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Literatura

Cancão: escritor homenageado

No dia 12 de maio do próximo ano, se vivo fosse, o poeta João Batista de Siqueira, conhecido como: Cancão, estaria completando exatamente cem anos. Justamente no mês das noivas, das novenas. Mês de Maria (a mãe de Jesus, o Sumo Bem), de quem Cancão era supremamente devoto.

Os sertões do Pajeú pernambucano e Cariri paraibano terão a oportunidade de celebrar o aniversário do seu particular Sumo Bem. Pois, como alguém já disse, caso existisse um Deus da poesia naquelas regiões, esse Deus teria nome e seria – Cancão, o Pássaro Poeta.

Não é pra menos, já que o Pajeú pernambucano e o Cariri paraibano contam com a magia do Pajeú, o rio feiticeiro e o garboso desfile da Serra da Borborema, com suas carregadas baterias (contrafortes), e a proteção parcimoniosa dos Deuses da poesia, que ecoa na ressonância das casas e taperas de seus habitantes.

Se a língua portuguesa nasceu do brado das largas discussões do crochê popular. Se a língua portuguesa nasceu da prática oral e não dos textos eruditos da Roma Imperial. Então, podemos tomar o Pajeú e Cariri como autênticos precussores da oralidade poética da nossa língua pátria/sertaneja, da nossa língua mãe, tendo o – Homem Pássaro como o nosso eterno interlocutor poético, comum aos dois gêneros.

João Batista de Siqueira foi um homem simples fora da medida. Um homem comum nos hábitos, no ritual da vida, na sucessão dos dias, no gestual, no vestir. Um homem do campo, um agricultor.

Começou tocando viola, para depois ver que não dava para o “serviço”, largando-a a posteriori para se valer de um bico de pena, de um lápis, de um pedaço de papel de balcão para escrever seus poemas, suas revelações para guardá-las dentro de uma caixa de sapatos.

Homem de choro frouxo, de sentimento exposto a toda prova. Afeito à natureza dos cactos, das macambiras, dos irmãos pássaros, à relva. Daí, fora um pulo para o fortalecimento de suas asas, até alçar voos de maior amplitude, mais rasantes, profundos, longínquos. Rápidos. Na demonstração de um poeta completo, de sentimento assombroso, iluminado.

De João, a João Batista, como qualquer brasileiro, veio a se transformar em um poeta, incomum, escritor de uma linguagem metafórica, sideral e sofisticada. Portador de uma habilidade que passava por cima das Academias de Letras, das teorias literárias, saindo da “Velha Grécia” sertaneja do Pajeú até aportar no solo e na mitologia grega, de fato:

“ÉS DAS REGIÕES POLARES
A MAIS DELICADA PLANTA
VIVES IGUAL UMA SANTA
ENTRE AS TOALHAS LUNARES
OS GÊNIOS DOS LONGOS MARES
DÃO-TE ATRAÇÃO SOBERANA
ÉS A MAIS GENTIL LIANA
EM FORMA DE CRIATURA
NASCESTE DA NINFA PURA
DA MARESIA INDIANA”

Foi dessa forma, lendo os poemas de Cancão que alguns estudiosos e pesquisadores chegaram a insinuar a não autenticidade de sua obra, por uma possível psicografia dos seus escritos, justo que, um homem do sítio que só teria lido Fagundes Varela e Cassimiro de Abreu não teria bagagem suficiente para evocar a mitologia grega. Puro engano. O poeta, escritor, jornalista e boêmio Rogaciano Leite teria se negado a dar depoimento por escrito sobre Cancão, alegando que não seria capaz. Isso, com o detalhe de que Rogaciano fora amigo e conterrâneo do poeta.

O poeta, escritor e político de Sertânia, Moxotó pernambucano – Wlisses Lins de Albuquerque, fora quem apresentou o primeiro livro de Cancão: MUSA SERTANEJA. Em seu discurso de posse na Academia Pernambucana de Letras, também não tirou por menos, exaltando a região e os poetas do Pajeú e Cariri, de Pernambuco e da Paraíba, respectivamente, como fenômenos poéticos localizados.

O poeta e escritor, estudante de Filosofia, o egipciense Lindoaldo Vieira, condensou uma comunhão de textos dos três livros publicados de Cancão em um só no sentido de oportunizar uma leitura digna dos poemas do mestre, para facilitar uma visão mais acurada do leitor – PALAVRAS AO PLENILÚNIO. Título retirado de um poema do poeta. Lindoaldo usou uma linguagem dentro dos parâmetros básicos das Academias, como de resto, teorias literárias como quem dá suporte e almeja subsidiar o leitor mais exigente, embora que causando estranhamento, mas para que o Brasil possa conhecer um poeta “cachorro da mulesta”, que foi Cancão.

(…)

ÉSIO RAFAEL.

Poeta, escritor e pesquisador.

Fonte: Portal Interpoética.

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