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Literatura

5º Prêmio Pernambuco de Literatura lança livros vencedores

Novas coletâneas de poemas, contos e um romance foram agraciados com a premiação, uma iniciativa do Governo de Pernambuco (Secult e Fundarpe) e Cepe Editora

Uma reunião de contos sobre viagens e descobertas; um romance-livro de memórias do protagonista; um poemário que joga luz sobre o fazer criativo do poeta; uma narrativa que mergulha nas pequenas tragédias cotidianas do homem; e ainda um conjunto de histórias que evidenciam as diversas facetas do feminino integram a mais recente coleção da Cepe Editora. São as obras que venceram, em 2017, o 5º Prêmio Pernambuco de Literatura, uma iniciativa do Governo do Estado (Secult-PE, Fundarpe e Companhia Editora de Pernambuco).

O lançamento coletivo das cinco publicações, que registram mais um imperdível momento da nossa literatura, está marcado para às 19h da quinta-feira, 26 de abril, no Museu do Estado de Pernambuco.

Divulgação

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Lançamento será no Museu do Estado de Pernambuco, aberto ao público

Primeira mulher a receber o maior reconhecimento em uma edição do Prêmio, a escritora Ezter Liu, residente em Carpina, apresenta o livro de contos das tripas coração. Revelando ainda a produção literária da Zona da Mata, O Velocista é o primeiro romance de Walter Cavalcanti Costa; e chã, o novo poemário de Enoo Miranda. Representando o Agreste, o romancista Amâncio Siqueira lança seu Nem tudo cabe na paisagem.  O poeta Fred Caju completa a lista de agraciados lançando nada consta.

A Presidente da Fundarpe, Márcia Souto, comemora a chegada dos novos livros. “Este é um momento muito importante para todos nós que lutamos por mais visibilidade para a literatura pernambucana e para ampliação do acesso ao livro e à leitura no Estado”. É que além da premiação no valor total de R$ 40 mil aos escritores e a tiragem de mil exemplares de cada obra, o Prêmio garante ainda a distribuição dos livros a escolas públicas do Estado e a participação dos escritores em rodas de diálogo de eventos como o Festival de Inverno de Garanhuns e de projetos como o ‘Outras Palavras’.

“A Cepe participa, com muita satisfação, desta iniciativa. Promover o livro e a leitura é uma das principais missões institucionais da empresa e fazemos isso, ainda com mais entusiasmo, quando editamos trabalhos com a qualidade dos que venceram o 5º Prêmio Pernambuco de Literatura”, destaca Ricardo Leitão, presidente da Cepe.

MAIS RECURSOS PARA A LITERATURA PERNAMBUCANA

No dia 17 de dezembro de 2017, o Governador Paulo Câmara assinou decreto ampliando os recursos destinados à iniciativa – de 40 mil para 90 mil reais – e rebatizando-o de Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. De acordo com Marcelino Granja, Secretário Estadual de Cultura, “além da deferência a um grande escritor, que marca a história da arte e da cultura pernambucanas, o novo formato do Prêmio amplia o número de vencedores, contemplando mais um autor da RMR e os segundos colocados de cada macrorregião”. A sexta edição do Prêmio recebeu 161 inscrições, de todas as regiões pernambucanas.

AS OBRAS

Grande vencedor do 5º Prêmio Pernambuco de Literatura, das tripas coração, de Ezter Liu, reúne dezoito contos que têm em comum a temática feminina, mas as narrativas apontam para panoramas diversos. A mulher que é deus, a mulher-monstro, a mulher que foge, a que faz perguntas, a que acende fogueiras. São as várias faces do feminino que protagonizam as histórias. A escolha estética de uma narrativa sem vírgulas aponta para a necessidade de contar sem pausas, com o fôlego possível, o que precisa ser contado, porque o texto tira da adversidade a sua força e atravessa os próprios limites para dizer o que precisa ser dito, muitas vezes usando a poesia nas entrelinhas das narrativas como alinhavo e marca de estilo.

