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Sidney Rocha retorna à escola para conversar sobre literatura com estudantes

Reencontro realizado pelo Outras Palavras nesta quarta-feira (21), na EREM Padre Nércio Rodrigues (Recife), serviu para mostrar aos jovens o potencial que a literatura pode oferecer enquanto ferramenta de transformação social

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Durante sua fala, Sidney Rocha presenteou uma aluna com um de seus livros, o Sofia. “Depois que terminar a leitura, passe para outra pessoa para que ela também possa lê-lo”, sugeriu o escritor em seguida

Por Marcus Iglesias

Um reencontro afetuoso aconteceu nesta quarta-feira (21) entre os estudantes da EREM Padre Nércio Rodrigues, no bairro da Linha do Tiro (Recife), e o premiado escritor Sidney Rocha – que participou de uma edição do Outras Palavras na mesma escola em abril deste ano. Na ocasião, os alunos e alunas do 1º ano do Ensino Médio que não participaram do primeiro encontro puderam se juntar aos demais e conversar com o autor sobre a importância da leitura, da educação pública e do potencial que a literatura pode oferecer enquanto ferramenta de transformação social.

Desta vez, esta edição foi dividida em dois ambientes da escola. Primeiro os estudantes assistiram numa sala ao documentário Julia – Uma operária de luta, documentário-drama roteirizado por Guido Bianchi, atual gestor do Outras Palavras, que conta a história da primeira vereadora do Recife e uma das fundadoras do Sindicato dos Tecelões.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Foi exibido para os estudantes o documentário Julia – Uma operária de luta (2017), que conta a história a primeira vereadora do Recife e uma das fundadoras do Sindicato dos Tecelões

Antes de exibir o filme, Guido explicou aos jovens sobre o porquê da escolha deste gênero para falar sobre a vida de Julia Santiago, considerada uma guerreira para o movimento feminista e operário de Pernambuco. “Ele documenta o que foi encontrado sobre essa personalidade, mas dramatizamos algumas cenas pela falta de referências em imagens e retratos. Foi tudo reconstruído através da oralidade, dos depoimentos que conseguimos”.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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“Ele documenta o que foi encontrado sobre essa personalidade, mas dramatizamos algumas cenas pela falta de referências em imagens e retratos”, explicou Guido Bianchi, roteirista do filme e gestor do Outras Palavras

Em seguida, todo mundo se deslocou até o pátio da escola, onde foi realizada a conversa com Sidney Rocha e a apresentação do outro grupo convidado, o Quinteto Violado. Mas uma surpresa estava reservada para a abertura, com a performance de um grupo de estudantes, com teatro, música e poesia, para celebrar a Semana da Consciência Negra. Dez jovens mostraram sua intimidade com a arte e fizeram uma leitura dramatizada de três poemas que dialogam diretamente com a causa: Navio Negreiro, de Castro Alves; Cálice, de Chico Buarque; e Me gritaram negra, de Victória Santa Cruz.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Alunas fizeram uma leitura dramatizada do poema ‘Me gritaram negra’, de Victória Santa Cruz, entre outros

Sidney é um incentivador da literatura, principalmente dentro das escolas e para jovens. É admirável sua paciência e entusiasmo em atender às dúvidas da garotada, e também perceber como ele se alimenta do retorno positivo diante do seu ofício, o de escritor. Um dos projetos que desenvolve (em paralelo às milhares de atividades que escolheu exercer) é a Oficina de Escrita Criativa, a qual já passou por várias instituições de ensino, a exemplo da EREM Beberibe – uma das que recebeu uma edição este ano. Com esta iniciativa, é também um ativista político, e faz da arte sua principal arma para enfrentar preconceitos e elevar a autoestima das pessoas.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Perfomance dos estudantes foi pensada para celebrar o Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro

“Quando eu estava ali assistindo à apresentação dos alunos e alunas, tirei uma foto e enviei para uma colega minha lá do Ceará. E junto à foto eu mandei a seguinte mensagem: ‘estou em casa’. Porque verdadeiramente me sinto em casa quando estou numa escola pública conversando com estudantes. É isso que me anima”, reforçou o autor de livros como O destino das metáforas (com o qual ganhou, em 2012, o Prêmio Jabuti), Sofia, Guerra de ninguém e Matriuska, entre outras obras.

