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Literatura

Comunicação e Cultura – Um diálogo necessário e urgente

Conquista dos fazedores culturais pernambucanos, o primeiro Plano Estadual de Cultura traz metas e objetivos que visam à democratização da comunicação e incorporação da pauta pelas políticas culturais

Acervo Iphan

Acervo Iphan

Um Plano de Comunicação para a Cultura é estratégico para fortalecimento dos grupos e artistas populares

 

Por Michelle de Assumpção

Num Estado de expressões culturais tão ricas e diversas, reconhecer e difundir grupos, pessoas e territórios responsáveis por estas produções tornam-se fatores decisivos para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e democrática. Assim como não existe povo sem cultura; não há modo de apropriar-se (e empoderar-se) dessa cultura sem que exista comunicação. Comunicação é um direito garantido pela Constituição, e nós exercemos este direito sem nem mesmo nos darmos conta disto, na maioria das vezes. Hoje, com o uso cotidiano e em massa dos smartphones, todos estão a produzir e difundir os mais variados tipos de conteúdos. Mas quando se trata de fazer valer a garantia constitucional e a divulgação da cultura produzida por um povo, é necessário que a Comunicação seja também um caso de política pública.

Entre a comunicação que temos e a comunicação que queremos ainda existe um longo caminho a percorrer. Não é apenas uma questão de levar para as rádios, as TVs, jornais, blogs e redes sociais notícias de uma agenda cultural. Sim, precisamos mapear quem são, onde estão e o que fazem os grupos e pessoas que trabalham com cultura no estado, ou no país. Mas falar sobre a comunicação na cultura é algo mais complexo.

É necessário que a pauta passe a fazer parte dos planos de governo, com uma agenda permanente de desenvolvimento, e a participação não só de pessoas e grupos ligados à comunicação, mas também dos próprios fazedores de cultura. Garantir o fomento à diversidade cultural, e também a difusão dessa diversidade, é papel do Estado e deve ser feita de forma integrada com a sociedade.

A partir desta compreensão o tema da Cultura e Comunicação foi inserido como um eixo estratégico desde as discussões iniciais em torno da minuta do primeiro Plano Estadual de Cultura de Pernambuco. Os debates em torno deste eixo estratégico passaram por todas as pré-conferências realizadas e chegaram à IV Conferência Estadual de Cultura resultando num texto que recebeu contribuições de centenas de fazedores de cultura, de diversas regiões do estado.

Conhecer o Plano torna-se, portanto mais um passo nesta trajetória que Pernambuco pretende trilhar, no sentido de democratizar os meios de comunicação e ampliar a difusão da nossa produção cultural. Entre as ações estratégicas está a elaboração do Plano Estadual de Comunicação para a Cultura. Um marco inédito dentro da política pública de cultura do estado, que passaria a entender a comunicação não apenas como uma atividade transversal a todas as ações da cultura, mas também como um segmento tão importante quanto às demais linguagens da arte, que são também, em si, instrumentos de comunicação: música, teatro, cinema, literatura, artes visuais, fotografia, etc.

“Os governos não institucionalizaram o debate sobre a comunicação. Existem debates em torno da segurança, da saúde, mas a comunicação ainda não aparece nas plataformas dos governos. É preciso que existam políticas públicas para a comunicação para ampliar a ressonância das expressões culturais”, diz o publicitário Guido Bianchi, que acompanhou o debate em torno do Eixo Cultura e Comunicação, dentro da IV Conferência Estadual de Cultura. Em sua opinião, existe uma falta de compreensão histórica das forças políticas, de maneira geral, para com a importância da comunicação que, somado à concentração das mídias nas mãos de alguns poucos grupos, inibem forças mais progressistas de irem adiante. “Sabemos que pelo menos dois terços do Congresso fecham com essa concentração de mídia, porque eles partilham da mesma ideologia”, comenta Guido.

