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Programação semestral do ‘Outras Palavras’ termina com estudantes e professores dançando o coco pernambucano

Dona Glorinha do Coco, 84 anos, mudou a rotina em escola na Iputinga, o "bairro dos artistas" no Recife. Edição do dia 19/06 também teve a presença do jornalista e poeta Adalberto Monteiro.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Dezenas de jovens entraram na dança com a coquista de 84 anos

Por Marcus Iglesias

O que aconteceu na manhã da terça-feira (19/06), na Escola Técnica Estadual Professor Lucilo Ávila Pessoa, mudou a ‘energia’ do centro educacional. Bastou olhar ao redor para perceber a cena bonita que se formou ali, com jovens animados, seus sorrisos e as brincadeiras que tomaram conta do ambiente. Uma alegria genuína, resultado da descoberta do coco de roda pernambucano e de uma conversa franca sobre literatura com um renomado escritor.

A expressão era de felicidade por terem ouvido e aprendido tanto naquele dia com a presença do poeta e jornalista Adalberto Monteiro, e da coquista e mestra da cultura popular Dona Glorinha do Coco. Por coincidência, a escola técnica fica no bairro da Iputinga, no Recife, conhecido popularmente como o ‘Bairro dos Artistas’. Com o projeto Outras Palavras, mais uma vez, a arte se fez presente e viva naquele lugar.

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A ETE Professor Lucilo Ávila Pessoa leva o nome de uma personalidade bastante conhecida na Iputinga: O professor Lucilo, mais conhecido como Doutor Lucilo, um grande incentivador da educação

A escola leva o nome de um professor bastante conhecido na Av. Caxangá, o Doutor Lucilo, como era chamado o dono do antigo Colégio PIO XII, um dos expoentes da região na década de 90. Quem morou por ali lembra que Doutor Lucilo tinha um jeitão bem personalista, mas que abraçava a educação com olhares de quem vê o futuro com respeito. O PIO XII era aberto para estudantes de outras escolas, e era comum encontrar gente do bairro jogando bola por lá, por exemplo. A feira de ciências também era destaque e atraia famílias da região e jovens de outros colégios, interessados em vivências e aprendizados fora da sala de aula.

Essa edição do Outras Palavras também marcou o fechamento da programação do projeto da Secult-PE e Fundarpe realizada durante o primeiro semestre de 2018. Só nesses últimos seis meses, foram 19 edições por várias regiões do estado, do sertão ao litoral. A iniciativa já atingiu 544 escolas, alcançou mais de 13 mil alunos e deixou mais de 5.600 livros nas bibliotecas escolares por onde passou – a maioria das publicações são de escritores pernambucanos vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, ou produzidas com incentivo do Funcultura.

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““É muito legal quando a gente vê a cultura e a arte, através da literatura, cinema e da cultura popular, utilizadas como ferramentas pra gente construir uma ponte para um novo mundo”, destacou a gestora da escola, a professora Juliana Maria de Oliveira

“É muito legal quando a gente vê a cultura e a arte, através da literatura, cinema e da cultura popular, utilizadas como ferramentas pra gente construir uma ponte para um novo mundo. Só tenho a dizer que aqui na escola também temos muitos artistas e não vamos ficar por baixo não”, disse aos risos a diretora da escola, Juliana Maria de Oliveira. E ela estava certa. Durante toda a programação os jovens tiveram seu protagonismo artístico, fosse na apresentação de um curta-metragem produzido por eles, fosse através das perguntas críticas e aguçadas que lançaram ao ar, ou quando soltaram o passo e se entregaram ao coco ancestral de Dona Glorinha. A entrega à arte foi algo evidente naquele ambiente escolar.

Antes das conversas com os artistas convidados, foi realizada uma sessão do curta Uma visão caótica sobre a Copa do Mundo (Na trave), produzido por estudantes do 1º ano B com a direção da professora de Português Lúcia Lucena, e que faz uma crítica ao endeusamento do futebol como opção de entretenimento para a sociedade.

