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Literatura

Biagio Pecorelli lança o livro “Vários Ovários”

Reunindo sua produção poética de 2008 a 2013, publicação traz a expressão mais violenta e amorosa do artista

por Leonardo Vila Nova

Despudorado, passional e sem amarras. A persona artística do poeta Biagio Pecorelli vai tão profundo dentro de si, que chega a tornar suas próprias entranhas os poemas que escreve, de uma vermelhidão liricamente crua, carnal. Mas faltava-lhe um livro. Agora, não mais. Revolvendo sua produção poética de 2008 até 2013, finalmente ele coloca parte da sua obra no papel, ao gestar e parir Vários Ovários (Edith, 52 págs), livro que ele lança, no Recife, nesta sexta (19), a partir das 20h, no Espaço Pasárgada (Boa Vista). Para marcar esse momento, ele fará uma performance poético-musical com o cellista Artur Danda e o artista sonoro Deco Nascimento.

Roberto Bastos

Vário Ovários é, acima de tudo, um livro sensorial. Os poemas que vão discorrendo pelas folhas do pequeno livreto sugerem imagens o tempo inteiro, excitam os sentidos, comovem ao mesmo tempo que intrigam. “Não há um estilo pré-definido. De um modo geral, o livro traz mais os poemas com fluxo de imagem e da própria escrita. Poemas que trazem essa violência, esse excesso do meu verso, da construção de imagens”, explica Biagio. Os poemas que compõem o livro se deram no Recife e em São Paulo, onde reside desde 2011, quando se integrou ao Teatro Oficina. Foi em São Paulo onde, há cerca de um mês, Biagio lançou Vários Ovários, dentro da programação da Balada Literária.  Justamente por ter sido lá que ele encontrou, mais livremente, seu “lugar como poeta”. Sua criação artística, que não possuía assento na capital pernambucana – por não pender para regionalismos nem para a poesia urbana, a “marginal” – conseguiu se colocar no caleidoscópio caótico da Paulicéia Devairada, ou, como ele diz, “o dadaísmo da vida cotidiana”.

Um livro de paixões: muitas das páginas de Vários Ovários são marcadas por pulsões afetivas e sexuais, pelas experiências amorosas de Biagio com diversas pessoas que passaram pela sua vida, por laços de amizade ou por relações passionais, e pelas circunstâncias em que elas se deram. Porém, não há dedicatórias, apenas o regurgitar dessas vivências, muitas delas bombásticas em sua vida, lembra ele, ao enfatizar que, entre esses poemas, há “alguns escritos em estado alterado, outros muito sóbrio”, ao lembrar de situações em que se viu envolvido com outras formas de entorpecimento, que não apenas o poético.

Esse mesmo desprendimento com que lida com sua vida particular, e que se confunde com sua criação, ele também adotou durante o processo de feitura do livro. Ele não se viu contaminado por preciosismos com sua obra ao se deparar com a possibilidade de ter que mexer na estrutura e conteúdo de determinados poemas, que acabaram ganhando novos contornos para se adequarem à estrutura física do livro. “Aos 45 do segundo tempo, eu mudei boa parte do que tinha escrito, muito porque parte desses poemas não cabiam na diagramação do livro. Meu traço poético, as coisas que eu escrevo não tem um acabamento, não estão prontas, fechadas. São transitórias”. O poeta acrescenta que esse trabalho de reescrita de alguns desses poemas se deu muito pelo envolvimento que ele procurou ter com todos os detalhes do livro, desde o tipo de papel, a fonte, a capa e o tamanho da publicação, um formato “quase” pocket. “Eu queria um livro que coubesse nos bolsos largos da juventude ‘maloqueirista’ paulista e recifense”.

Vários Ovários já virou marca no corpo de Biagio. Desde o último sábado, ele traz tatuada no braço a ilustração da capa do livro. Os traços revelam um misto de doçura e sadismo: a face de uma singela e encantadora menina, com sangue escorrendo pela boca, sendo violada, em seu íntimo, por uma agulha. O desenho é criação da ilustradora paraibana Luyse Costa. “Ela, na verdade, é ilustradora de livros infantis. Eu recebi várias opções de desenhos para a capa, de vários artistas. Mas eu queria arriscar com uma pessoa que poderia construir a violência do livro, mas com uma sutileza. Conversei com ela, que topou a ideia. Foram vários desenhos até chegarmos a essa menina, que é bem icônica, parece uma esfinge”.

Além de poeta, Biagio também é ator e performer. Suas várias inclinações e expressões artísticas, no entanto, sempre se dão através da linguagem poética. “Nunca me entendi fora desse lugar de poeta”. Porém, ele também compreende que sua poesia não está presa às margens do papel e necessita de outras intervenções para se manifestar. Por isso, no lançamento que acontece nesta sexta, no Espaço Pasárgada, ele se une ao artista sonoro Deco Nascimento e ao cellista Artur Danda para uma performance que irá unir música e intervenções sonoras, atuando juntas e em consonância com – ou como suporte para – a sua poesia.

Confira dois poemas de Vários Ovários

NA CAMA, DEPOIS DA PRAIA

eu tramo hiatos no relicário do destino.
talvez para adocicar a ação pétrea
do tempo, talvez apenas para
adorná-lo de miçangas. Mas tu
me sangras, Tempo, sempre
pela veia nau da nostalgia:

eu lembro de Jandira, sentada no beliche,
fuçando na revista a exuberância
de Jocasta, digo, a lascívia
de Vera Fischer.

que pena. Jandira era muito mais.
coçava minhas cataporas,
trazia pirulitos de helicóptero,
pena que.

minha bazuca de ovos falhou
já perto do céu,
na cobertura do edifício. Meu irmão
chegou e tomou o meu juízo pela orelha.

e Jandira? o que fez?
calada estava e espanando os móveis
da sala ficou. Se a mocidade

fosse um copo de suco (qualquer suco),
colaria sempre um lábio
no outro,

feito mangaba.
feito Jandira, na cama,
depois da praia, vacilando de maiô.

SEM TÍTULO Nº 7

o azul do césio 137 brilhando
no olho de um índio

flocos de neve (finos) sobre
os cadáveres de Vigário Geral

o Vesúvio vomitando tudo
sobre um dos meus mamilos

os fiéis suicidas de Jim Jones
elevados a anjos

um caça norte-americano
sobrevoando um canarinho

o Bandido da Luz Vermelha
mastigando algodão-doce

uma multidão de sacerdotes
nos arredores da Disney World

almôndegas no macarrão
do Terceiro Reich

jacarés se amam no pantanal
do Mato Grosso

uma lágrima desce
pelas bochechas de Brutus

a relva está tomando tudo
em nossa sala de estar meu amor

gargantilhas punk
no tronco dos eucaliptos

uma mosca (varejeira)
relê uma pilha de livros

os dois caninos da mãe
um dedo mindinho contra uma foice

a face de um bebê
no trajeto de um coice

naftalina sobre um
sorvete de tutti-frutti

pedaços de urânio
entre os girassóis de Van Gogh.

SERVIÇO
Lançamento do livro Vários Ovários, de Biagio Pecorelli
Sexta (19), a partir das 20h
Espaço Pasárgada – Rua da União, 263, Boa Vista – Recife/PE

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