HISTÓRICO – A criação de um Plano de Comunicação para a Cultura é uma estratégia de política de comunicação no campo da dimensão simbólica da Cultura que vem sendo perseguido a alguns anos. Nesta perspectiva histórica, é importante destacar a presença de representantes da comunicação de Pernambuco na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada entre os dias 14 e 17 de dezembro de 2009, em Brasília (DF). Promovida pelo Ministério das Comunicações, contou com a participação de representantes do Poder Público, da Sociedade Civil e da Sociedade Civil Empresarial.

Ainda na esfera federal, também houve debate sobre a importância de uma política de comunicação voltada para a cultura dentro do Ministério da Cultura. O objetivo era desenvolver um plano para desacelerar processos de pasteurização e homogeneização promovidos pelo mercado e endossados pelos meios de comunicação de massa. O MinC chegou a lançar editais como Comunica Diversidade, e edital de Mídias Livres. Atualmente não há continuidade dessas políticas dentro do Ministério da Cultura.

Em Pernambuco, a demanda por políticas de comunicação para a cultura começa a aparecer desde as primeiras propostas tiradas da I Conferência Estadual de Cultura, em 2005. Também foram destaque nas propostas prioritárias saídas da quarta Conferência Estadual de Cultura, realizada em março de 2018.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Beth de Oxum, coquista e comunicadora, defende que os artistas precisam se apropriar da comunicação

A coquista Beth de Oxum foi uma das participantes do grupo de trabalho que discutiu as propostas na área da comunicação para a cultura, durante a IV Conferência. Beth, que também é conselheira estadual de cultura, ainda afirma-se comunicadora, pelo trabalho à frente da Rádio Amnésia, cujas instalações estão dentro da Associação Cultural Coco de Umbigada, onde mora e trabalha com sua família de artistas, no bairro de Guadalupe, na cidade de Olinda. Ela concorda que a pauta da comunicação dentro da cultura é necessária e urgente.

“O Brasil é um país que não se reconhece na comunicação tradicional, não ver nossa cor, nosso cabelo, nossa estética. Temos uma cultura secular com nossos brinquedos, o coco, o maracatu, mas não vemos essas expressões nas comunicações. Ela segrega, ela criminaliza. Ela é o gargalo. É uma comunicação que pauta a sociedade, mas ela não é pautada. Acho importante esses espaços de monitoramento das políticas como os Conselhos de Cultura, nessa perspectiva da gente participar da decisão, de contribuir, de monitorar. Estive presente nas três conferências estaduais de cultura, e sempre vou pra discussão da comunicação, que penso ser o grande gargalo. A gente cria aí uma perspectiva de mudar esse jogo”, coloca Beth.

Em sua opinião, vai ter poder quem dominar a linguagem da inteligência artificial e da programação. “A gente está dando aqui no Coco um curso de inteligência artificial para os jovens. Estamos ensinando a programar. Se não entender como se dá a programação, vai ser difícil combater as fake news, vai ser manipulado. Tem que começar a entender esse processo. Temos que dar o tom da mudança, senão vamos ficar coadjuvantes”, diz a artista e comunicadora.

De forma que não podemos mais hoje pensar em temas como a difusão da cultura, a mobilização dos agentes produtores da cultura, a criação do hábito de ir ao teatro, cinema ou bibliotecas, o acesso do público à informação, sem pensar que tudo isso passa pela criação de eficientes planos de comunicação. Criar estratégias de telecomunicações, possibilitando a atuação de televisões e rádios locais ou regionais no processo de difusão cultural e de informações, apoiar a criação ou incremento de rádios e televisões comunitárias e alternativas, possibilitar o acesso à cultura digital são assuntos urgentes e que não podem mais ficar de fora do debate político.

A partir de todas as propostas já debatidas e sistematizadas no atual texto do Plano Estadual de Política Cultural, o Governo de Pernambuco tem agora a oportunidade de realizar um importante serviço para a difusão da cultura e da produção artística do estado.

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