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Leandra e seus colegas de classe explicaram como foi o processo do curta produzido por eles e que foi exibido durante o Outras Palavras

“A professora sugeriu que a gente pesquisasse algumas crônicas que falassem sobre esse assunto e uma das alunas trouxe um que a maioria aprovou. Tiramos os personagens do texto pra deixar um tom mais de narração e dramático e o objetivo desse trabalho é dizer que podemos sim nos divertir com a Copa do Mundo, mas que não fiquemos cegos com os reais problemas que enfrentamos diariamente”, disse Pedro Martins, um dos envolvidos com o curta, ao lado de outros alunos da mesma turma como Natiely, Pedro Allan e Leandra.

Quem mediou o encontro entre os estudantes e Adalberto Monteiro e Dona Glorinha do Coco foi o jornalista e cineasta Marcos Henrique Lopes que, ao convidar o escritor para a conversa, já começou com uma pergunta: “Ler sua biografia já mostra a dificuldade de começar uma conversa contigo porque você trabalhou em várias áreas, mas principalmente como jornalista e poeta, gênero literário no qual você tem quatro livros lançados, por exemplo. Eu te pergunto: como é que você gosta de ser conhecido, se como poeta, com um texto mais lúdico, ou como jornalista/ensaísta, com uma escrita baseada em fatos históricos e sempre muito bem abordados?”.

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A mediação da conversa entre o escritor, Dona Glorinha e os estudantes foi feita pelo jornalista e cineasta Marcos Henrique Lopes

“Antes de qualquer coisa sou piauiense, nascido e criado em Goiás e agora moro em São Paulo. Sou também um militante político (ao dizer isso, um grito de “gostei disso” saiu da plateia). O que quero dizer é que sou meio dividido, apesar de toda minha história e meu trabalho estarem intrinsecamente ligados. Quando recebi esse convite, por exemplo, eu decidi que iria deixar o poeta encarnar”, revelou Adalberto, que logo em seguida foi questionado novamente por Marcos se ele, ao menos, por ter sido um dos primeiros a escrever sobre “a crise política que o Brasil vive desde 2016″, não gostaria de falar alguma coisa a respeito do tema.

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“Dizem que os poetas são cegos e que enxergam na escuridão. Talvez seja isso. Mas acredito sim que há uma resistência popular que está crescendo aos poucos, e que em breve encontraremos o caminho”, avaliou o escritor sobre o atual momento político brasileiro

“Toda essa reflexão está inserida também nos meus livros de poesia. Você verá alguns que falam diretamente da questão do povo brasileiro. Vivemos um ciclo de avanços de 2003 a 2015, que foram interrompidos pela deposição de uma liderança eleita pelo povo, a Dilma Rousseff. Mas hoje, depois da onda de retrocessos, percebo que o povo brasileiro retoma a esperança. Dizem que os poetas são cegos e que enxergam na escuridão. Talvez seja isso. Mas acredito sim que há uma resistência popular que está crescendo aos poucos, e que em breve encontraremos o caminho”, ponderou Adalberto, para ficar em pé e, em seguida, declamar um poema que fez em homenagem a João Cabral de Melo Neto.

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Instigando os estudantes, o escritor brincou: “Eu estou hospedado em Boa Viagem e os ventos do mar me disseram que aqui temos homens e mulheres jovens poetas e poetizas nesta sala”. De repente, da plateia se ouviam cochichos que viraram gritos encorajadores: “Vai Álvaro, vai Álvaro”, repetiam as vozes, enquanto um tímido (mas valente) Álvaro se levantava para pegar o microfone.

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“A poesia pra mim não é só escrever, ela é como uma segunda casa. Eu não posso falar tudo o que sinto pra vocês, mas através dela posso dizer tudo o que sinto e penso”, declamou o jovem poeta Álvaro

“A poesia pra mim não é só escrever, ela é como uma segunda casa. Eu não posso falar tudo o que sinto pra vocês, mas através dela posso dizer tudo o que sinto e penso. Ela não é só o texto. Pelo menos as minhas têm a meta de fazer o leitor refletir sobre o que quero dizer”, opinou Álvaro, enquanto algumas amigas diziam, orgulhosas, que “ele é da minha turma, o 1º ano A”.

A arte como forma de empoderamento social. Álvaro ganhou de presente de Adalberto o livro Pé de Ferro, de autoria do último. “De poeta para poeta”, disse o escritor, para a honra e alegria do jovem artista da Iputinga.