“Para começar nossa conversa eu peço primeiramente que todos nós demos as mãos. Para que façamos o exercício de, em 2019, não soltar a mão de ninguém. Que superemos o radicalismo político e religioso e estejamos mais unidos para reconstruir esse país”, conclamou Sidney.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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““Para começar nossa conversa eu peço primeiramente que todos nós demos as mãos. Para que façamos o exercício de, em 2019, não soltar a mão de ninguém”, pediu Sidney Rocha

Ao falar da sua emoção em ver os estudantes trazerem à tona a reflexão sobre o Dia da Consciência Negra, Sidney ressaltou que sem a participação dos negros não haveria literatura brasileira, “porque não teríamos Machado de Assis, Cruz de Souza e Lima Barreto, que, neste último caso, passou de um patamar e entrou na vida das pessoas”, disse, para em seguida presentar uma aluna com o livro Sofia, e pedir que, depois que terminasse a leitura, o repassasse para que outra pessoa também pudesse lê-lo.

É comum durante o Outras Palavras várias dúvidas se repetirem, como quais são as inspirações, dificuldades, o processo criativo, as motivações, e os primeiros passos que Sidney Rocha teve como escritor. Pode parecer cansativo pra quem não está envolvido com a proposta, mas o fato é que muitos destes alunos nunca estiveram tão perto de um autor vivo. E podiam ali fazer quaisquer perguntas, as que quisessem, tendo suas respostas de volta com toda a empolgação de Sidney Rocha. A consequência dessa atitude provavelmente vai repercutir positivamente no futuro desses jovens cidadãos.

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Numa das perguntas, uma aluna quis saber se Sidney acredita que políticas públicas mais presentes dentro da escola podem estimular os jovens a lerem mais

Neste sentido, uma aluna quis saber se ele acredita que políticas públicas mais presentes dentro da escola podem estimular os jovens a lerem mais. “Claro que sim. O que a gente tem visto na atualidade é que a literatura oferece menos atrativos do que outras linguagens como a música, o cinema e o teatro. Claro que ler dá trabalho. As pessoas têm que entender isso. E porque nós estamos ligamos a uma visão de literatura dispersa. O programa Outras Palavras, por exemplo, desmascara essa ideia elitista de que escrever é para poucos”.

“Qualquer um de nós escreve sua própria narrativa. Não é a forma que define o que se escreve, mas a necessidade em si. Quando temos isso não há padrão, senão fica tudo muito chato. Se não acreditarmos que cada um tem sua própria forma de dizer as coisas, vai ficar muito repetitivo. É encontrar sua própria voz, e é isso que eu tenho tentado estimular por ai afora”, completou Sidney.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Outras dúvidas como inspirações, dificuldades, o processo criativo, as motivações, e os primeiros passos que Sidney Rocha teve como escritor também foram tiradas pelos jovens

Outro jovem quis saber se Sidney acredita que, através da sua escrita, mudou a percepção de mundo de alguém. “Peço, neste caso, que a aluna Anne Cunha, que está aqui, responda sua pergunta”, disse em seguida, convidando a jovem à frente dos colegas. Anne é aluna do 2º ano da Escola Padre Nércio e participou do curso de escrita criativa ministrado por Sidney na EREM Beberibe este ano.

“Fazer esse curso ampliou meus horizontes porque Sidney nunca nos julgou pelos erros gramaticais, e olhe que eram muitos. Ele incentivava nosso processo criativo e individual, e pedia que a gente dissesse tudo que quisesse, até os xingamentos, se fosse preciso. O que quero dizer é que ele estimulava que nós disséssemos o que achávamos que havia de ser dito. Isso mudou minha forma de enxergar e perceber os livros”, revelou a aluna, que deseja cursar Medicina, mas independente disso já tem seu encontro marcado com a literatura.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Outro convidado desta edição do Outras Palavras naLinha do Tiro foi o grupo Quinteto Violado, que fez um pocket show com músicas de Luiz Gonzaga e Dominguinhos

Sidney Rocha também recitou a letra da música Palavra Acesa, do Quinteto Violado, que fez um pocket show com músicas de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Os versos da canção seguem abaixo:

“Se o que nos consome fosse apenas fome / Cantaria o pão / Como o que sugere a fome / Para quem come / Como o que sugere a fala / Para quem cala / Como que sugere a tinta / Para quem pinta / Como que sugere a cama / Para quem ama / Palavra quando acesa / Não queima em vão / Deixa uma beleza posta em seu carvão / E se não lhe atinge como uma espada / Peço não me condene oh minha amada / Pois as palavras foram pra ti amada / Pra ti amada / Oh! pra ti amada / Palavra quando acesa / Não queima em vão / Deixa uma beleza posta em seu carvão / E se não lhe atinge como uma espada / Peço não me condene oh minha amada / Pois as palavras foram pra ti amada / Pra ti amada / Oh, pra ti amada / Pra ti amada”

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