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Literatura

De que Sertão estamos falando?

A construção do imaginário coletivo através da História e da Literatura é tema de debate neste II Clisertão

Chico Egídio

Chico Egídio

Professores Antônio Paulo (esq.) e Anco Márcio (dir.) debatem como História e Literatura concebem o Sertão brasileiro

por Leonardo Vila Nova

O Sertão nordestino, o brasileiro, parece ser um cenário que ainda tem muito a ser desvelado. Incansavelmente retratado, soa inesgotável, tamanhas as (RE)interpretações a que é submetido, mas que sempre parecem deixar brechas para que outros olhares possam vir a tentar ressignificá-lo. História e Literatura têm se empenhado bastante nisso. Cada uma, a seu modo, cria sua própria imagem do que vem a ser o Sertão, seja recorrendo à interpretação dos acontecimentos, ou pela ficção e fantasia. Aparentemente opostas (uma, pretensamente representante de inferências científicas; outra, fruto da pura imaginação), ambas se retroalimentam. Onde e como atua cada uma delas na edificação desses aparatos simbólicos que significam “Sertão” foi o mote da mesa “Sertão, Literatura e História: relações e incongruências”, com os professores Antônio Paulo de Morais Rezende (UFPE) e Anco Márcio Tenório (UFPE), nesta sexta (9). A mediação da conversa ficou por conta de Elisabet Moreira, professora da casa.

O professor Anco Márcio trouxe como referência à discussão uma das mais emblemáticas obras a tratar do assunto, para explicar todo esse complexo cenário. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Na verdade, uma reflexão crítica. O olhar extremamente científico para elucidar aquela terra, aquele homem, seguindo uma linha determinista, que acabou por se consagrar como uma obra quase que terminada sobre o Sertão e o comportamento humano inserido naquele contexto. “Euclides é filho de princípios científicos e filosóficos que se firmam na evolução material das sociedades, na ideia contínua de progresso, e, por sua vez, na concepção de um tempo linear, contínuo e finito“. Lembrou também do livro “Missão abreviada”, de Manuel José Gonçalves Couto que, para ele, é uma produção literária de envergadura, que permeou todo o imaginário nordestino do século XIX, inclusive, que pautou o pensamento de Antônio Conselheiro, à época de todo o processo que culminou que culminou na Guerra da Canudos. Para Anco, “Os Sertões” foi uma obra de observação de homem de ciência, que relegou a força retórica da emoção – característica mais proeminente na literatura – ao segundo plano, se tornando “responsável por fixar a imagem e a ideia do que carregamos como sendo sertão“, concluiu Anco.

Já o professor Antônio Paulo tirou do foco produções específicas e trouxe a discussão para o campo das dicotomias específicas entre discurso literário e discursos histórico. “História e narrativa” foram expressões dissecadas por ele, que acredita que as construções de linhas de pensamento não devem ser tão objetivamente frias ao ponto de renegarem o “espaço de encantamentos” da narrativa literária. “Fica o encontro para quem continua adormecido no berço do positivismo, para quem pensa que História é um território cercado de fronteiras impenetráveis, sem lugar para a fantasia, mas apenas para o fato“. Antônio sugere uma mudança de paradigmas, capaz de trazer ao campo da descrição histórica o modo subjetivo e cheio de possibilidades de interpretação, reentrâncias poéticas, subjetividades e “sedução” que há no discurso literário. “A História é um diálogo entre mudança e permanência“, disse, ao que foi seguido por Anco, que afirmou que “o entrelaçamento de tempos está presente na ficcção“.

Eis que o Sertão edificado pelo discurso científico de Euclides da Cunha em “Os Sertões” permaneceu inquestionável até o anos de 1930, com o surgimento do movimento literário regionalista, que trouxe autores como Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Jorge Amado, entre outros, responsáveis, então, pela mudança de rumos, pelo substrato de afetividade em sua forma de descrevê-lo. E eis que esse mesmo Sertão, a partir de então, acabava por ser reverberado, através de uma imagem solidificada e quase que imutável, retrato dessa época. Mas é preciso sempre reinventá-lo. O tempo é dinâmico. A História é dinâmica. E a Literatura nos abre intermináveis janelas para isso.

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