Tenho dezenove anos e coleciono isqueiros vazios. Coleciono isqueiros. E coleciono vazios. Tenho vinte anos e aprendi a odiar o formato dos meus seios. E aprendi a odiar a finura dos meus lábios. Meu coração Himalaia. Meu coração Vale do Catimbau. Meu coração dimensão estranha. China plástico neon coqueiral. Tenho setenta anos nos domingos depois do jantar. Lenta. Premeditada. Disfarço a imprecisão das mãos. Tenho trinta pontuais anos no expediente. Me sirvo de bandeja. Sem atrasos. Tenho quarenta e três anos e calos nos cotovelos. Me sirvo com gelo no balcão do bar. Tenho cinquenta anos. Preciso parar de beber. Tenho dezesseis anos. Preciso parar de fumar. Tenho sessenta e sete anos. Preciso acreditar nos santos. Em deus. Em mim.

 

nada consta é o nono livro de poemas de Fred Caju. Um poemário sobre o próprio poemário, luzes sobre processos criativos do escritor. Pode ser ainda uma pinça a arrancar, uma a uma, as plumas dos poetas. Armadura, também pode ser.

pediram a cabeça
do poeta incendiário
chega de badvibes
foi o que disseram
após a decapitação
o cheiro de pólvora
ficou com cheirinho
de morango e não
se ouviu nunca mais
nenhuma explosão
nasceram arco-íris
longe das chuvas
e nenhum poema
precisa mais existir

Em chã, Enoo Miranda evoca pequenas tragédias cotidianas que assolam o homem do nosso tempo, ora evocando cenários e hábitos do trabalho no meio rural, ora realçando conflitos internos ou típicos da vida nos grandes centros urbanos. Mormaço, suor de trabalho, calor de motim, desordem. A maioria das pessoas que vivem nesse livro também vivem em outros lugares. O fogo dos homens. O mesmo fogo que não garantiu a superioridade destes homens sobre os outros animais. O que usamos para matar uns aos outros. Ou como disse um poeta amigo em tom de pilhéria sobre textos de orelhas de livros de poesia: “Bota tipo ‘Sugiro que leia sentado em assento confortável. Se preferir, aperte o cinto. Esse livro é o brilho sobre as vossas carniças’”, e no fim parece ser isso – além do que é.

o ruído que faz a tua sombra
rasgando um pedaço
de chão duro é o de
um corpo-
carcaça
arrastando as
mazelas de
3 gerações
em uma chã
qualquer.

Viagem e descoberta são os motes que dão unidade aos contos de Nem tudo cabe na paisagem, de Amâncio Siqueira. O poeta que decide rodar o mundo para viver seu poema épico; o homem que viaja a um passado ainda não cicatrizado durante uma confissão; o marido que volta para casa após despedir-se de um amigo; o índio que quer vingança contra o homem branco que matou seu pai; o pai que caminha no corredor do hospital para encontrar o filho internado; o filho que tenta acertar as contas com o pai durante uma longa viagem… O texto direto lança uma luz diferente sobre situações cotidianas, expondo seu teor dramático nos recortes apresentados, muitas vezes flertando com o cômico, incidindo como um raio X sobre a vida ao redor.

Não fez essa viagem hoje. Ontem Júnior teve várias convulsões. A médica teve que encontrar uma veia na cabeça para injetar morfina. Dormiram como não faziam há seis anos: Natália sobre seu colo e Júnior sobre o colo dela. Passaram uma hora assim, e foi todo o descanso que tiveram. Sua viagem foi longa pela manhã: atravessar a rua para tomar café. Quase dormiu sobre o balcão da padaria, mas o cansaço era tão grande que fechar os olhos não bastava para cessar o estado de alerta. Fechar os olhos faz a mente viajar ainda mais, embora ela passeie apenas em volta do leito do hospital.

