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Semeando outras palavras com Rejane Paschoal e Paulo Perdigão

Bruno Souza

Manuel Bandeira, no poema À sombra das Araucárias, dizia que “a arte é uma fada que transmuta e transfigura o mau destino”. De fato, ela, a arte, pode ser uma aliada fundamental na relação ensino-aprendizagem dos indivíduos e, no caso do projeto Outras Palavras, que desde 2015 já circulou por 257 escolas públicas do Estado, um caminho para estreitar, no espaço escolar, “as relações entre educação, cultura e cidadania”, como destacou a vice-presidente da Fundarpe, Antonieta Trindade, na manhã desta quarta-feira (26), durante a realização da inciativa na EREM Santa Ana, localizada no bairro de Rio Doce, em Olinda.

Com a participação da escritora pernambucana Rejane Paschoal, ganhadora do 3º Prêmio Pernambuco de Literatura, e do sambista carioca Paulo Perdigão, um dos compositores da Mesa de Samba Autoral, a ação reuniu várias turmas da Escola Santa Anta e de sua adjacência em torno da literatura e da música produzida atualmente em Pernambuco, temas que, por muitas vezes, ficam de fora das nossas salas de aula. “Nesse momento de redefinição de vários rumos no cenário nacional, esse projeto é uma ferramenta de resistência. Digo resistência porque traz aos alunos a oportunidade de se relacionarem diretamente com a arte, e consequentemente com as pessoas que a produzem, e também porque desperta/aflora em nós aquilo que temos de mais precioso: a capacidade inventiva de emprestar à nossa realidade, por vezes dura, mais beleza e encanto”, afirmou Trindade, que é também idealizadora do Outras Palavras.

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

A vice-presidente da Fundarpe, Antonieta Trindade, durante sua saudação aos participantes do Outras Palavras

Afiadíssima, a autora e artista plástica Rejane Paschoal conversou com os alunos durante uma hora e, sem se eximir de tecer qualquer comentário contundente, debateu com eles temas que versaram sobre os mais variados assuntos: processo/bloqueio criativo, dicas para escrever, carreira, infância, referências/preferências literárias, oficinas literárias, pintura… Veja os principais trechos da conversa:

INFÂNCIA
Sempre estive envolvida na minha vida com a criação e, de modo geral, com as artes. Antes da literatura, com os desenhos e os pincéis. Desde pequena, criava coisas que nem sabia para que serviam. A minha avó era professora e, desde muito pequenininha, ela me dava muitos livros para ler. Minha mãe me presenteava também, mas vovó era o meu acesso mais direto, porque na casa dela tinha várias obras. Ainda na infância, li “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus. Um livro denso para uma criança, né? Denso por relatar a vida de uma mulher pobre e negra, que sofreu todo tipo de mau agouro, catando lixo numa comunidade carioca, na década de 60. A minha relação com a literatura vem disso: das publicações que ganhei/li nesse período e das histórias que meu pai me contava na hora de dormir, um dos prazeres mais tenros dessa época.

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

A escritora Rejane Paschoal compartilhou os momentos de sua trajetória literária com os estudantes

CARREIRA
Depois, já adulta e de ter feito alguns cursos de pintura e desenho, fiz vestibular para Direito. Estudei todas aquelas leis por cinco anos e, embora ninguém tenha obrigado a ter me matriculado no curso, achava tudo muito desagradável naquele universo jurídico. Fiquei frustada. No dia da formatura, me perguntei seriamente o que ia fazer com aquele diploma. Daí, decidi fazer vestibular novamente e consegui passar em Educação Artística, na UFPE, com habilitação em Artes Plásticas. Encontrei minha turma ali no Centro de Comunicação e Artes e, logo após ter me formado, ingressei na rede municipal de ensino do Recife, onde lecionei por 26 anos.

