu guardava numas pastinhas organizadas no computador. Um dia eu reli tudo e percebi que havia uma conexão entre as poesias”, lembrou Phillippe Wolney. Já Camillo José acredita que o exercício da literatura é criar algo do nada, mas que dentro da sua cabeça existe e faz todo o sentido. “Sabe quando você está conversando com uma pessoa e de repente você para de falar, mas mentalmente acha que continua falando? Acho que é por ai. É ser um pequeno deus, começar do nada uma obra, ou a partir do quase nada. A Dakimatura Flutuante surgiu a partir desse conceito ou método”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Maria Clara Amorim, estudante do 1º ano do Ensino Médio, foi uma das que fez perguntas empolgadas aos escritores participantes

Dentre várias perguntas dos estudantes, uma delas, da estudante Maria Clara Amorim, de 14 anos, foi uma das que mais tocou os autores. Num país como o Brasil, onde a média de leitura ainda é consideravelmente baixa, é de encantar encontrar jovens como a Maria Clara, ávidos por novas leituras e interessados no fazer literário. “Meu sonho é publicar alguma coisa um dia, de preferência um livro de poesia, como vocês. Eu não os conhecia, mas estou muito inspirada com tudo que foi apresentado e com a obra que vocês dois construíram. Mas eu queria saber o que os motivou a começar a escrever poesias”, indagou a estudante do 1º ano do EREM Padre Machado.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Participaram deste Outras Palavras dezenas de estudantes de três escolas públicas da Zona Norte do Recife

Minhas primeiras leituras eram duras. Eu já tenho 30 anos e em 2002 era uma época que não havia internet acessível e banda larga. A primeira vez que li uma poesia foi uma do paraibano Augusto dos Anjos e a segunda foi um livro de contos do Dostoievski, que tinha um chamado Bobok, o qual me fascinou bastante”, disse o autor de Ruinosas Ruminâncias. Camillo José, por sua vez, conta que no seu caso foi pra auxiliar nas paqueras, quando mais novo. “Eu li uma poesia do Castro Alves que está no livro Espumas Flutuantes, que se chama Gondoleiro do amor. E sempre que queria impressionar alguém que eu estava afim, eu me inspirava nessa poesia pra escrever algo. Na verdade não era bem uma motivação literária, mas foi um ponto de partida“.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Conversa entre estudantes e autores pernambucanos girou em torno de temas como inspirações, referências, obras lançadas e o reconhecimento como artista na literatura

Formado em 2015 por professores da Escola Técnica Estadual de Criatividade Musical (ETECM), o grupo Chorões da Aurora fez uma apresentação musical na escola apresentando um repertório formado por canções de artistas como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. “A gente realiza uma pesquisa sobre o universo do choro a partir da inserção do Oboé e de demais instrumentos de sopros no gênero musical. Como vocês vão perceber o Oboé, típico da música erudita, não tem boquilha. É uma palheta bem fininha, confeccionadas pelos músicos. Quem deseja estudar esse instrumento começa também a conhecer o mundo artesanal da música”, ressalta o professor Hérrisson, que convidou os estudantes a irem ao ETECM para fazer uma visita e descobrir esse universo musical.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Quem deseja estudar esse instrumento começa também a conhecer o mundo artesanal da música”, ressalta o professor Hérrisson, do grupo Chorões da Aurora

Ao término da programação do Outras Palavras, a aluna Maria Clara Amorim não continha a felicidade. Ganhou de presente de Phillippe Wolney um de seus livros e andava pelo auditório com um sorriso de orelha a orelha. “Nunca tinha conversando antes com escritores, mas já tinha um contato com a literatura pernambucana e conhecê-los foi sensacional. É muito bom ler algo de alguém que está na mesma sala que você, e você conhecer as referências daquela pessoa e o que o inspira”, contou ela, que se considera uma amante da literatura. “Sempre gostei muito de ler, mas tudo tem um começo. Uma época eu tive um vizinho que trabalhava num jornal e me trazia livrinhos. Certo dia ele me trouxe um livro chamado O conto do garoto que não é especial, meu favorito até hoje. Foi a partir desse encontro que eu passei a escrever”.

Para Antonieta Trindade, gestora do Outras Palavras e vice-presidente da Fundarpe, “essa é a escola da resistência que a gente tanto fala e defende”. Ao término desta edição, muita gente foi procurá-la, a maioria alunos e alunas, interessadas em também participar do projeto e levar sua produção cultural a outras escolas. Mostrar na prática que a escola é também, ou principalmente, um espaço de transformação social através da produção artística. Até aqui, o projeto já passou por 335 escolas, atingiu mais de 7 mil pessoas e distribuiu 4291 livros por onde passou.

< voltar para home