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Fundarpe

Uma escola com Outras Palavras

Projeto da Secult-PE e Fundarpe segue plantando a semente do livro, da leitura, literatura e da cultura popular entre jovens estudantes

Michelle Assumpção

O quadro branco da sala de aula ainda está repleto do último assunto de química. Três metros de extensão por um de largura repleto de fórmulas, conceitos, exercícios e recomendação de tarefas para casa. Mas agora há instalado também um projetor e as cadeiras formam um círculo para receber os estudantes para uma atividade diferente. Eles vão chegando com o mesmo olhar de quem, horas antes, tentou prestar o máximo de atenção nas informações do professor. Vencendo o cansaço e aquela vontade de checar no celular, mais uma vez, a última postagem. Agora serão Outras Palavras. Sim, nenhum outro nome seria melhor para batizar este projeto que na sexta-feira, 5 de maio, chegou a sua 260ª edição numa escola pública de Pernambuco. Consiste em reunir, numa sala de aula ampla ou auditório, alunos, professores, escritores e artistas. Juntar Cultura e Educação, e sobretudo mostrar que uma empodera a outra. Fazer crer que ler não é nada careta, aliás, pode ser revolucionário. Voltar a fazer da escola o lugar de estímulo às novas descobertas.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

Estudantes de Jaboatão vivenciaram manhã de trocas culturais

O convidado da vez, na escola Alzira da Fonseca Breuel, em Cajueiro Seco, Jaboatão dos Guararapes, é o escritor Mário Filipe Cavalcanti, vencedor do 3º Prêmio Pernambuco de Literatura, e também o poeta, coquista e violeiro cantador Adiel Luna. Mário, que estudou todo ensino médio em escola pública, está animado em compartilhar sua experiência criativa com os alunos em fase de decidir que rumo tomar, com relação à sua formação profissional. Ele, que é um leitor voraz, sabe que os livros são decisivos na construção do indivíduo. E que cabe a cada um a decisão, independentemente da escola em que se estuda. “O jovem escolhe se vai chegar em casa e abrir o Youtube, o celular ou o livro. O que é mais fácil?”, provoca.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

O escritor Mário Filipe Cavalcanti conversou com os alunos

Para o escritor, uma obra só se completa quando alguém a lê. O livro vai estimular e aumentar o vocabulário, oferecer exemplos de experiências de vida, suscitar debates políticos e filosóficos e, especialmente no jovem, gerar cidadania e voz ativa. “Nosso papel na vida vai além daquilo que dizem que a gente pode ser. Ler e produzir leitura é uma forma de resistir a tudo que nos oprime que está posto”, reflete. Na conversa com os alunos, Mário deu mais uma real: “literatura boa dá um soco no seu crânio, e potencializa a criação artística”. Para provocar ainda mais, ele pergunta quantos dali leram, pelo menos, um livro. Todos levantam a mão. Depois pergunta quem leu dois, e segue avançando nos números enquanto o número de mãos levantadas vai diminuindo.

Uma menina, porém, foge às estatísticas e diz que perdeu as contas do quanto já leu. Wilyene Venceslau, 17, topa inclusive o desafio de ir lá na frente da sala recitar um de seus poemas, pois além de grande leitora, também poetisa, e vem guardando histórias desde muito cedo. “Sempre tive paixão pelos livros e na adolescência veio a necessidade de escrever. Foi quando comecei a formar meu senso crítico. Passar um dia sem ler era desperdiçar meu tempo”, conta. Wily, como as amigas a chamam, fortaleceu sua identidade de gênero e tem nos temas que envolvem o universo feminino a temática mais forte de suas poesias e contos. Filha de uma mãe que criou sozinha ela e a irmã, Wily diz que o estímulo para a leitura não veio de casa (hoje ela é quem leva livros para a mãe e a irmã lerem), mas da sorte de ter tido alguns professores que a estimularam. Mas também tem certeza de que já nasceu com alguma verve para a literatura.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

Estudante recita suas poesias para os colegas

Inteligente, ela também reflete sobre a falta de leitura entre a grande maioria dos jovens da sua geração. “Não adianta querer que eles comecem pelos clássicos. Eles tem que começar lendo assuntos e autores que gostam. Porque de primeira é um choque, e ele pode ficar desmotivado se for obrigado a ler uma coisa que não entende. O ser humano é influenciável e tudo é uma questão de saber lidar”, diz. Para Wily, a leitura é uma ferramenta de libertação. “A geração da gente quer mudar tudo, mas tem que ir buscar e não depender somente do professor. Se eu não tivesse buscado estaria no grupo dos que não acreditam (em mudança). Por que tem pessoas cujo interesse é manter a gente numa bolha de ignorância, para poder nos manipular”, reflete.

Os irmãos gêmeos Alexandre e Alexsandro, 17, confessaram que ler nunca foi um hábito entre eles. Mas gostam de mangá, e também leem notícias de jornal. “Para entender o cenário da política e essa bagunça toda que está ai”, diz Alexandre. E por que não leem mais? “Acho interessante, mas a gente vai fazendo outras coisas, quando vê falta tempo, não criamos o hábito”, conta Alexsandro. Quando começa o bate papo com os escritores, os garotos não desviam a atenção. Estão atentos e animados pelas ideias ali lançadas.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

O cantador Adiel Luna também participou do encontro

O poeta e violeiro Adiel Luna, atento a toda conversa no fundão da sala, está só esperando sua vez de atuar. Ele encerra a atividade contando causos, poesias, fazendo graça enquanto ensina aos meninos a importância que é viver a cultura que se tem. “Conseguiram colocar na cabeça da gente que tudo que vem do meio rural é pobre, é cafona, feio e não vale a pena. E isso vai afastando muito jovem da cultura tradicional do seu próprio lugar. Meu maior orgulho é ter resistido a isso. Vamos acreditar mais na gente e no que é nosso, principalmente nesse momento político por que passa o país”, conclama Adiel, a esta altura, já com o domínio da sala inteira.

Viu como é fácil o consumo de poesia, Alexandro? Sim, mas ele nunca duvidou que era. Falta só falta fazer da leitura uma prática diária. O escritor Mário Filipe dá o exemplo: “tenho nove livros de cabeceira neste momento”. Ler é combustível de quem escreve, diz ele. E de quem estuda também. Para Mário, é preciso desengessar o ensino. “Os meninos passam de ano, mas não aprendem. Quem está recebendo conteúdo também tem muito o que ensinar”, provoca.

Jan Ribiero/CulturaPE

Jan Ribiero/CulturaPE

A vice-presidente da Fundarpe, Antonieta Trindade, entregou kit literário para a escola

O Outras Palavras serve para isso. Para apresentar, instigar, incentivar, provocar. Dura um dia apenas, mas assim como para plantar basta um só dia, o projeto vai colhendo frutos. Até agora já foram 5.752 mil alunos que participaram, em 260 escolas visitadas, que juntas receberam 3.749 livros para distribuir e promover leituras com seus estudantes. Na escola Alzira da Fonseca, os livros dos autores pernambucanos que foram doados (entre eles, o premiado Caninos Amarelados, de Mário Filipe) ficam na Geladeira Cultural. Uma geladeira desativada feita de móvel que guarda livros que os próprios alunos trazem, levam, devolvem, numa dinâmica de liberdade e confiança que deve permear todo ambiente em que se deseje o progresso.

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