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Uma aula sobre Lula Gonzaga e o cinema de animação em Pernambuco

Realizada em Gravatá, na sexta-feira (9) passada, edição do Outras Palavras contou com a presença do Patrimônio Vivo de Pernambuco, um dos primeiros cineastas a trabalhar com animação no estado

Elimar Caranguejo/Secult-PE

Elimar Caranguejo/Secult-PE

Encontro foi uma boa oportunidade para os alunos da região conhecerem mais sobre o mestre, um dos responsáveis por iniciativas como o Ponto de Cultura Cinema de Animação, as oficinas do Método OCA, o Festival ANIMACINE e a construção do Museu de Cinema de Animação Lula Gonzaga, o MUCA – o único do gênero no país e localizado em pleno agreste pernambucano

Por Marcus Iglesias

“Não teve um dia sequer que eu tenha desistido de fazer o que faço”. Essa foi uma das respostas que Lula Gonzaga, Patrimônio Vivo de Pernambuco, deu aos mais de duzentos estudantes da ETE Professor José Luiz Mendonça, em Gravatá, durante o Outras Palavras realizado por lá na última sexta-feira (9). O encontro foi uma boa oportunidade para que os alunos da região pudessem conhecer mais sobre o cineasta, um dos responsáveis por iniciativas como o Ponto de Cultura Cinema de Animação, as oficinas do Método OCA, o Festival ANIMACINE e a construção do Museu de Cinema de Animação, o MUCA – o único do gênero no país e localizado em pleno agreste pernambucano.

“O Outras Palavras tem rodado várias regiões do estado com a proposta de estreitar as relações entre cultura e educação por meio das diversas linguagens artísticas e do contato com os mestres da cultura popular, dentre eles o patrimônio Lula Gonzaga, que até então não tinha participado com a gente. Em três anos, além das diversas edições realizadas em museus, teatros e espaços culturais, a iniciativa atingiu quase 590 escolas, mais de 17 mil estudantes e entregou mais de 6100 livros às bibliotecas por onde passou”, pontuou Humberto de Jesus, que integra a equipe do projeto.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro/Secult-PE

O MUCA – Museu de Cinema de Animação Lula Gonzaga, é o primeiro museu dedicado à formação técnica e preservação das imagens animadas da América Latina

Quando o assunto é a história do cinema de animação em Pernambuco, o cineasta Lula Gonzaga, de 66 anos, torna-se um personagem central. Ele foi o primeiro pernambucano a enveredar pelos caminhos que unem o audiovisual ao desenho animado. Sua postura diante da sétima arte, tratando-a como ferramenta de transformação social, fez dele um mestre reconhecido por muitos, não só no estado, mas em todo o Brasil e pelo mundo afora.

Mediador do encontro, o jornalista e também cineasta Marcos Henrique Lopes explicou aos estudantes como funciona a dinâmica do Outras Palavras nas escolas. “É um projeto que só faz sentido com a participação de vocês. E hoje nós temos a participação de um cineasta muito importante para o nosso estado. Vou começar iniciando o papo, mas vou sempre recorrer à interação de vocês”. O recado de Marcos parece ter sido bem ouvido pelos alunos e alunas. Contadas, foram mais de quinze perguntas só voltadas para Lula Gonzaga.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

Elimar Caranguejo/Secult-PE

“Não teve um dia sequer que eu tenha desistido de fazer o que eu faço”, respondeu Lula Gonzaga a um aluno depois de perguntado se já havia pensando nisso alguma vez

“Tudo o que você fez e faz ao longo da carreira artística foi pensando adiante, se preocupando com a difusão do conhecimento. Você não é só um cineasta, é de um fato um mestre, e queria ouvir um comentário seu sobre o assunto”, disse Marcos, antes das perguntas feitas pelos jovens.

Entender o legado de Lula e seus projetos sociais requer uma visita à sua trajetória. As inspirações começaram ainda na infância, na fase em que ajudou um tio que trabalhava no Mercado de Casa Amarela. “Nessa época, ficava observando os bonecos de barro na feira, os cordéis, aquilo me encantava. Com quinze anos fui pela primeira vez ao cinema, o Rivoli, também em Casa Amarela. Ali foi plantada na minha cabeça a semente de juntar artesanato com cinema”.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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“Além desses projetos de animação, o Ponto de Cultura Cinema de Animação realiza o ANIMACINE, um festival de animação que já teve a sua terceira edição e que trouxe filmes de desenho do mundo todo até Gravatá”, explicou Tiago Delácio

Acompanhado do seu filho e gestor do MUCA, o cineasta e produtor Tiago Delácio, Lula pediu para que ao longo da sua fala fossem apresentados cinco filmes de animação desenvolvidos pelo seu Ponto de Cultura (Cinema de Animação): Um sobre cultura popular; o curta Cotidiano (1980); outro sobre o MUCA; um clipe da banda Devotos; e um clipe sobre o Boi da Macuca.

“Além desses projetos de animação, o Ponto de Cultura Cinema de Animação realiza o ANIMACINE, um festival de animação que já teve a sua terceira edição e que trouxe filmes de desenho do mundo todo até Gravatá. Graças a esse festival, inclusive, realizamos nesta escola uma oficina de Stop Motion, uma técnica muito utilizada hoje em dia”, lembrou Tiago, que também respondeu a uma pergunta sobre como ele enxerga as oportunidades de trabalho neste setor.