CAPACIDADE INVETIVA
Cada pessoa, aqui neste auditório, possui habilidades artísticas, que podem ser desenvolvidas ou não. Todos nós podemos criar. Mesmo que não nos interessemos por nada do universo artístico, a vida exige que sejamos criativos. Criar não é uma habilidade específica da arte. Criamos cada vez que encontramos uma solução para nossos problemas, seja qual for o caráter dele, pessoal, amoroso ou profissional. O homem é um ser criador e a criação está no plano do que há de mais deificado na alma humana. Todos nós temos isso dentro do nosso interior e é, através disso, que expressamos o nosso sentimento, seja com uma tinta, seja com um acorde musical, seja com uma simples palavra ou um texto mais elaborado.

TRANSIÇÃO
Por conta da minha formação em artes plásticas, pintava alguma coisinha. Pintava até um tempo desse, mas decidi que era hora de trocar o pincel pelo lápis. As palavras também apresentam um componente visual riquíssimo. Quer ver? Quando dizemos a palavra “casa”, todo mundo aqui consegue pensar em um modelo de casa diferente. “Chão”, “céu”, “mar”, visualizamos isso facilmente, não é verdade? Com esse repertório em mãos, decidi, então, empenhar toda essa carga visual das artes plásticas na minha literatura.

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

A autora revelou como foi seu processo de transição das artes plásticas para a literatura

OFICINAS LITERÁRIAS
Em 2007, perto de me aposentar, procurei um amigo que era professor de português na escola que lecionava. Mostrei as coisas que andava escrevendo, e ele, muito delicadamente, pediu que me matriculasse nas oficinas do escritor Raimundo Carrero. Fui à União Brasileira de Escritores (UBE) numa terça-feira, a sede fica ali em Casa Forte, e comecei a frequentar as aulas já na quinta-feira. Aprendi muito com o professor Carrero. Ele é uma pessoa muito generosa, que permitiu encontrar meu próprio caminho na literatura. O mais bacana das oficinas literárias é que não existe “certo” ou “errado”. O que aprendemos lá são técnicas, técnicas que nos ajudam a encontrar soluções para os personagens e narrativas que criamos. 

PROCESSO/BLOQUEIO CRIATIVO
Sentiram que as ideias travaram? Então, peguem um papel e comecem a ‘topificar’ tudo o que vem à mente de vocês. Nesse momento inicial, não coloquem freio na imaginação. Deixem vir tudo o que está rondando o inconsciente. Depois de tudo listado, comecem a separar o joio do trigo, como numa peneira mesmo, e vejam no que vale investir a criatividade de vocês. Aquilo que não dá, deixem de lado e só trabalhem no que é possível canalizar força e energia. Sempre faço isso e, vou confessar, dá certo, viu?

PRÊMIOS
Meus dois livros, ‘Histórias do Encantarerê’ e ‘Manuscritos em Grafite’, só foram publicados graças ao Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil e ao Prêmio Pernambuco de Literatura. Como nos inscrevemos com pseudônimos, qualquer escritor, consagrado ou não, tem a chance de publicar sua obra. São políticas públicas que fazem toda diferença quando não se tem ainda um nome consolidado no mercado editorial. Os prêmios abrem portam e fazem nossas publicações chegarem ao seu destino final: leitores.

AUTORES PREFERIDOS
Brasileiros: João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Carlos Pena Filho e Joaquim Cardozo. Estrangeiros: José Saramago e Valter Hugo Mãe.

PRÓXIMOS PROJETOS
Escrevi seis contos entre os meses de março e abril. Como prefiro as narrativas curtas, ainda não me aventurei no romance, vou juntar esses textos com outros que já escrevi e, em breve, vou submetê-los à outra premiação literária. Torçam por mim.

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

O músico Paulo Perdigão deu uma canja para coroar o encerramento

Ao final do bate-papo com Rejane Paschoal, o músico Paulo Perdigão se apresentou junto aos músicos da Mesa de Samba Autoral de Pernambuco e, com direito à canja da cantora Isadora Melo, mostrou que nosso Estado também produz samba da melhor qualidade. Confira nos vídeos abaixo um pouco da passagem do Outras Palavras pela EREM Santa Ana:

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