No percurso de O Velocista, o autor Walter Cavalcanti Costa navega pela experimentação formal e procura mostrar suas influências em quatro epígrafes: o futurismo europeu, o modernismo brasileiro, o concretismo brasileiro e a teoria literária. Com linguagem telegráfica, a obra é também um livro de memórias do protagonista, o astronauta Jô Tadeu. O velocista, antes de ser uma odisseia espacial, é uma fragmentária, melancólica, irônica e nervosa viagem do protagonista a si mesmo e aos que o cercam, através de suas lembranças descontinuadas.

Eu sou Jô Tadeu Tábua, sou astronauta. Sou filho da estilista Carolina Vásquez e do Professor de Ciências Contábeis João Tábua. Sou casado com Beyita Samana, a governadora do Estado de Pernambuco, no Nordeste, da República Federativa do Brasil e sou irmão do artista plástico Von O’ Val, que é casado com a bibliotecária Valbuena Sales, que fala sete línguas ocidentais. Sales trabalhou com meu pai, João Tábua, no local onde hoje é a biblioteca que recebe o nome dele.

Tenho um filho chamado João Tadeu. Uma filha está para nascer. Nasceu.

Estou há 35 dias, 6 horas e 27 minutos terrestres no espaço.

MAIS SOBRE OS ESCRITORES

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Ezter Liu

Ezter Liu nasceu no Recife, mas mora em Carpina desde criança. Graduada em Letras, escritora de prosa e poesia, desde o ano de 2005 tem seus textos publicados em várias coletâneas na região e no estado. Em 2015, pela Porta Aberta Editora Independente, lança seu primeiro livro solo: Vermelho alcalino (poemas). Ezter Liu e o ritmo de sua literatura se misturam à efervescência literária de Pernambuco, sobretudo na Zona da Mata, e assim, como os recitais e banquinhas independentes, insiste e resiste.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Fred Caju

Fred Caju é autor de Arremessos de um dado viciado, As tripas de Francis Conceição por ela mesma, Paisagens sépias, Intervalo aberto, Estilhaços, Transpassar: poemas de atravessamento, O revide das pequenas maldades e Permanência. Também é editor, artesão do livro e livreiro nômade da Castanha Mecânica.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Enoo Miranda

Enoo Miranda é escritor, coordenador do Cineclube Tela da Mata, professor licenciado em Letras pela Universidade de Pernambuco, campus Mata Norte, situado em Nazaré da Mata, município onde reside e trabalha. Entre suas publicações encontram-se textos em antologias, como Inquebrável: Estelita para cima (Mariposa Cartonera, 2014), a coletânea 1 (Publique-se!, Livrinho de Papel Finíssimo, 2015), e o livro solo Papel de pegar mosca (Porta Aberta, 2016). Atualmente se dedica à criação do selo Vão! Edições e Publicações Independentes.

Valeria Vieira

Valeria Vieira

Amâncio Siqueira

Amâncio Siqueira nasceu em Afogados da Ingazeira e mora em Garanhuns. Aficionado por livros, acalenta a ilusão de que existem aqueles que ainda não foram escritos e tenta escrevê-los. Entre tais tentativas, teve publicada a novela Quebra Cabeças, em 2014.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Walter Cavalcanti Costa

Walter Cavalcanti Costa é doutorando em Teoria da Literatura (PPGL/UFPE). A maior parte de sua formação foi realizada na UPE/Mata Norte, com graduação em Licenciatura em Letras, especialização lato sensu em Literatura Brasileira e Mestrado Profissional em Educação (PPGE/UPE). Recifense, nascido em 1989, é professor do quadro da rede pública de ensino de Pernambuco. Na escrita, realizou publicações acadêmicas em diversas revistas científicas. Publicou Entressafra 89 (2011), livro de poemas e contos que também ganhou curta-metragem, e Marlinda: Em diálogo de amor às suas cidades (2017), livro infanto-juvenil incentivado pelo Funcultura, em parceria com Milca de Paula.

SERVIÇO
Lançamento dos livros vencedores do 5º Prêmio Pernambuco de Literatura 
Quinta-feira, 26 de abril | 19h
Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, 960, Graças – Recife)

Valor de cada livro: R$ 20,00

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