“Existe o entendimento geral de que desenho é coisa de criança, mas há hoje todo um mercado voltado ao entretenimento adulto. E no Porto Digital, nosso parque tecnológico, estão concentradas muitas empresas que desenvolvem games e aplicativos com animação. É um setor, como se pode perceber, que não falta vaga de emprego”, opinou.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

Elimar Caranguejo/Secult-PE

A aula sobre cinema teve a exibição de cinco filmes de animação desenvolvidos pelo Ponto de Cultura Cinema de Animação: Um sobre cultura popular; o curta Cotidiano (1980); outro sobre o MUCA; um clipe da banda Devotos; e um clipe sobre o Boi da Macuca

Formado pelo Movimento de Cultura Popular, Lula Gonzaga entendeu logo cedo a importância de conscientizar as pessoas através da arte. E percebeu que ninguém trabalhava com cinema de animação em Pernambuco, então voltou seus esforços no sentido de utilizar essa ferramenta como meio de formação. “O Método OCA tem como objetivo ensinar técnicas para populações que não têm acesso a esta arte e com um baixo custo de logística”, detalhou Tiago Delácio. “Fiz mais de 200 oficinas em todo o Brasil e 90% delas foram realizadas no Norte e Nordeste, em escolas públicas e acampamentos do MST, por exemplo”, destacou Lula em seguida.

Após a sessão do curta Cotidiano (1980), um aluno quis saber qual o significado do rosto que aparece durante todo o filme. “Esse curta foi feito em 1980, em plena ditadura militar, mas continua bem atual. Os olhos, bocas e ouvidos estão atentos aos acontecimentos, e ele vê tudo com muita tristeza, com um olhar crítico. No final, perceba que ele fecha a boca, e aparece o nome ‘fim’. A ideia era fazer uma crítica à censura, mas não perceberam isso e acabaram deixando passar”.

“Uma curiosidade sobre este curta é que o cineasta e pesquisador da UFPE Marcos Buchini fez um livro sobre o cinema de animação em Pernambuco e descobriu nessa pesquisa que o primeiro filme de animação daqui do estado foi feito por Lula Gonzaga”, pontuou Tiago.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Apenas para Lula Gonzaga, os estudantes da ETE Professor José Luiz Mendonça fizeram mais de quinze perguntas

Depois, perguntado pelo aluno Alcimar se em algum momento foi perseguido pelos militares, Lula preferiu dar a resposta: “Não fui preso nem exilado porque minha linguagem era subliminar, e era muito difícil pra eles entenderem o que eu queria dizer. Simplesmente não conseguiam”, completou, com um sorriso no seu rosto, um riso de resistência. Depois da fala, recebeu da direção da escola o convite para realizar uma oficina de animação para que os estudantes de lá possam futuramente desenvolver seu próprio filme.

Esta edição teve também a presença do cantor e compositor Adiel Lula, um dos artistas que mais participou do Outras Palavras, e que desta vez levou uma aula-espetáculo sobre a origem do coco de roda, entre outras manifestações da cantoria popular nordestina, como embolada, toada e repente. “Costumo dizer que só acredito em política cultural quando ela caminha ao lado da cultura. E estou aqui para falar de uma coisa que minha bisavó, meu avô e meu pai já faziam, que é a cantoria”, disse Adiel.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

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Esta edição do Outras Palavras também contou com a presença do cantor e compositor Adiel Lula, que deu uma aula-espetáculo sobre a origem do coco de roda

O músico mostrou as diferenças nas batidas entre os diversos cocos pernambucanos, como o de Guadalupe, de Amaro Branco, do Moxotó, da região no entorno de Glória do Goitá e da Mata Norte, da qual é representante.

“O coco de roda é um gênero genuinamente brasileiro e nordestino, que surgiu a partir do contato entre negros, europeus e índios. A gente aqui faz careta quando vê alguém tocando coco, enquanto o resto do mundo sorri. É uma mistura de dança, música, poética e ancestralidade, e que surge como uma espécie de carta de trabalho”, disse Adiel ao começar sua aula, respondendo uma pergunta sobre se no exterior as pessoas valorizam essa manifestação cultural.

Elimar Caranguejo/Secult-PE

Nas comunidades Nordeste afora e nos tempos passados, segundo o artista, quando alguém precisava, por exemplo, construir uma casa nova, convidava os moradores da região pra ir ao terreno, oferecendo ao longo da madrugada muita cachaça e comida. A festa seguia com música, enquanto as pessoas pisavam o chão de barro para deixar ele bem batido. “No raiar do dia, você já tinha tudo pronto, bastava jogar uma água e passar uma vassoura depois. Esses encontros passaram a se repetir em outras cerimônias como casamentos, comunhão de crianças, batizados, despedidas e retornos”, narrou Adiel, que entre uma fala e outra cantou ao lado dos estudantes diversas canções, levando a teoria para a prática.

Até o final de novembro, serão realizadas outras cinco edições do Outras Palavras. Confira a programação:

14 de novembro
9h – Recife
Cinema São Luiz
Exibição do filme ‘Menina de Barro’, de Vinícius Machado

21 de novembro
9h – Recife (Linha do Tiro)
EREM Padre Nércio Rodrigues
Sidney Rocha + Quinteto Violado

22 de novembro
14h – Recife (Graças)
Museu do Estado
Raimundo Carrero + SPOK (mediação de Sidney Rocha)

22 de novembro
14h – Jupi
Mãe Coruja

30 de novembro
Arcoverde
Participação na 2ª Feira Literária do Sertão

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