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“De poeta para poeta”, disse Adalberto para o jovem Álvaro, após presenteá-lo com o livro ‘Pé de Ferro’

Depois que a primeira pergunta é feita, uma enxurrada de questões vêm atrás. Um fenômeno interessante e que se repete com frequência nas edições do Outras Palavras. Desta vez não foi diferente. Curiosidades sobre o processo criativo, sobre as possibilidades na poesia, sobre o que inspirava o autor. Foi tanto assunto que não deu tempo de falar a respeito de tudo. No entanto, ao final da atividade,  os jovens ‘cercaram’ Adalberto e conseguiram diminuir suas aflições literárias.

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Jovens se divertiram com os passos do coco de roda cantado por Dona Glorinha

Como se não bastasse a troca inesquecível entre escritor e estudantes, o último Outras Palavras deste semestre fechou com o brilho e a sabedoria de Dona Glorinha do Coco, um dos principais nomes da cultura popular pernambucana. Habilitada a receber o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, Glorinha recebeu, em 2017, o 2º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia na categoria Mestra – premiação que veio celebrar seus 84 anos dedicados ao coco praieiro do Amaro Branco, uma tradição herdada de sua mãe, Dona Maria Belém.

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Habilitada a receber o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, Dona Glorinha do Coco recebeu, em 2017, o 2º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia, na categoria Mestre

O mediador Marcos Henrique aproveitou a oportunidade para explicar aos alunos as várias vertentes do coco que existem em Pernambuco. “Dona Glorinha é um dos principais nomes daquele que é feito em Amaro Branco, em Olinda, mais praieiro. Mas também temos Beth de Oxum, também de Olinda, responsável pelo Coco de Umbigada, no Guadalupe, e outras referências como Zé Negão, de Camaragibe, que conquistou recentemente a 3ª edição do Prêmio Ariano Suassuna, além do Samba do Véio, de Petrolina, e do Coco Raízes de Arcoverde”, comentou o jornalista.

“Aproveito pra dizer que na sexta-feira (22) que vem vai ter na minha casa uma grande sambada, e vocês estão todos convidados pra ir. A festa é na rua mesmo, onde eu moro, e vai ter de tudo um pouco”, convidou Dona Glorinha, narrando que já levou sua música para vários estados do Brasil e até outros países, como Portugal e Cuba, para em seguida puxar canções como Minha mãe quando me dava e Bumba Chora, presentes no seu primeiro CD (disponível na internet).

Quem tem sensibilidade pra se abrir e sentir a energia que a sambada do coco pernambucano traz, não consegue ficar parado. Logo nas primeiras batidas da alfaia, com o grave ecoando na sala, todos, sem exceção, ficaram de pé e entraram no ritmo da música. Mais uma vez tudo começa com os primeiros que estimulam os demais a deixarem de timidez. Um dos jovens, bem animado, pegou o microfone e até cantou, ao lado de Dona Glorinha, o clássico A Rolinha, de Selma do Coco.

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A farra foi tanta com Dona Glorinha que foi necessário tirar todo mundo do auditório e ocupar o pátio central da escola, onde tinha mais espaço para dançar

Em poucos minutos, a sala inteira tinha virado uma grande roda, com professoras, professores, alunas e alunos se divertindo juntos, vivendo a cultura popular do estado. A farra foi tanta que foi necessário sair do auditório e ocupar o pátio central da escola, onde tinha mais espaço. Uma festa instigante, que mesmo depois de finalizada não acabou. O som já tinha sido desligado, mas a garotada brincava entre si com a dança que haviam aprendido.

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Depois da roda, mesmo com o som desligado, a garotada brincou entre si com o que aprenderam naquela manhã

“No âmbito da educação, estamos tendo vários direitos subtraídos, e para mudarmos essa realidade é necessário que a gente tenha como meta obter o conhecimento mais amplo possível. No Outras Palavras, o instrumento que usamos para isso é a cultura e a arte porque acreditamos que só assim poderemos resgatar nossa capacidade de sonhar e descobrir que temos força e capacidade de lutar e seguir em frente”, refletiu Antonieta Trindade, gestora do projeto e vice-presidente da Fundarpe. “Ontem eu escutei uma música que dizia que ‘a consciência do povo daqui é o medo do povo de lá’. Que nossa consciência só floresça e se torne cada vez mais cidadã”, concluiu a gestora, sob aplausos dos estudantes.

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